O escândalo é, sobretudo, triste

O escândalo é, sobretudo, triste. E muito mais penosa do que aquilo que o motiva é a miséria generalizada que costuma escancarar. Espraia-se, extrapola os próprios limites; estimula, traz à tona o que há de mais desprezível no ser humano, desde a repugnante maledicência àquela vergonhosa schadenfreude. Aquele que observa o fenômeno acaba com a certeza de viver entre porcos. As línguas assanhadas, o tom presumido, o prazer demoníaco de acusar: tudo isso provoca um sentimento de repulsa total.

Quando Nabokov discorre sobre suas borboletas…

Quando Nabokov discorre sobre suas borboletas, elas se tornam interessantes mesmo para aquele que as despreza. Isso porque Nabokov, para além de ser um exímio escritor, quando discorre sobre borboletas, discorre sobre algo que o absorve, discorre entusiasticamente, fazendo com que ao menos parte deste grande entusiasmo se irradie para o leitor. Com tal exemplo, fica fácil perceber que a literatura possibilita leituras improváveis, imprevistas, até impossíveis, desde que o autor seja autêntico, e trate de assuntos que realmente o interessam — agindo como um anfitrião que, num ato de boa-fé, expõe ao visitante aquilo que de mais valioso julga possuir. Talvez o efeito mais evidente de um grande escritor seja justamente este: ele estimula, ainda que à força, o interesse no leitor.

É tão libertador quanto impopular rejeitar…

É tão libertador quanto impopular rejeitar todos os rótulos, não se aferrar a nada, permitir-se dizer sempre aquilo que se quer. Filosofar sem o título de filósofo, fazer versos sem o título de poeta, escrever sem angariar nunca o título de escritor. Assim é possível fazer tudo isso de maneira autêntica, isto é, empregando meios de expressão autênticos na tentativa de responder os problemas que a experiência estipulou. Título nenhum dará gratificação semelhante a esta, de saber-se, de sentir-se a empregar o tempo em questões de importância pessoal. E se nada resultar do esforço, restará ao menos a sensação reconfortante de que a atenção foi direcionada às questões que a vida prescreveu.

“Sou filósofo; faço filosofia”

“Sou filósofo; faço filosofia” — diz o construtor de castelos imaginários, tal como diz aquele que brinca de criar, ordenar e adulterar palavras: “Sou escritor; faço literatura”. E embora ambos, talvez, sintam-se justificados pelo atributo que o ofício lhes confere, a verdade é que nada daquilo que produzem possui sentido existencial. Notá-lo parece bobagem, mas os anos passam e a vida pressiona por uma verdadeira justificação. O filósofo, o escritor, não podem encontrá-la no passado, por terem-no dedicado a motivações exteriores, descoladas de si. Então se arrependem; porventura ainda com tempo para redimi-lo, mas já tendo deixado a influência e o exemplo prejudiciais.