É muito gratificante quando enfim se consegue transformar, conscientemente, uma experiência ruim em um sentimento bom. Instrução nenhuma se compara ao que se aprende após executá-lo, mesmo quando, em teoria, já se soubesse quanto esperar. Fazê-lo uma vez, porém, é útil, mas não basta. Porque tão certo como se aprende com fazê-lo, depois de um tempo o ânimo flutuará. Então a lição aprendida, o sentimento positivo vivenciado, dará lugar a pensamentos e sentimentos ruins. Será necessário lidar com eles, torná-los temporários, se possível breves, e suplantá-los com a memória daquela lição. Nunca se poderá suprimi-los. Por isso, é preciso ter humildade, e jamais ceder à tentação de se acreditar, por um único momento, senhor absoluto de si.
Não é difícil perceber o que está em conformidade…
Não é difícil perceber o que está em conformidade ou contraria a própria natureza; difícil é deliberar não contrariá-la, e agir em conformidade com esta deliberação. O diabo está sempre à espreita; a vontade sempre ameaçada de trair-se. E embora, às vezes, tudo pareça muito claro, ninguém melhor que nós mesmos para nos convencer da pouca monta da falha iminente. Para cometê-la, basta deixar-se levar, algo que também facilmente queremos isento de culpa, mas que, afinal, sabemos não ser. A inércia é sempre leve, mas não conduz aonde se pode orgulhar de chegar.
Com um pouco de maturidade, absorve-se…
Com um pouco de maturidade, absorve-se facilmente a ofensa, o agravo, o infortúnio; não a culpa. Quando o homem, contra a sua vontade, tem de amargar o travo da vida, até pode gemer inicialmente, sentir o dano sofrido, a perda, a infelicidade; mas tudo isso se dissolve no tempo quando a responsabilidade recai sobre um agente exterior. O sofrimento, portanto, não tortura nem cria raízes. Algo muito diferente se passa quando ele se sabe responsável pelo dano, mormente se este não fez apenas uma vítima. Aqui, já não é possível confortar-se na aceitação de algo que não pôde controlar: o erro marca, menos por expor a natureza imperfeita do que por concretizá-lo autor da obra indesejada — para sempre. Não se pode aceitá-lo porque, diferentemente do outro caso, esta obra diz algo sobre a sua individualidade que não é possível suprimir ou evitar.
Disgrace, de J. M. Coetzee
Esta narrativa perturbadora é perpassada por uma apreensão indescritível, que nunca cessa à medida que a história avança. Lateja o sentimento de que algo está por acontecer, algo terrível, chocante, e contra a iminência se experimenta um impulso de fazer algo, de fazer qualquer coisa, o qual é repetidamente frustrado. Nada se faz; e, então, a narrativa nos vai carregando para os acontecimentos, como contrariando a nossa vontade de evitá-los, embora estejamos, simultaneamente, ansiosos por conhecê-los e matar de vez a apreensão. É uma construção interessante; o estilo do autor desaparece perante as cenas que descreve. Sobretudo, é um livro ao qual não se fica indiferente e que, talvez, encerre uma importante lição.