Da mesma forma que a um forasteiro pode parecer imodéstia aquilo que um carioca chamaria de “personalidade”, o mesmo forasteiro, em contato com chineses, poderia estranhar-lhes a modéstia, que por vezes parece exagerada ou irracional. Acontece que, em ambos os casos, tais impressões seriam falsas, e nada diriam sobre os indivíduos, afora estarem em harmonia com o costume local. Aqui, percebe-se quanta confusão pode gerar o contato com outros povos, e quão pouco se pode conhecer dos indivíduos quando se ignora as regras de comportamento predominantes em sua região.
Elon Musk continua, semanalmente…
Elon Musk continua, semanalmente, me atiçando a fazer uma loucura. Segundo ele, o meu futuro já está garantido, a minha vida já está ganha. “Não se importe com o dinheiro”, aconselha-me o multibilionário. E eu, emocionadamente querendo convencer-me, repasso em mente exemplos que vão de Fernando Pessoa aos renunciantes da Índia, de Taleb a São Francisco de Assis. Tudo converge para o ato desarrazoado que, diz-me agora minha própria mente, se provar-se mesmo desarrazoado, será pelo menos corajoso, estimulante ou, no pior dos cenários, singular. “Vou chutar o balde!”, digo a mim mesmo, sabendo que não serei capaz de fazê-lo. Eu, imaginando qual tamanho teria a pilha de meus insignificantes boletos ainda a serem pagos, só posso sorrir a Elon Musk.
O mesmo impulso ordenador…
O mesmo impulso ordenador que faz o filósofo tem, para o poeta, peso importante, mas diferente. Tal impulso delineia, estrutura, organiza, faz com que uma obra poética seja compreensível, justificada; potencializa o seu efeito posto que preenche os versos de sentido, colocando, no conjunto, cada coisa em seu lugar. Porém, uma obra poética costuma carecer de explosões, que amplificam o efeito da harmonia prévia e posterior, para além de seus efeitos expressivos mais óbvios. Pelo breve período em que se dão, às vezes tem de se suspender a ordem, tem se de permitir o caos; do contrário, o arroubo não se completa. Permitindo-o repetidamente, percebe-se que, afinal, são tais arroubos que mais marcam numa obra poética; portanto, os mais memoráveis são os breves momentos em que se rompeu com aquilo que teoricamente se pretendia fazer.
O sofrimento dá peso às palavras
De Lavelle:
D’abord, la douleur n’est pas seulement une simple privation d’être, ou diminution d’être. Il y a en elle un élément positif qui s’incorpore à notre vie et qui la change. Chacun de nous ne songe sans doute qu’à rejeter la douleur au moment où elle l’assaille ; mais quand il fait un retour sur sa vie passée, alors il s’aperçoit que ce sont les douleurs qu’il a éprouvées qui ont exercé sur lui l’action la plus grande ; elles l’ont marqué : elles ont donné à sa vie son sérieux et sa profondeur ; c’est d’elles aussi qu’il a tiré sur le monde où il est appelé à vivre et sur la signification de sa destinée les enseignements les plus essentiels.
Aqui, fica justificada a alegada afirmação de Dostoiévski de que, para escrever bem, é preciso sofrer. O sofrimento dá peso às palavras; sua experiência molda o caráter e a compreensão. Quando intimamente experimentado, impõe-se. Por isso, não é preciso que o leitor tenha experiências semelhantes para apreciar uma obra artística: da condição humana exposta com autenticidade porque autenticamente vivida, brota o respeito, que abre a porta para a identificação.