De um autor como Manuel Bandeira, só se consegue imitar traços isolados, esta ou aquela abordagem, este ou aquele torneio da frase, mas nunca a confluência indefinida e especialíssima de fatores que tornam o poeta inconfundível. Este, aliás, é o maior prazer em lê-lo: é perceber que, a despeito da temática, a despeito da forma poética, a despeito do tom adotado, ali está uma consciência única, formada a partir de circunstâncias irreplicáveis, a expressar-se genuinamente e com a qual podemos travar uma relação pessoal.
As dificuldades que o autor brasileiro enfrenta…
As dificuldades que o autor brasileiro enfrenta para criar uma obra literária, afinal, acabam por fortalecer as vocações autênticas. E se é verdade que tornam o idílio impossível, igualmente conferem à realização literária um novo valor. Só não o reconhecerão aqueles acostumados a abstraírem a obra das circunstâncias em que foi concebida, algo que não é senão diminuí-la de parte importante de seu significado. O autor brasileiro tem de valorizar as dificuldades que lhe enobrecem o esforço, porque, no fundo, é com superá-las que experimentará a mais plena satisfação.
Ainda que o autor provavelmente nunca…
Ainda que o autor provavelmente nunca se satisfaça de todo, é inegável que, ao finalizar uma obra, se recorda o seu início, quando não havia muito mais do que intenção e expectativa, tem de concluir que alguma coisa especial aconteceu. Às vezes, é notar o curso inimaginável tomado pela criação, e consequentemente a realização inesperada, para satisfazer-se da certeza de ter concretizado algo novo, de ter, enfim, honrado a tarefa a que se propôs. Talvez não seja muita coisa, e talvez esta satisfação não predomine sobre o desagrado com o produto final; mas um autor só se realiza criando, só se aprimora por sobre aquilo que já criou. Uma obra realizada, portanto, nunca será tão má que não lhe conceda ao menos uma lição.
Se penso nos sannyasis da Índia…
Se penso nos sannyasis da Índia, naturalmente não renunciei a nada, levo uma vida de prazeres e conforto, e não lidei senão com obstáculos mínimos para exercer a minha vocação. Se, contudo, confronto-me o meio com aquilo que me tornei, se reflito no curso natural rejeitado, na vida adulta que se resumiu a deserções sucessivas, a um isolamento sempre crescente, a pequenas privações que se foram amontoando, ao abandono contínuo daquilo que era e de muito do que tendia a ser, vejo que não foi pouca coisa. Seguramente, não teria dificuldades em convencer um cidadão comum de minha loucura. E talvez eu acabe, como Lima Barreto, frequentando um hospício. Mas é certo que, tal como Lima Barreto não pôde, eu não poderia fazer algo diferente do que fiz.