Um dos problemas em se ler Gilberto Freyre é a impossibilidade de fechar o livro por alguns minutos para degustar uma cachaça acompanhada de um prato genuinamente brasileiro. Ah, cachaça! Só, mesmo, com o incentivo deste grande senhor. E o pior é a lista de pratos, ou melhor, de doces: variadíssima, apetitosa até na forma de palavras, que um brasileiro só com esforço tem a chance de provar. Pela culinária, descobre-se o tamanho do Brasil. Há peixes que provavelmente nunca desceram do norte, temperos exclusivamente nordestinos e, quanto à engenharia dos doces, possivelmente onde a criatividade nacional mais se destaca, é quase tudo marcadamente regional. O positivo disso tudo é que, com Gilberto Freyre, é possível tomar consciência de uma ignorância gastronômica que exigirá, por honra, o deleite da busca por se sanar.
Toda vez que nos deparamos com uma consequência…
Toda vez que nos deparamos com uma consequência político-econômica desagradável, se conseguimos identificar a origem do problema, é voltar no tempo para ver que ao menos uma cabeça havia percebido, no princípio, o que havia de acontecer. Às vezes, as cabeças foram muitas, e as consequências escandalosamente óbvias. Mesmo assim, seguiu-se o desastre. Daí que uma sociedade nunca é tão miserável a ponto de ser refém da própria complexidade, a qual supostamente a impediria de enxergar o rumo que está a tomar. O que a solapa é o desdém pelas cabeças pensantes e a inclinação ao discurso fácil — o que, em suma, é o mesmo que escolher a desorientação.
The razor’s edge, de William Somerset Maugham
Este livro é prova daquilo que disse Mário Ferreira dos Santos, de ser o romance obra de maturidade. Um jovem jamais poderia escrevê-lo: Maugham, com sete décadas de vida, demonstra-se apto a descrever o painel imenso e complexo de possibilidades que a existência oferece. É uma obra que retrata tipos e escolhas, vidas possíveis, circunstâncias, ambições e resultados. Nela aparecem manifestações humanas das mais desprezíveis às mais nobres. E aparece esse inesquecível Larry Darrell, cuja vida é interrompida pelo fim da narrativa, deixando-nos inclinados a peticionar a Deus que faça Maugham novamente vivo para terminar aquilo que começou. Contudo, um personagem assim, mesmo incompleto, faz valer um livro: é o retrato de como qualidades raras se manifestam no mundo, de como fogem ao óbvio, rejeitam o conveniente e parecem errar por uma trilha incerta e indesejável. Parecem, em suma, o fracasso. E o fracasso talvez pareça o sucesso. E não se pode enfim julgar com segurança, porque às vezes uma aparente fidelidade à própria natureza guarda no passado uma possibilidade rejeitada, talvez mais autêntica, que não pôde frutificar. Fica tudo em suspenso; a nós, porém, resta o privilégio de poder ler e reler esse romance excepcional.
O mestre e Margarida e The razor’s edge
Interessante experiência esta de ler, em sequência, O mestre e Margarida e The razor’s edge, obras muito diferentes. Não há como não se impressionar com a engenhosidade da primeira: a leitura corre leve; intriga e sugere; desde o princípio não esmorece o anseio pela página seguinte. É uma obra-prima. Já a segunda não ostenta essa criatividade exuberante. Acontece, porém, o seguinte: um romance, para ser escrito, exige determinadas qualidades do autor; por isso, a experiência habilita a escrever com propriedade sobre assuntos vedados à juventude. Assim que o crítico, talvez com acerto, poderá dizer que o romance de Bulgákov é artisticamente superior; mas o filósofo, também com acerto, poderá notar que talvez não haja objetivo mais nobre para um romancista que desenvolver as qualidades que Maugham revelou possuir.
