O problema das relações é que…

O problema das relações é que, em geral, o que se ganha delas é pouco perante o que se tem de fazer para sustentá-las; quer dizer, assim é para as relações comuns, e quando tal não ocorre, nas raras vezes em que tal não ocorre, aí se encontrou uma relação de valor. Para esta, que se estabelece e se mantém com naturalidade, sem que as partes tenham de falsificar-se ou fingir temporariamente ser aquilo que não são, o esforço que se faz é para cultivá-la, não deixando que esmoreça pela distância, nem que se deteriore pela banalização. Ainda assim, há o risco de que acabe presa das circunstâncias, sujeita à dinâmica da vida, e portanto corre o risco de perecer. Mas basta uma única relação desta natureza, e muda-se completamente a ideia que se faz de viver.

Embora o trabalho dos críticos seja de grande…

Embora o trabalho dos críticos seja de grande serventia ao estudante, que tem de definir uma rota de estudos, e tem de encontrar uma maneira de selecionar, desconhecendo-as, as obras que mais lhe convêm, é sem dúvida melhor entrar numa obra ignorando-se o que dela disseram, e deixar que ela cause, numa relação travada entre autor e leitor, a sua impressão. Depois, a crítica, que será melhor compreendida, e talvez estimulará leitura adicional. Ocorre, porém, que não é possível, e nem conveniente fazê-lo sempre, uma vez que, antes de tudo, é preciso definir o que ler. Então é preciso lidar com a sensação desagradável de, durante a leitura, pedir que se afastem da mente os julgamentos já conhecidos que ficarão insistindo em aparecer.

Estes dias em que se acorda…

Estes dias em que se acorda, intempestivamente, com um impulso louco por tudo compreender a respeito de si… E então revirar arquivos, livros, memórias e anotações; buscar desesperadamente por novas fontes, forçar lampejos daquilo que não se percebeu. Durante o processo, reaparecem em mente aquelas certezas esquecidas, amiúde como se fossem novas, mas que já foram objeto de reflexão. São dias bons, esses… Mas o conhecimento que se tem a respeito de si, conquanto possa conectar e dar sentido ao passado, conquanto possa orientar o futuro, reafirmar votos, relembrar decisões, nada pode contra esta gigantesca zona desconhecida, que deixa a existência inteira em aberto, para ser devidamente compreendida apenas quando já não se existir.

Ah, recordações!… É mesmo algo indescritível…

Ah, recordações!… É mesmo algo indescritível brincar de revivê-las, experimentando mentalmente aquilo que não se pôde viver. Dizer o que não se teve coragem, estender um momento que o acaso interrompeu… E então ficar a refletir no que poderia ter sucedido. É verdade: o mais das vezes, nada extraordinário, e o exercício não passa de uma brincadeira imaginativa. Extrai-se dele algum prazer; mas, afinal, conclui-se ter ocorrido o que havia de ocorrer.