O mesmo impulso ordenador…

O mesmo impulso ordenador que faz o filósofo tem, para o poeta, peso importante, mas diferente. Tal impulso delineia, estrutura, organiza, faz com que uma obra poética seja compreensível, justificada; potencializa o seu efeito posto que preenche os versos de sentido, colocando, no conjunto, cada coisa em seu lugar. Porém, uma obra poética costuma carecer de explosões, que amplificam o efeito da harmonia prévia e posterior, para além de seus efeitos expressivos mais óbvios. Pelo breve período em que se dão, às vezes tem de se suspender a ordem, tem se de permitir o caos; do contrário, o arroubo não se completa. Permitindo-o repetidamente, percebe-se que, afinal, são tais arroubos que mais marcam numa obra poética; portanto, os mais memoráveis são os breves momentos em que se rompeu com aquilo que teoricamente se pretendia fazer.

O sofrimento dá peso às palavras

De Lavelle:

D’abord, la douleur n’est pas seulement une simple privation d’être, ou diminution d’être. Il y a en elle un élément positif qui s’incorpore à notre vie et qui la change. Chacun de nous ne songe sans doute qu’à rejeter la douleur au moment où elle l’assaille ; mais quand il fait un retour sur sa vie passée, alors il s’aperçoit que ce sont les douleurs qu’il a éprouvées qui ont exercé sur lui l’action la plus grande ; elles l’ont marqué : elles ont donné à sa vie son sérieux et sa profondeur ; c’est d’elles aussi qu’il a tiré sur le monde où il est appelé à vivre et sur la signification de sa destinée les enseignements les plus essentiels.

Aqui, fica justificada a alegada afirmação de Dostoiévski de que, para escrever bem, é preciso sofrer. O sofrimento dá peso às palavras; sua experiência molda o caráter e a compreensão. Quando intimamente experimentado, impõe-se. Por isso, não é preciso que o leitor tenha experiências semelhantes para apreciar uma obra artística: da condição humana exposta com autenticidade porque autenticamente vivida, brota o respeito, que abre a porta para a identificação.

O desenvolvimento da linguística

O desenvolvimento da linguística, depois de Saussure, é impressionante e comparável à física, posto que, se folheamos obras antigas e recentes de qualquer destas duas disciplinas, ficamos espantados com o contraste. Quer dizer: tais disciplinas transformaram-se ao irreconhecível; do que falam as obras recentes, as antigas não poderiam nem sonhar. Com a linguística, ocorre, porém, o seguinte: o estudante pode facilmente dispensar tudo quanto se tem escrito recentemente, e mesmo assim tornar-se um respeitável conhecedor do idioma. Pode, é claro, ganhar um bocado estudando as obras atuais; mas é preciso que tenha uma forte base linguística, algo que não é conferido por elas. Se começa, contudo, o estudo pelo que há de mais novo, o mais provável é que se confunda até o desespero, e acabe tendo pavor do idioma que fala. Incrível! A simplicidade dos antigos mestres, já inimitável, parece garantir para as suas obras mais um punhado de reimpressões.

O que se percebe ao analisar a obra dos três ases…

O que se percebe ao analisar a obra dos três ases da música é que houve uma transferência da experiência para a arte tão perfeita que, apenas por suas obras, é possível dizer sem pestanejar qual deles desfrutou uma vida mais harmoniosa, e em que grau experimentaram o sofrimento, a melancolia e o desespero. O homem de carne e osso, para dizer como Unamuno, grita através das composições. Trata-se de arte autêntica, que inspira pela sinceridade e comove pelo fundamento real. Enfim, percebe-se que o limite da técnica é expressar com precisão uma ideia ou sentimento; depois disso, o impacto da obra resultará do grau de identificação que ela provocar no seu receptor.