Há, e há mesmo, pessoas que praticamente…

Há, e há mesmo, pessoas que praticamente não se vexariam caso soubessem que viveram por um longo período sendo observadas. Isso contraria aquele velho ditado que, embora falso, expressa fielmente um tanto do senso comum. Mas é preciso notá-lo, e proceder com o exame de consciência devido. Já disseram que o requisito para a santidade não é mais do que o desejo de alcançá-la. E, mesmo assim, não há dúvida de que seja para poucos. Porém, há um mínimo obrigatório, sem o qual o espírito não pode senão sucumbir. É evidente. Os exemplos estão aí aos montes e provam que nada é preciso para segui-los: qualquer um, por mais pobres qualidades que possua, não pode se permitir abrir mão deste mínimo — e, portanto, tem de desejar tornar-se um daqueles homens. Sem isso, todo o resto não tem o menor valor.

Tudo é questão de estar atento

Tudo é questão de estar atento. E quando os sinais não escapam, é mesmo de se espantar. O sujeito toma uma resolução firme sobre qualquer coisa e, a partir deste momento, tudo parece convergir para que ele se traia. Basta fazer o teste. A princípio, a realidade exaspera. Porém, se a traição não se consuma, e portanto o espírito não sucumbe, se este se livra da armadilha da resolução e, em vez de cair, vence as tentações e persevera, há muito que pensar. Ora, se o movimento concomitante ocorre deveras, e não se trata de fantasia, resulta que tipo de conclusão? Da menor possível, é esboçá-la e perceber que, quando se pode rir da realidade vivida, ciente de suas implicações e do caráter daquilo que foi possível superar, brota uma tremenda — e talvez perigosa — satisfação.

O desespero nasce do medo

O desespero nasce do medo, e este, frequentemente, da percepção de uma situação insolúvel, ou pelo menos vista como tal. Menos aflige a situação em si do que a sensação de impotência perante o seu desdobramento, e o desespero brota como resultado da incapacidade de direcioná-lo através de qualquer ação. Vê-se, pois, que, nestes casos, a irresponsabilidade pode ser um lenitivo. E o desespero é sempre mais ou menos a repercussão de um fantasma mental. É por isso que, quando não se teme a morte, quando não se tem apego, nada acaba parecendo tão assustador. E também é por isso que não se desespera nunca aquele que se ampara na fortaleza da fé.

Seria sem dúvida mais proveitoso…

Seria sem dúvida mais proveitoso, em vez de se falar em “estilos” e “escolas”, classificar os escritores por tipos de motivação artística. Ocorre que, coisa curiosa, há muitos casos em que, pela obra, mal se consegue delinear o que motivou a escrever. Ou, antes, tal classificação evidenciaria que motivações trivialíssimas foram responsáveis pelo grosso daquilo que se escreveu. Em contrapartida, porém, não haveria dúvida de que um Proust pertence a uma família específica de escritores. E que Antero, Vigny, Leopardi, Unamuno, são todos, em seus países, representativos de uma semelhante motivação. Não haveria dificuldade em demonstrar que estes últimos, pela forma artística, não quiseram senão dar a expressão mais requintada às questões que lhes pareceram fundamentais. Mas na literatura, infelizmente, nem todos são movidos por motivações tão simples e de tão clara significação.