Imaginar que tenha havido um Carpeaux…

Imaginar que tenha havido um Carpeaux antes da invenção do computador dá o que pensar. Um leitor ativo, no correr de uma década, produz uma quantidade de anotações que ultrapassa os milhares. Três, quatro décadas de estudo, portanto, equivalem a um montante que cabeça humana nenhuma é capaz de abarcar, a não ser que seja executado um trabalho constante de releitura e reorganização, que nunca cede porque sempre há velhas anotações a serem revisitadas, e sempre há novas ideias, novas conexões a serem estabelecidas a partir desta revisitação. Um computador, se utilizado com inteligência, facilita tremendamente a pesquisa: uma tarefa de uma hora, às vezes, é reduzida a minutos. Ainda assim, parece quase inalcançável a condição daqueles antigos eruditos, cujas anotações residiam enfiadas nos próprios calhamaços — algo que, hoje, faz arrepiar.

Não faz sentido ler, senão para tomar…

Não faz sentido ler, senão para tomar posse daquilo que foi lido; e isso dificilmente se faz numa primeira leitura. Portanto, a assimilação exige a releitura e exige o retorno àquilo que, no primeiro contato, chamou atenção. É por isso que o intelectual deve gastar um bom tempo planejando e executando o seu método pessoal de organização. Notas, trechos destacados têm de se tornar matéria viva em sua rotina de estudos: têm de estar à mão quando se necessita, e sempre à vista para evitar que caiam no esquecimento. É relê-los metodicamente e ver que, com o hábito, eles germinam dentro de si.

A vida inteira na cidade…

Um sujeito que passou a vida inteira na cidade talvez não consiga abandoná-la, senão por um processo traumático e desconfortável. Curiosamente, é nela que se sente seguro, é nela experimenta a sensação de normalidade com a qual se habituou. Se lhe contassem, porém, não acreditaria: é preciso experimentar em primeira pessoa a percepção do entorpecimento ao qual seus sentidos foram submetidos ao longo dos anos. E isso só é possível num ambiente afastado de sua querida cidade. Vem à mente aquelas velhas crônicas de europeus que, andando com índios na selva, espantavam-se de seu faro quase sobrenatural, que, em verdade, consistia numa atenção muito mais refinada aos sentidos, e que pelos sentidos demonstrava ao europeu a veracidade da intuição. Fica, assim, o questionamento de até que ponto se estendem as consequências dessa evidente desatenção urbana.

O grande interesse provocado pelas epístolas…

O grande interesse provocado pelas epístolas, hoje, deriva basicamente de se tratar de literatura que já não se produz, e de se tratar, por vezes, do conteúdo mais íntimo de determinadas obras. Aqui, sobretudo, reside o maior atrativo: pelas cartas podemos descobrir um autor que pode apenas se manifestar em camadas mais profundas de sua obra, mas cuja compreensão é essencial. Ocorre, porém, e é lamentável notá-lo, que nem sempre encontramos nas cartas a sinceridade que buscamos. E percebemos claramente que foram escritas visando a publicação posterior. O estilo, assim, perde o atrativo; brota a desconfortável sensação de estarmos sendo enganados. E o interesse se esvai…