Não há erudição ou estudo capazes de anular as manifestações do temperamento, ainda que estas se provem evidentemente irracionais. Nisto não há nenhum problema; pelo contrário: seria indesejável anulá-las, visto que o temperamento é parte importante da personalidade. O problema começa quando o sujeito se engana, e tenta convencer outras cabeças de que conseguiu, pelo estudo, submeter os nervos, e como resultado aquilo que diz não sai senão calcado na luminosíssima razão. Ora, há piadas melhores! Mas é preciso chegar à maturidade da inteligência para apreciar devidamente a personalidade, e com ela deliciar-se como Goethe o fez.
Os Discursos de Epicteto são impressionantes…
Os Discursos de Epicteto são impressionantes por passarem a impressão de que, depois deles, não restou muito que se dizer sobre ética. Mudam os tempos, mudam os costumes, mas o que é relevante está, de alguma maneira, retratado ali. E mesmo nos grandes filósofos de orientação distinta, podemos traçar um paralelo, ou melhor, podemos encontrar a equivalência do que dizem na obra daquele sábio invulgar. Dois mil anos de distância! E a grande obra permanece intacta, tão valiosa e tão atual como sempre fora… Assim permanecerá.
As velhas histórias de cavalaria
Uma vez que travamos contato com as velhas histórias de cavalaria, e assimilamos os valores do cavaleiro medieval, temos de encarar a realidade: os “heróis” da história vão longe, muito longe daquele tipo fascinante. O legado daquelas lendas, decerto, é real e positivo; ainda hoje, lemo-las com grande proveito e grande prazer. Mas é inútil buscar representantes concretos daqueles ideais, que parecem submeter o homem a uma régua moral impossível, literária. Tendo viva em mente a imagem dos nobres Cavaleiros da Távola Redonda, dificilmente fecharemos a biografia de um homem poderoso sem alguma frustração.
Um dos problemas em se ler Gilberto Freyre…
Um dos problemas em se ler Gilberto Freyre é a impossibilidade de fechar o livro por alguns minutos para degustar uma cachaça acompanhada de um prato genuinamente brasileiro. Ah, cachaça! Só, mesmo, com o incentivo deste grande senhor. E o pior é a lista de pratos, ou melhor, de doces: variadíssima, apetitosa até na forma de palavras, que um brasileiro só com esforço tem a chance de provar. Pela culinária, descobre-se o tamanho do Brasil. Há peixes que provavelmente nunca desceram do norte, temperos exclusivamente nordestinos e, quanto à engenharia dos doces, possivelmente onde a criatividade nacional mais se destaca, é quase tudo marcadamente regional. O positivo disso tudo é que, com Gilberto Freyre, é possível tomar consciência de uma ignorância gastronômica que exigirá, por honra, o deleite da busca por se sanar.
