Algumas ideias, é preciso tê-las para depois entendê-las, vivê-las para, enfim, saber de onde vêm. Por isso, se o primeiro contato com elas se dá pelo papel, haverá desentendimento. Quando, porém, dá-se o contrário, é curioso notar que uma ideia, mesmo que já concebida, já experimentada em primeira pessoa, pode ficar como oculta na mente, sem manifestar-se, e como se ainda não tivesse sido devidamente assimilada. Ocorre, então, o contato com sua exposição escrita, precisa e detalhada. A mente se ilumina; capta o sentido e a motivação. E percebe que, sem a experiência prévia, jamais poderia compreendê-la.
Se fosse estabelecida uma escala com os níveis…
Se fosse estabelecida uma escala com os níveis de compreensão literária, ou de inteligência linguística, seguramente haveria um nível que a maioria das pessoas razoavelmente inteligentes, com alto QI e boa capacidade argumentativa, não alcançariam, e é o nível que capacita a identificar uma expressão concebida esteticamente, uma expressão que se justifica pelo efeito que produz. Realmente, quantos o não alcançam! A maioria dos “inteligentes” se recusa a não se aferrar ao sentido das frases, e portanto parecem desconhecer haver mais do que a semântica, a lógica e as figuras de linguagem mais óbvias. São aqueles incapazes de apreciar um autor como Cioran, ou como Nietzsche, ou até certos trechos de Pessoa, porque “não concordam” com aquilo que leem. O curioso é que, embora seja instintivo taxá-los de imaturos, tal nível de compreensão parece realmente difícil de ser alcançado por aqueles que não exercem o ofício de escrever. Exercendo-o, tudo se torna muito simples: basta propor-se, ainda que por brincadeira, talhar algumas frases impactantes; e então ficará evidente que o exagero, e mesmo a adulteração do pensamento, às vezes, produzem um resultado muito superior.
O homem moderno pode desprezar como bobagens…
O homem moderno pode desprezar como bobagens os conselhos dos advogados das longas caminhadas, — numerosos e que congregam figuras desde os antigos até um Nietzsche ou um Taleb; — mas a verdade é que a vida se transforma sensivelmente, e para melhor, quando se cultiva o hábito de caminhar. Decerto, nem sempre se pode caminhar como aqueles homens, longa e despreocupadamente, fazendo da caminhada uma espécie de meditação em movimento, colocando em prática o solvitur ambulando; contudo, o homem que substitua o trânsito, o transporte público e os automóveis pela caminhada, deixando que esta, e os efeitos desta, participem de sua rotina, em vez e no lugar do inevitável desgaste proporcionado por aqueles, testemunhará que sua vida tornou-se significativamente melhor. Poucas coisas são tão seguras como esta: mover-se com o próprio corpo, pelo próprio esforço, na velocidade natural, todos os dias, muda por completo a disposição com que se acorda pelas manhãs.
O problema das relações é que…
O problema das relações é que, em geral, o que se ganha delas é pouco perante o que se tem de fazer para sustentá-las; quer dizer, assim é para as relações comuns, e quando tal não ocorre, nas raras vezes em que tal não ocorre, aí se encontrou uma relação de valor. Para esta, que se estabelece e se mantém com naturalidade, sem que as partes tenham de falsificar-se ou fingir temporariamente ser aquilo que não são, o esforço que se faz é para cultivá-la, não deixando que esmoreça pela distância, nem que se deteriore pela banalização. Ainda assim, há o risco de que acabe presa das circunstâncias, sujeita à dinâmica da vida, e portanto corre o risco de perecer. Mas basta uma única relação desta natureza, e muda-se completamente a ideia que se faz de viver.