Os problemas mais irritantes são aqueles cuja compreensão é insuficiente para solucioná-los. São aqueles com os quais se tem de lidar por um período prolongado, e mesmo que o seu mecanismo seja perfeitamente compreensível, mesmo que sua solução seja claríssima, não se pode vencê-los por não se possuir os meios para tal. Daí que cada aparição opera como que uma martelada na mente, uma martelada dolorosa, exasperante, que tem de ser absorvida em silêncio, visto que a reação é inútil e só aumenta a irritação. O pior de tais problemas é parecerem injustificáveis no momento seguinte à sua compreensão; quer dizer, o que tinha de ensinar, já ensinaram; mas mesmo assim, por birra, eles insistem em não desaparecer.
É difícil mensurar o quão útil pode ser…
É difícil mensurar o quão útil pode ser o domínio de ao menos um destes grandes sistemas simbólicos, de forma que o raciocínio tenda naturalmente a encontrar vínculos entre a realidade e a miríade de interpretações simbólicas tradicionais. Tais correspondências nunca se esgotam, e aprofundam muito a compreensão da realidade. Um evento simples, pois, adquire para a mente um sentido mais amplo. E ganha-se mesmo quando não se está conscientemente o tentando interpretar, posto que a mente assim treinada se inclinará sempre a ultrapassar a camada de significado superficial.
Em certa medida, não se escolhe os sentimentos…
Em certa medida, não se escolhe os sentimentos que brotarão em relação ao meio, porque não se escolhe as circunstâncias em que se nasce, nem se escolhe grande parte dos eventos determinantes que o meio produzirá durante uma vida. Assim, produzem-se naturalmente a afeição e a repulsa, o patriotismo e o antipatriotismo, o pertencimento e a alienação. Mas todos esses sentimentos, se não compreendidos, frutificam mal. É preciso um esforço consciente por relacioná-los sempre às transformações pessoais experimentadas, tendo-os como os catalisadores importantíssimos que são. As tais transformações, às vezes, contrariam a natureza daquele sentimento inicial; mas todas ensinam, e para com todas é necessário desenvolver uma boa disposição.
Imaginar que tenha havido um Carpeaux…
Imaginar que tenha havido um Carpeaux antes da invenção do computador dá o que pensar. Um leitor ativo, no correr de uma década, produz uma quantidade de anotações que ultrapassa os milhares. Três, quatro décadas de estudo, portanto, equivalem a um montante que cabeça humana nenhuma é capaz de abarcar, a não ser que seja executado um trabalho constante de releitura e reorganização, que nunca cede porque sempre há velhas anotações a serem revisitadas, e sempre há novas ideias, novas conexões a serem estabelecidas a partir desta revisitação. Um computador, se utilizado com inteligência, facilita tremendamente a pesquisa: uma tarefa de uma hora, às vezes, é reduzida a minutos. Ainda assim, parece quase inalcançável a condição daqueles antigos eruditos, cujas anotações residiam enfiadas nos próprios calhamaços — algo que, hoje, faz arrepiar.