A qualidade de Rubem Fonseca

Não são necessários muitos contos para perceber a qualidade de Rubem Fonseca. E deve irritar um bocado aos padecentes daquele velho complexo o notar que Rubem Fonseca, no gênero, alcançou o nível dos melhores. Menos impressionam o domínio de variadas técnicas narrativas, a criatividade na arquitetura dos enredos, o vocabulário um tanto chocante, que a incisividade das temáticas e o estilo que não se furta de dizer. Nisto, sobretudo, o grande escritor se destaca. Apartando-se de uma tradição que insinua, que ironiza, mas que teme a expressão crua e direta, Rubem Fonseca consegue relevar problemas verdadeiros escancarados pela realidade de seu tempo. Em resumo, é um escritor ímpar que teve coragem de pôr no papel aquilo que lhe pareceu essencial.

O grosso da insatisfação nasce da vaidade

É escandalosamente óbvio que o grosso da insatisfação nasce da vaidade; e quanto mais se consegue tolher esta última, menos se experimenta a primeira. Evidente, indiscutível. Porém, costuma ser necessário um estado de desilusão completa para percebê-lo deveras. Não há desilusão sem expectativa, e não há insatisfação sem vaidade. Alimentar este vício é erro grave, porque ele jamais provoca algo de bom. Para aniquilá-lo, às vezes é preciso romper vínculos, cortar raízes; mas o esforço é compensador. Então se pode concluir praticamente que toda insatisfação é sem fundamento, e que a vida é muito melhor quando se rejeita o hábito de reclamar.

Declínio de um homem, de Osamu Dazai

É incrível a simpatia despertada por um tipo como esse Osamu Dazai. A leitura já se distancia no tempo, mas permanece a imagem da grande aflição. Aflição esta conhecida, muito conhecida, a qual nem a barreira do idioma consegue desfigurar. E lembrar, nesta obra, aquelas ideias repetidas, desagradáveis, perigosas, que quando se instalam na mente é deveras de se temer… A aura que emana deste pequeno livro dispensa comentários. E também as razões da inevitável simpatia. Tão humano Osamu Dazai, tão como nós… Dele, perdurará a memória do escritor que não brincou, que enobreceu a arte pela seriedade de sua motivação.

No Brasil, quando nasce um escritor verdadeiro…

No Brasil, quando nasce um escritor verdadeiro, é-lhe exigida uma força de caráter incomum: de antemão, ele já sabe que a obra de sua vida será não mais que uma prova de amor. Não haverá reconhecimento pelo seu trabalho, e nem poderia havê-lo, porque não se pode esperar de alguém que reconheça algo que não lhe tem importância. Não há nem o que lamentar. O brasileiro não lê e não gosta de livros; eles não fazem parte de sua vida. Portanto, independentemente da seriedade e do quilate do escritor brasileiro, sua obra não terá relevância, nem influência, como seria de se esperar. Isso, porém, não é tudo. Também de antemão, ele pode estar seguro de que, mesmo estudando mais do que escritores de outros países, mesmo sofrendo mais privações, superando maiores obstáculos, exercendo o ofício com maior dedicação, mesmo que o monumento que erga se prove irrefutavelmente mais digno e mais comovente, haverá, depois de sua morte, um desses jornalistas metidos a intelectuais, deslumbrado com o seu conhecimento do inglês, a cuspir, do alto de sua inépcia e péssimo manejo do idioma, frases como “nada presta na literatura brasileira”, “aqui jamais se produziu nada de bom”. O escritor brasileiro está fadado a ser desprezado por néscios e insultado por imbecis.