O maior benefício da civilização ao homem talvez tenha sido possibilitar um planejamento muito mais abrangente e muito mais preciso, tornando possível não somente a prevenção contra adversidades, mas também o projetar-se no futuro com alguma segurança, calculando condições a serem vivenciadas a depender do que fizer. Projetar-se, prevenir-se: tais verbos se lhe entranharam na psique, tomando boa parte do espaço antes ocupado por outros de consequência imediata. Já se vê aonde tudo isso conduz. O homem de hoje vive, em medida muito maior, o futuro; e vive menos o presente, quer por menor necessidade, quer por menor disposição. E aqui, evidentemente, reside um problema, que faz com que seja dificílimo compreender o sentido daquilo que os sábios indianos estão há séculos a repetir.
Apesar de já terem-no dito muitas e muitas vezes…
Apesar de já terem-no dito muitas e muitas vezes, é preciso repisar a mesma verdade, sabendo que ela continuará ignorada pela maioria: a intuição precede, e independe de sua expressão verbal. É preciso dizê-lo sempre porque sempre se encontram exemplos daquele que sabe, mas não consegue explicar o que sabe; e não saber explicá-lo, ou não conseguir explicá-lo de forma satisfatória, não quer dizer que não saiba. Em verdade, muitas vezes o problema está menos na explicação do que no interlocutor. Mas é indiferente: percebe-o apenas aquele que, ao menos uma vez na vida, obteve uma compreensão súbita de qualquer coisa, uma compreensão instantânea e confiável, que permitiu julgar e decidir com acerto, mas cujas bases escaparam à racionalização. Quem nunca a experimentou, ou não reparou experimentá-la, faz bem tendo ciência desta possibilidade, para que não erre tomando o conhecimento pela capacidade de explicar.
Um bom ponto a partir do qual o escritor…
Um bom ponto a partir do qual o escritor se poderá considerar efetivamente um profissional das letras é aquele em que começa a sentir prazer no estudo da língua, isto é, começa a gostar de percorrer terríveis gramáticas, estudos linguísticos complicadíssimos e similares. É quando, neste meio imperscrutável para a maioria, sente-se em casa afinal. E é quando se percebe apto a esmerar deveras um texto, atentando-se aos detalhes, consciente do poder imenso das palavras, de que, às vezes, uma delas é suficiente para mudar tudo num discurso ou numa narrativa. Toda habilidade difícil, dominada a duras penas, costuma outorgar este prêmio: a dificuldade passa a deleitar. Mas há habilidades cuja dificuldade possui um claro limite; nas letras, não parece havê-lo.
Os velórios ensinam que o sucesso morre…
Os velórios ensinam que o sucesso morre antes da memória, e que, mesmo em vida, são muito diferentes os graus de satisfação que se pode obter. Num velório, diante da carne exaurida, revelam-se ainda vivas as marcas deixadas pelo falecido na mente de quem o conheceu. E se percebe, havendo velórios distintos, haver o cultivo, e o desfrute, de distintos bens. A morte apenas escancara o gratificante que houve, se duradouro ou perecível, se egoísta ou compartilhado, se as marcas deixadas foram boas ou foram más. O falecido, como diz o verso de Mallarmé, converte-se no que é; e é por esta forma final que se pode avaliar o sucesso e a validade da convergência simultânea de tudo aquilo que se passou a vida a colecionar.