Literariamente, não há dúvida de que os tons…

Literariamente, não há dúvida de que os tons instrutivo e confessional não estejam entre as formas mais requintadas, e de que produzem amiúde antipatia em leitores experientes. Porém, se tomarmos Tolstói como exemplo, veremos que, embora seguramente não sejam suas obras-primas, os livros que escreveu se valendo dos tons referidos possuem um sabor especial. É como se o grande autor, o homem de qualidades indiscutivelmente reconhecidas, se despisse de toda sorte de artifícios para expressar objetivamente aquilo que mais o marcou e que, se pudesse, gostaria de nos ensinar. Para um romancista, é ato que exige coragem, porque significa assinar uma peça falta de encanto literário, uma peça que provavelmente desagradará. Mas nós, que a lemos, não podemos negar que, por ela, aproximamo-nos um pouco mais do homem que escolheu não se esconder, nem se preservar.

As artes visuais possuem uma especial…

As artes visuais possuem uma especial capacidade de choque — instantâneo, inesperado — que, logo ao primeiro contato, pode produzir uma lembrança que jamais deixará a memória. É, por exemplo, o que pode acontecer com o sujeito que se coloca, pela primeira vez, diante de uma escultura de Aleijadinho. No momento em que os olhos se fixam na obra e lhe captam a dramaticidade, é como se esta os penetrasse como um raio; há um susto, e tal instante de perplexidade se grava para sempre na mente. Depois, é admirar os detalhes, refletir sobre a realização impossível; mas, dali em diante, é do abalo súbito que a mente primeiro se recordará sempre que evocar o nome do gênio criador.

Gilberto Freyre, Mário Ferreira dos Santos e Otto Maria Carpeaux…

Gilberto Freyre, Mário Ferreira dos Santos e Otto Maria Carpeaux: três autores que, sozinhos, poderiam transformar o Brasil numa nova civilização. Adicione-se aí, para ficar só neles, as dezenas de ótimos poetas que o país já produziu, e então se teria um painel literário amplo e fecundo, suficiente para lançar as bases de uma sólida formação intelectual. Tudo isso já existe, e está disponível para quem se interessar. É conhecê-los e ver o quão tola é a tal afirmação de que “a literatura brasileira não presta”. A nova civilização, no entanto, pode ser que não venha nunca; mas os rebentos da que houve já se provaram dignos de algum espaço no relicário da cultura universal.

De um autor como Manuel Bandeira…

De um autor como Manuel Bandeira, só se consegue imitar traços isolados, esta ou aquela abordagem, este ou aquele torneio da frase, mas nunca a confluência indefinida e especialíssima de fatores que tornam o poeta inconfundível. Este, aliás, é o maior prazer em lê-lo: é perceber que, a despeito da temática, a despeito da forma poética, a despeito do tom adotado, ali está uma consciência única, formada a partir de circunstâncias irreplicáveis, a expressar-se genuinamente e com a qual podemos travar uma relação pessoal.