Gilberto Freyre, Mário Ferreira dos Santos e Otto Maria Carpeaux…

Gilberto Freyre, Mário Ferreira dos Santos e Otto Maria Carpeaux: três autores que, sozinhos, poderiam transformar o Brasil numa nova civilização. Adicione-se aí, para ficar só neles, as dezenas de ótimos poetas que o país já produziu, e então se teria um painel literário amplo e fecundo, suficiente para lançar as bases de uma sólida formação intelectual. Tudo isso já existe, e está disponível para quem se interessar. É conhecê-los e ver o quão tola é a tal afirmação de que “a literatura brasileira não presta”. A nova civilização, no entanto, pode ser que não venha nunca; mas os rebentos da que houve já se provaram dignos de algum espaço no relicário da cultura universal.

De um autor como Manuel Bandeira…

De um autor como Manuel Bandeira, só se consegue imitar traços isolados, esta ou aquela abordagem, este ou aquele torneio da frase, mas nunca a confluência indefinida e especialíssima de fatores que tornam o poeta inconfundível. Este, aliás, é o maior prazer em lê-lo: é perceber que, a despeito da temática, a despeito da forma poética, a despeito do tom adotado, ali está uma consciência única, formada a partir de circunstâncias irreplicáveis, a expressar-se genuinamente e com a qual podemos travar uma relação pessoal.

As dificuldades que o autor brasileiro enfrenta…

As dificuldades que o autor brasileiro enfrenta para criar uma obra literária, afinal, acabam por fortalecer as vocações autênticas. E se é verdade que tornam o idílio impossível, igualmente conferem à realização literária um novo valor. Só não o reconhecerão aqueles acostumados a abstraírem a obra das circunstâncias em que foi concebida, algo que não é senão diminuí-la de parte importante de seu significado. O autor brasileiro tem de valorizar as dificuldades que lhe enobrecem o esforço, porque, no fundo, é com superá-las que experimentará a mais plena satisfação.

Ainda que o autor provavelmente nunca…

Ainda que o autor provavelmente nunca se satisfaça de todo, é inegável que, ao finalizar uma obra, se recorda o seu início, quando não havia muito mais do que intenção e expectativa, tem de concluir que alguma coisa especial aconteceu. Às vezes, é notar o curso inimaginável tomado pela criação, e consequentemente a realização inesperada, para satisfazer-se da certeza de ter concretizado algo novo, de ter, enfim, honrado a tarefa a que se propôs. Talvez não seja muita coisa, e talvez esta satisfação não predomine sobre o desagrado com o produto final; mas um autor só se realiza criando, só se aprimora por sobre aquilo que já criou. Uma obra realizada, portanto, nunca será tão má que não lhe conceda ao menos uma lição.