É injustificável a razão apontar o exemplo

É injustificável a razão apontar o exemplo, saber positivamente invejá-lo, reconhecer o desejo de reproduzi-lo, e, ainda assim, nada fazer para alcançá-lo, desistindo antes de tentar. Ora, se há algo certo é que o mérito frequentemente é imperceptível para aquele que o possui; isto é, o sujeito o cultiva, o aprimora, perseverando enquanto crê sinceramente não estar fazendo nada de mais. Mas o principal é o seguinte: este mesmo sujeito sabe não possuir o mérito supremo, conhece exemplos melhores que o seu. Assim, pode ser humilde e avançar com tranquilidade e despretensão. Se quisesse tudo logo de cara, acabaria de mãos vazias; mas, com a disposição adequada, acaba criando algo de valor. E assim o exemplo é duplamente útil: para servir de modelo, e para demonstrar que é sobretudo estúpida essa coisa de querer ser sempre o melhor.

Às vezes, o meio pode ser deveras impeditivo

Às vezes, o meio pode ser deveras impeditivo. E, portanto, tem fundamento a sensação de estar-se preso nele. Nestes casos, a vontade sincera não é suficiente para transformá-lo: o hábito, sobretudo, cristalizou uma estrutura complexa e invencível. Invencível, desde que se queira fazer parte dela, desde que se queira usufruir de algo dela ou, simplesmente, não se esteja disposto ao constrangimento de romper com ela. Porque esta é a verdade: é sempre possível proceder com esta última opção. E, caso a evolução seja prioridade, não há alternativa senão fazê-lo — para descobrir, depois do ato corajoso, que o tal constrangimento era algo bem ordinário.

Há, e há mesmo, pessoas que praticamente…

Há, e há mesmo, pessoas que praticamente não se vexariam caso soubessem que viveram por um longo período sendo observadas. Isso contraria aquele velho ditado que, embora falso, expressa fielmente um tanto do senso comum. Mas é preciso notá-lo, e proceder com o exame de consciência devido. Já disseram que o requisito para a santidade não é mais do que o desejo de alcançá-la. E, mesmo assim, não há dúvida de que seja para poucos. Porém, há um mínimo obrigatório, sem o qual o espírito não pode senão sucumbir. É evidente. Os exemplos estão aí aos montes e provam que nada é preciso para segui-los: qualquer um, por mais pobres qualidades que possua, não pode se permitir abrir mão deste mínimo — e, portanto, tem de desejar tornar-se um daqueles homens. Sem isso, todo o resto não tem o menor valor.

Tudo é questão de estar atento

Tudo é questão de estar atento. E quando os sinais não escapam, é mesmo de se espantar. O sujeito toma uma resolução firme sobre qualquer coisa e, a partir deste momento, tudo parece convergir para que ele se traia. Basta fazer o teste. A princípio, a realidade exaspera. Porém, se a traição não se consuma, e portanto o espírito não sucumbe, se este se livra da armadilha da resolução e, em vez de cair, vence as tentações e persevera, há muito que pensar. Ora, se o movimento concomitante ocorre deveras, e não se trata de fantasia, resulta que tipo de conclusão? Da menor possível, é esboçá-la e perceber que, quando se pode rir da realidade vivida, ciente de suas implicações e do caráter daquilo que foi possível superar, brota uma tremenda — e talvez perigosa — satisfação.