É bem possível que a modernidade tenha conseguido ridicularizar para sempre o “ceticismo”, o “espírito investigativo” e o apreço à racionalização. Ao menos, já não inspiram o respeito que inspiravam no início do século passado semelhantes atitudes. O sujeito começa um relato, e faz questão de ressaltar, desde o início, as qualidades de sua mentalidade ocidental, que submeteu ao mais criterioso escrutínio tudo quanto vai adiante; durante o relato, interpola confissões de dificuldade em aceitar o relatado, em razão de sua racionalidade, etc., etc. Se, algum dia, tais trechos suscitavam admiração para com o orador, hoje, como dizer?, não fazem senão esticar um sorriso idêntico aquele que se estica nos lábios de alguém que se depara com uma manifestação supinamente infantil.
Incomoda o reconhecer-se medíocre…
Incomoda o reconhecer-se medíocre a ponto de nunca ter dado um passo temerário, tal como costumeiramente fizeram os homens notáveis, confiando inteiramente quer na providência, quer na própria intuição. Porque tais passos são os verdadeiramente decisivos, e aqueles que, uma vez tomados, produzem as melhores recordações. E quando falham, ora, quando falham o fazem como faz a indecisão e o medo, quando falham ainda guardam a possibilidade de correção.
As biografias e, especialmente, as autobiografias…
As biografias e, especialmente, as autobiografias de grandes homens exercem um fascínio que dificilmente pode ser igualado. Mormente estas em que o impossível é fato consumado, que nos convencem que ele acontece e pode acontecer. Daí que só com muito esforço se tornam tediosas. O mais das vezes, transmitem essa noção perfeita e fundamental de haver um sentido no todo, algo cujo não percebê-lo é o que cola a uma biografia o epíteto de medíocre. Por sorte, estas não fazem boas histórias, e raramente temos de encará-las. Nas outras vezes, ficamos diante de páginas que não temos vontade de largar.
Uma mísera bactéria, uma virose, uma lesão muscular…
Uma mísera bactéria, uma virose, uma lesão muscular são suficientes para derrubar totalmente a rotina, para colocar o sujeito mais saudável estirado numa cama a gemer. Só por isso, já se vê que não somos nada, e que o agradecimento deve necessariamente suceder aos dias bons. Quando abatidos por alguma moléstia, nem pensar conseguimos, senão em quando virá a recuperação. O tempo não passa, o desconforto não cede, e o consolo frequentemente só brota do pensamento de que poderia ser pior. E, decerto, poderia…