O jovem brasileiro que se incline à literatura possui uma vantagem para escolher se segue ou não a sua disposição natural. Esta é a de se desenhar claríssimo o futuro que lhe aguardará caso opte por segui-la. A ilusão é-lhe impossível. Basta vasculhar alguns diários ou cartas de escritores do passado. Ou então refletir se há, vivo, algum exemplo de “sucesso”, de “reconhecimento” que lhe poderia servir de meta. Não há nenhum. O candidato a escritor, se refletir um pouco, concluirá que não inveja a situação de nenhum outro escritor de seu país. Daí que chegará facilmente à questão fundamental, que talvez fique encoberta para jovens de outras nacionalidades: é possível imaginar outra vida? seria tolerável privar-se de escrever e exercer outra ocupação? Pensando nisto, poderá escolher, pelos motivos certos, a vida que deseja para si.
É muito difícil imaginar um ateu…
É muito difícil imaginar um ateu que tenha sido tão infeliz a ponto de jamais, em toda a sua vida, ter se deparado com um exemplo de virtude modelar. Porque, sem dúvida, uma coisa é um ato isolado, e outra bem diferente é ter a virtude de tal forma entranhada na própria natureza que o ato sai frequente, espontâneo, irrefletido. E, se há algo que a experiência demonstra, é que tais naturezas estão sempre vinculadas à religião. Daí que o ateu, se tem alguma sinceridade, é forçado a se questionar se a religião não determina, em alguma medida, a capacidade de exemplificar a virtude através da personalidade. E se admite que gostaria de possuir ao menos um pouco daquilo que sobeja nos exemplos, passará por uma crise existencial. Infelizmente, por mais que queira, não conseguirá alterar as lições que a experiência lhe forneceu.
É decerto necessário enxergar…
É decerto necessário enxergar, ou pelo menos tentar enxergar a existência como um roteiro que vai sendo escrito em capítulos carregados de sentido, relacionados a um todo cuja significação última só se pode conjeturar. Contudo, com fazê-lo rapidamente se verá que o roteiro planejado não sai conforme o plano, e que apenas se consegue, com sorte, preservar-lhe um pouco da diretriz. E aí que se tem de aceitar, a contragosto, toda sorte de obstáculos e desvios que podem parecer ilógicos, inúteis, não mais que desagradáveis. Com eles, porém, aprende-se a ter humildade e paciência. E tais virtudes, quando frutificam após décadas de prática, infundem a certeza de que nunca houve razão para praguejar.
Alguns hábitos são imunes à condenação…
Alguns hábitos são imunes à condenação mental e, não importa o quanto sejam evitados, permanecem ali, latentes, como uma tendência que se manifestará na primeira ocasião. Nestes casos, não há como desarraigá-los senão por uma ação abrupta e violenta, que não costuma vir se não motivada por intensa aflição. Assim que acaba sendo necessário, e positivo, que se padeça toda a corrupção deles proveniente, até um ponto em que o desgaste é tanto, a repugnância é tanta, que a razão, aborrecidíssima e exacerbada, encontra a força necessária para dizer “nunca mais”.