É decerto necessário enxergar, ou pelo menos tentar enxergar a existência como um roteiro que vai sendo escrito em capítulos carregados de sentido, relacionados a um todo cuja significação última só se pode conjeturar. Contudo, com fazê-lo rapidamente se verá que o roteiro planejado não sai conforme o plano, e que apenas se consegue, com sorte, preservar-lhe um pouco da diretriz. E aí que se tem de aceitar, a contragosto, toda sorte de obstáculos e desvios que podem parecer ilógicos, inúteis, não mais que desagradáveis. Com eles, porém, aprende-se a ter humildade e paciência. E tais virtudes, quando frutificam após décadas de prática, infundem a certeza de que nunca houve razão para praguejar.
Alguns hábitos são imunes à condenação…
Alguns hábitos são imunes à condenação mental e, não importa o quanto sejam evitados, permanecem ali, latentes, como uma tendência que se manifestará na primeira ocasião. Nestes casos, não há como desarraigá-los senão por uma ação abrupta e violenta, que não costuma vir se não motivada por intensa aflição. Assim que acaba sendo necessário, e positivo, que se padeça toda a corrupção deles proveniente, até um ponto em que o desgaste é tanto, a repugnância é tanta, que a razão, aborrecidíssima e exacerbada, encontra a força necessária para dizer “nunca mais”.
É uma noção um tanto besta esta…
É uma noção um tanto besta esta de que, a cada novo poema, o autor tem de “inventar”. E vai associada a esta outra de que o maior poeta é aquele que executou o maior número de fórmulas, que abarcou o maior número de possibilidades construtivas, que, enfim, “não se repetiu”. É por isso que os manuais de versificação, após determinado momento, começam a cansar. O mesmo se dá com os tratados de estilística. Há um ponto em que o essencial parece há muito ultrapassado, e as linhas passam a versar sobre o irrelevante. O estudante fica com a sensação de que o seu nobre interesse se rebaixa, e a própria arte é coisa de pequeno valor.
A confissão é eficaz porque aniquila…
A confissão é eficaz porque aniquila, no ato, o autoengano, sustando a interminável sucessão de consequências que dele seguramente proviria. Ela torna efetivamente possível um recomeço, descarregado das tendências perniciosas que, para novamente se manifestarem, exigirão uma nova decisão. A verbalização da falta concretiza o reconhecimento e o desejo de emenda; o ato de externalizá-la a coloca literalmente para fora e, portanto, efetiva de forma inegável o objetivo a que se propõe. Tudo isso é algo que o intelecto, antes da experiência, já consegue perceber.