Com um pouco de maturidade, absorve-se facilmente a ofensa, o agravo, o infortúnio; não a culpa. Quando o homem, contra a sua vontade, tem de amargar o travo da vida, até pode gemer inicialmente, sentir o dano sofrido, a perda, a infelicidade; mas tudo isso se dissolve no tempo quando a responsabilidade recai sobre um agente exterior. O sofrimento, portanto, não tortura nem cria raízes. Algo muito diferente se passa quando ele se sabe responsável pelo dano, mormente se este não fez apenas uma vítima. Aqui, já não é possível confortar-se na aceitação de algo que não pôde controlar: o erro marca, menos por expor a natureza imperfeita do que por concretizá-lo autor da obra indesejada — para sempre. Não se pode aceitá-lo porque, diferentemente do outro caso, esta obra diz algo sobre a sua individualidade que não é possível suprimir ou evitar.
Disgrace, de J. M. Coetzee
Esta narrativa perturbadora é perpassada por uma apreensão indescritível, que nunca cessa à medida que a história avança. Lateja o sentimento de que algo está por acontecer, algo terrível, chocante, e contra a iminência se experimenta um impulso de fazer algo, de fazer qualquer coisa, o qual é repetidamente frustrado. Nada se faz; e, então, a narrativa nos vai carregando para os acontecimentos, como contrariando a nossa vontade de evitá-los, embora estejamos, simultaneamente, ansiosos por conhecê-los e matar de vez a apreensão. É uma construção interessante; o estilo do autor desaparece perante as cenas que descreve. Sobretudo, é um livro ao qual não se fica indiferente e que, talvez, encerre uma importante lição.
É dificílima a arte de proteger as boas relações…
Travá-las, nem tanto; mas é dificílima a arte de proteger as boas relações. Em verdade, a despeito de evidentemente haver níveis diferentes, não é preciso quase nada para que se estabeleçam. Um pouco de boa vontade, um pouco de cortesia, e elas se dão. Preservá-las neste nível saudável, contudo, exige sabedoria; especialmente para com aquelas que se mostram mais promissoras, mais autênticas e mais benéficas. A distância as aniquila, a proximidade também. Sem equilíbrio, entra em cena o assunto vulgar; e aí já não se pode evitar o pior. Antes vê-las definhar pela ausência, preservando-lhes a memória, do que testemunhar a infelicidade da deterioração!
O escândalo é, sobretudo, triste
O escândalo é, sobretudo, triste. E muito mais penosa do que aquilo que o motiva é a miséria generalizada que costuma escancarar. Espraia-se, extrapola os próprios limites; estimula, traz à tona o que há de mais desprezível no ser humano, desde a repugnante maledicência àquela vergonhosa schadenfreude. Aquele que observa o fenômeno acaba com a certeza de viver entre porcos. As línguas assanhadas, o tom presumido, o prazer demoníaco de acusar: tudo isso provoca um sentimento de repulsa total.