Presenciar um único destes momentos de “coincidências significativas”, ou “sincronicidade”, para usar a terminologia de Jung, mais do que justifica o estudo do esoterismo inteiro, desde as teorias mais obscuras aos mais exóticos sistemas de divinação. Nestes momentos, percebe-se o quão insuficiente, o quão estúpida é essa concepção cientificista moderna, que se apoia numa autoridade ridicularizada pela violência tremenda, inquestionável e inesquecível de algumas experiências. É presenciá-lo uma única vez, e já se torna difícil interessar-se por qualquer coisa “científica” — cai por terra o sagrado do adjetivo. Então, o verdadeiro problema: imergir neste que é o território mais prolífero de picaretas. Mas não há saída: é ouvi-los, talvez ludibriar-se, e descobrir, no fim das contas, o que foi possível se tirar de bom.
Alguns dirão faltar um Walt Whitman…
Alguns dirão faltar um Walt Whitman, faltar um Eliot; contudo, o que há de mais evidente na poesia brasileira é que os bons poetas contam-se às dezenas, e isso não é pouca coisa. Poetas como Maranhão Sobrinho, Junqueira Freire, Raul de Leoni, José Albano, Venceslau de Queirós não costumam ser sequer mencionados em antologias e compêndios. A tradição, por sua vez, já ostenta alguns séculos de consistência e solidez. E por mais que, após uma análise superficial de novos e velhos poetas, de temáticas batidas ou importadas, se possa ceder ao impulso de menosprezar o todo, o estudo aprofundado não deixa dúvida quanto a tremenda tolice de fazê-lo. A poesia brasileira é ótima; e nada mais é preciso dizer.
A qualidade de Rubem Fonseca
Não são necessários muitos contos para perceber a qualidade de Rubem Fonseca. E deve irritar um bocado aos padecentes daquele velho complexo o notar que Rubem Fonseca, no gênero, alcançou o nível dos melhores. Menos impressionam o domínio de variadas técnicas narrativas, a criatividade na arquitetura dos enredos, o vocabulário um tanto chocante, que a incisividade das temáticas e o estilo que não se furta de dizer. Nisto, sobretudo, o grande escritor se destaca. Apartando-se de uma tradição que insinua, que ironiza, mas que teme a expressão crua e direta, Rubem Fonseca consegue relevar problemas verdadeiros escancarados pela realidade de seu tempo. Em resumo, é um escritor ímpar que teve coragem de pôr no papel aquilo que lhe pareceu essencial.
O grosso da insatisfação nasce da vaidade
É escandalosamente óbvio que o grosso da insatisfação nasce da vaidade; e quanto mais se consegue tolher esta última, menos se experimenta a primeira. Evidente, indiscutível. Porém, costuma ser necessário um estado de desilusão completa para percebê-lo deveras. Não há desilusão sem expectativa, e não há insatisfação sem vaidade. Alimentar este vício é erro grave, porque ele jamais provoca algo de bom. Para aniquilá-lo, às vezes é preciso romper vínculos, cortar raízes; mas o esforço é compensador. Então se pode concluir praticamente que toda insatisfação é sem fundamento, e que a vida é muito melhor quando se rejeita o hábito de reclamar.