São sempre melhores as linhas daquele que não se deixa dominar pelo sentimento de autoimportância, ainda que este não tenha sido transmutado em humildade. Desprezo, escárnio, o que seja: tudo é válido para anulá-lo, e toda manifestação que o contraria agrada mais do que a soberba que dele pode derivar. O leitor, ainda que não seja filósofo, sempre terá a noção inata da importância relativa de um único homem perante a criação. Portanto, o vício, mesmo que não captado conscientemente, produzirá a impressão decorrente de sua natureza viciosa. Simples assim.
É muito desagradável presenciar, em vida…
É muito desagradável presenciar, em vida, o exemplo destes escritores que acabam se perdendo no envolvimento com a política. O sucesso, o talento atrai atenção; a atenção rende novos amigos, e estes os arrastam para o terreno ingrato. Quando vemo-lo num morto, o processo parece menos doloroso; podemos simplesmente ignorar alguns textos, ou dar-lhes o peso nenhum que merecem. Quando, porém, o escritor é vivo, ainda não somos capazes de distinguir o que dele ficará. Se o respeitamos, queremos lê-lo, e a mudança severa nos textos, o desperdício do talento por tão pouco, chegam a doer. O melhor é não ceder ao impulso maledicente; afinal, uma grande obra, após publicada, é uma realização efetiva que nenhuma miséria e nenhum miserável poderá jamais subtrair de um autor.
Aquele que se expõe ao público…
Aquele que se expõe ao público, se faz algum sucesso, pode estar certo do seguinte: haverá, sem dúvida, um dia ruim, um dia em que, por qualquer motivo, demonstre fraqueza, falhe ou simplesmente provoque uma má repercussão. Neste dia, surgirão detratores de todos os cantos, em número muito superior ao que julgar possuir. O coro passará impressão de unanimidade; o que disser soará como o senso comum. Sua imagem, portanto, sofrerá um abalo, e momentaneamente ninguém se lembrará daquilo que fez e que é. Será, é claro, uma experiência assaz desagradável; mas publicidade significa ter de vivê-la, e saem fortalecidos aqueles que a suportam sem desequilibrar.
Exatamente como não se pode fugir da inveja…
Exatamente como não se pode fugir da inveja ou de inimizades indesejadas, não se pode evitar antipatias instantâneas e fatais. É mesmo intolerável: o inútil destas experiências salta aos olhos; um homem comum faria de tudo, abriria mão de quase tudo para evitá-las. Mas não tem essa opção. O príncipe deste mundo tem ideias, e o força a vivê-las sempre, não importa o quanto as deteste e o quanto tente delas se esquivar. Acordará feliz, num daqueles dias em que a vida parece fluir suave, controlada, prazerosa, e então se azedará tudo com o encontro desnecessário. Ri-se o diabo…