Em verdade, a recomendação de assumir-se…

Em verdade, a recomendação de assumir-se, de definir o curso da própria vida e, através de escolhas conscientes, concretizar um plano deliberado, só serve para um tipo específico de personalidade, que possui uma predisposição não muito comum. Parece loucura notá-lo; afinal, quem é que não deseja viver a vida que escolheu? Contudo, assim são as coisas: há outro tipo de pessoas, mais comum, que não o deseja; e o que anseia é simplesmente corresponder a uma vida planejada pelos outros, ou melhor, pelo consenso — e a satisfação, para este tipo, é desfrutar de aceitação. Nada há que se lamentar ou criticar. Para ambos, há uma fórmula que conduz à satisfação sincera — e, portanto, a boa recomendação será sempre aquela que melhor se adaptar às necessidades individuais.

A única disposição justificável para aquele…

A única disposição justificável para aquele que se dedica a acompanhar algum esporte é o entusiasmo exaltado, irrefletido, irracional. Assim, extrai-se o melhor do entretenimento que, de qualquer esporte, é a qualidade medular. Do contrário, o tempo dedicado não se justifica. Ora, o brasileiro de que falava Nelson Rodrigues, obsessivo e desconfiante, é um contrassenso. Um bom conselheiro haveria de recomendá-lo deixar de ser besta ou procurar outra ocupação. O problema é menos sofrer diante da televisão ou acordar de mau humor por causa de um jogo, mas usar o passatempo como combustível para sentimentos ruins. Menosprezar de praxe o time para que torce, enaltecer de praxe o time rival: o sujeito que assim procede está no nível mais baixo da escala evolutiva. Se é para empregar o tempo nisto, que seja com sabedoria! E sabedoria, em futebol, é o otimismo efusivo, a confiança louca e contagiante, o enaltecimento supremo da razão desse orgulho artificial!

No curso de uma vida, só se experimenta…

No curso de uma vida, só se experimenta a sensação de avanço com inícios e pontos finais. Sem eles, sente-se uma estagnação que, por antinatural, provoca um desconforto progressivo, o qual, ainda que camuflado, tende a intensificar-se até estourar quando menos se espera — e, então, não há como recuperar o tempo que se perdeu. Por isso é fundamental colocá-los regularmente como estacas demarcadoras do progresso. Assim efetivamente se evolui: conservando a iniciativa para novos começos e a maturidade para perceber que algo já cumpriu o seu papel.

O período de uma década costuma ser suficiente…

O período de uma década costuma ser suficiente para transformar um iniciante em especialista. Mas impressiona menos o conhecimento adquirido na disciplina ou ocupação do que a mudança ostensiva que o estudo costuma acarretar no que há em redor. Quanta coisa se transforma! O iniciante, dez anos depois, tornou-se outro; fisicamente é outro, e às vezes fica difícil associar o novo especialista a quem um dia foi. Alguém que não o conhecia já não encontrará aqueles traços que culminaram no estado atual. E alguém que o conhecia antes, mesmo que tente, mesmo que force, mesmo que não aceite a mudança, provavelmente não conseguirá fazer vibrar cordas antigas, e acabará constatando que elas — graças a Deus! — jamais voltarão a vibrar.