Aquele que se expõe ao público…

Aquele que se expõe ao público, se faz algum sucesso, pode estar certo do seguinte: haverá, sem dúvida, um dia ruim, um dia em que, por qualquer motivo, demonstre fraqueza, falhe ou simplesmente provoque uma má repercussão. Neste dia, surgirão detratores de todos os cantos, em número muito superior ao que julgar possuir. O coro passará impressão de unanimidade; o que disser soará como o senso comum. Sua imagem, portanto, sofrerá um abalo, e momentaneamente ninguém se lembrará daquilo que fez e que é. Será, é claro, uma experiência assaz desagradável; mas publicidade significa ter de vivê-la, e saem fortalecidos aqueles que a suportam sem desequilibrar.

Exatamente como não se pode fugir da inveja…

Exatamente como não se pode fugir da inveja ou de inimizades indesejadas, não se pode evitar antipatias instantâneas e fatais. É mesmo intolerável: o inútil destas experiências salta aos olhos; um homem comum faria de tudo, abriria mão de quase tudo para evitá-las. Mas não tem essa opção. O príncipe deste mundo tem ideias, e o força a vivê-las sempre, não importa o quanto as deteste e o quanto tente delas se esquivar. Acordará feliz, num daqueles dias em que a vida parece fluir suave, controlada, prazerosa, e então se azedará tudo com o encontro desnecessário. Ri-se o diabo…

As longas esperas são sempre mais ou menos penosas

As longas esperas são sempre mais ou menos penosas, porque desviam o foco daquilo que se espera para a atual privação. Contudo, acostumam aos estorvos, e à força ensinam a mirá-los sem desesperar. Obviamente, tal lição é pouco grata e, se fosse possível, não seria tomada por ninguém. Quando, porém, o tempo passa, quando a sorte permite e enfim acaba a espera, pode-se fazer um juízo diferente. E então se percebe que, sem ela, o estado precedente se apagaria na memória, e com ele a noção exata da verdadeira graça psicológica em que consiste o estado atual.

Nunca deixa de impressionar o fenômeno…

Nunca deixa de impressionar o fenômeno ocorrido no “dia triunfal” de Fernando Pessoa. É um mistério majestoso, ao qual todos os artistas têm de se curvar. Pode-se racionalizá-lo em parte, pode-se inclusive tentar replicá-lo com bons resultados, executando metodicamente durante a criação etapas predefinidas. Contudo, ainda que o processo se mostre proveitoso, nada se pode fazer para garantir a potência máxima no ato final. Este parece como que independente e soberano: dá-se quando e como quiser. E talvez seja bom que assim proceda, porque evita que o autor caia na soberba e se julgue senhor absoluto do enigmático mister da criação.