Tudo é questão de estar atento

Tudo é questão de estar atento. E quando os sinais não escapam, é mesmo de se espantar. O sujeito toma uma resolução firme sobre qualquer coisa e, a partir deste momento, tudo parece convergir para que ele se traia. Basta fazer o teste. A princípio, a realidade exaspera. Porém, se a traição não se consuma, e portanto o espírito não sucumbe, se este se livra da armadilha da resolução e, em vez de cair, vence as tentações e persevera, há muito que pensar. Ora, se o movimento concomitante ocorre deveras, e não se trata de fantasia, resulta que tipo de conclusão? Da menor possível, é esboçá-la e perceber que, quando se pode rir da realidade vivida, ciente de suas implicações e do caráter daquilo que foi possível superar, brota uma tremenda — e talvez perigosa — satisfação.

O desespero nasce do medo

O desespero nasce do medo, e este, frequentemente, da percepção de uma situação insolúvel, ou pelo menos vista como tal. Menos aflige a situação em si do que a sensação de impotência perante o seu desdobramento, e o desespero brota como resultado da incapacidade de direcioná-lo através de qualquer ação. Vê-se, pois, que, nestes casos, a irresponsabilidade pode ser um lenitivo. E o desespero é sempre mais ou menos a repercussão de um fantasma mental. É por isso que, quando não se teme a morte, quando não se tem apego, nada acaba parecendo tão assustador. E também é por isso que não se desespera nunca aquele que se ampara na fortaleza da fé.

Seria sem dúvida mais proveitoso…

Seria sem dúvida mais proveitoso, em vez de se falar em “estilos” e “escolas”, classificar os escritores por tipos de motivação artística. Ocorre que, coisa curiosa, há muitos casos em que, pela obra, mal se consegue delinear o que motivou a escrever. Ou, antes, tal classificação evidenciaria que motivações trivialíssimas foram responsáveis pelo grosso daquilo que se escreveu. Em contrapartida, porém, não haveria dúvida de que um Proust pertence a uma família específica de escritores. E que Antero, Vigny, Leopardi, Unamuno, são todos, em seus países, representativos de uma semelhante motivação. Não haveria dificuldade em demonstrar que estes últimos, pela forma artística, não quiseram senão dar a expressão mais requintada às questões que lhes pareceram fundamentais. Mas na literatura, infelizmente, nem todos são movidos por motivações tão simples e de tão clara significação.

A depender de onde se nasce…

A depender de onde se nasce, de onde se cresce, não é difícil que, em poucos anos de vida adulta, já se alcance uma sensação de saturação completa, de total desinteresse e não identificação com tudo quanto o meio tem para oferecer. E, então, é partir. E partir sem reflexão demasiada, porque esta tenderá a desestimular a resolução. Aqui, aparece o problema das condições. Mas não há quem explique como é possível que, mesmo quando estas parecem as mais precárias, a decisão correta triunfa, e em pouco tempo já não há nada que se arrepender. A partir do momento em que a experiência parece absorvida e superada, em que se aprendeu o que dela se podia aprender e ela se tornou indesejável, é abandoná-la para sempre; do contrário, ela se enraizará prejudicando, corrompendo, e já não possuindo nada de novo para ensinar.