O acerto costuma exigir passos em falso

A ironia é que o acerto costuma exigir passos em falso, e o sucesso em qualquer empreitada costuma se dar após uma sequência de insucessos. Daí que, quando finalmente se alcança aquilo que se tencionava, a trilha percorrida não parece senão a trilha do erro, e aquele que agora acerta não parece se identificar com aquele outro que tão somente buscava acertar. O sujeito que ensina, portanto, frequentemente tem uma bagagem que contraria o seu ensinamento, e tem de sorrir diante da certeza de que precisamente por tê-lo contrariado é que aprendeu o que agora pode ensinar.

Isto de trancar-se em casa e devorar pilhas…

Isto de trancar-se em casa e devorar pilhas de livros tem lá sua utilidade, mas a compreensão adequada da sociedade e dos tempos exige o contato direto com o mundo. O vizinho, portanto, ensina algo que os livros não podem ensinar. Assim que Cioran, percorrendo a França de bicicleta, dormindo em albergues e conversando com jovens, estava adiante de embaixadores, observadores e tutti quanti a respeito dos ânimos do povo francês em relação à Segunda Guerra. Ganhou, errando pelo mundo afora, uma convicção que pareceu clarividência a oficiais ingleses. Frequentemente, clarividência não é senão uma variação de experiências assim.

Não há erudição ou estudo capazes de anular…

Não há erudição ou estudo capazes de anular as manifestações do temperamento, ainda que estas se provem evidentemente irracionais. Nisto não há nenhum problema; pelo contrário: seria indesejável anulá-las, visto que o temperamento é parte importante da personalidade. O problema começa quando o sujeito se engana, e tenta convencer outras cabeças de que conseguiu, pelo estudo, submeter os nervos, e como resultado aquilo que diz não sai senão calcado na luminosíssima razão. Ora, há piadas melhores! Mas é preciso chegar à maturidade da inteligência para apreciar devidamente a personalidade, e com ela deliciar-se como Goethe o fez.

Os Discursos de Epicteto são impressionantes…

Os Discursos de Epicteto são impressionantes por passarem a impressão de que, depois deles, não restou muito que se dizer sobre ética. Mudam os tempos, mudam os costumes, mas o que é relevante está, de alguma maneira, retratado ali. E mesmo nos grandes filósofos de orientação distinta, podemos traçar um paralelo, ou melhor, podemos encontrar a equivalência do que dizem na obra daquele sábio invulgar. Dois mil anos de distância! E a grande obra permanece intacta, tão valiosa e tão atual como sempre fora… Assim permanecerá.