Ao lado da exaltação batida, há na literatura, aqui e ali, exemplos mais sóbrios, mas muito mais reais do reconhecimento da influência efetiva, diária, e por vezes maravilhosa da natureza na vida do autor. Alguns poderiam estranhar que não sejam tão frequentes, e outros poderiam julgá-los tão idealistas quanto os primeiros; mas ocorre que, de um lado, é preciso experiência e olhos abertos para notá-lo, e, de outro, é admitir que são simplesmente reais. Às vezes, basta uma janela. E a paisagem, quando menos se espera, quando mais se precisa, invade a casa, invade o espírito, transforma o ânimo e dá outro rumo à situação. Lamentavelmente, há quem passe uma vida sem experimentá-lo; mas é preciso ter ciência de que tal é possível e, tendo-a, nada há de mais razoável do que o esforço por fazê-lo acontecer.
Um americano especialista em educação disse…
Um americano especialista em educação disse, há alguns meses, que uma boa formação já pode dispensar o estudo de idiomas, visto que a inteligência artificial já é capaz de fazer traduções instantâneas, e o tempo pode ser aplicado com maior proveito em outras disciplinas. Saber bem o inglês é suficiente, concluiu. Que dizer? Sobre os efeitos do estudo de um idioma na inteligência, já disseram muito; Napoleão Mendes de Almeida, em sua insuperável Gramática latina, argumenta em favor do latim. Para alguém que possui o inglês como língua materna, porém, talvez não haja nada mais relevante ao seu desenvolvimento intelectual do que aprender, desesperadamente, tão cedo como possível, um idioma sintaticamente mais complexo, e serve até o espanhol. Mas como convencer o especialista? Se ele não o percebe de imediato, talvez não haja solução. Sua visão tem de ser invertida: o homem do futuro, quanto mais facilidades usufruir, mais terá de se esforçar para não desbaratar capacidades que somente o esforço focado pode desenvolver.
Muito em razão desta cultura digital…
Muito em razão desta cultura digital, dos dispositivos inteligentes, da informação cada vez mais instantânea e mais mastigada, da onipresença de inumeráveis telas simultâneas, tornaram-se extremamente comuns as dificuldades de concentração. O problema ocorre, naturalmente, porque o homem moderno, cada vez menos, tem necessidade de pensar. Quando a necessidade surge, há maneiras de delegar o raciocínio. O resultado é que se vive num estado meio aéreo, desfocado, e se desenvolve uma infinidade de impulsos prejudiciais à concentração. Pela falta de prática, tal habilidade se perde. Como, pois, restaurá-la? Tão simples como o diagnóstico precedente, é possível respondê-lo numa única palavra: praticando-a. E como? Ora, através de qualquer atividade que a exija, que isole o meio, que absorva. Uma leitura, por exemplo; desde que desperte grande interesse, um tal que se sobreponha aos impulsos dispersantes. Mas para vencer realmente o problema, para reacostumar a mente ao ato de centrar-se, àquela ekagrata ou one-pointedness de que falam os indianos, talvez não haja solução melhor que a velha meditação associada ao valioso e penosíssimo estudo do latim.
Pelo senso de humor descobre-se a experiência
Pelo senso de humor descobre-se a experiência. E são poucos os traços da personalidade tão reveladores como este. O sujeito acostumado ao chão de fábrica, por exemplo, não precisa de muito para escandalizar aquele outro, criado nos moldes da elite europeia. E este último, se faz uma piada, ou não será compreendido pelo primeiro, ou lhe parecerá ridiculamente infantil. Assim são as coisas. Mas é difícil, para aquele que ambos compreende, classificar o humor de um ou de outro como melhor. O que não é difícil é perceber, com um pouquinho de conversa, a vivência que moldou a pessoa com que se está a conversar.