No curso de uma vida, só se experimenta a sensação de avanço com inícios e pontos finais. Sem eles, sente-se uma estagnação que, por antinatural, provoca um desconforto progressivo, o qual, ainda que camuflado, tende a intensificar-se até estourar quando menos se espera — e, então, não há como recuperar o tempo que se perdeu. Por isso é fundamental colocá-los regularmente como estacas demarcadoras do progresso. Assim efetivamente se evolui: conservando a iniciativa para novos começos e a maturidade para perceber que algo já cumpriu o seu papel.
O período de uma década costuma ser suficiente…
O período de uma década costuma ser suficiente para transformar um iniciante em especialista. Mas impressiona menos o conhecimento adquirido na disciplina ou ocupação do que a mudança ostensiva que o estudo costuma acarretar no que há em redor. Quanta coisa se transforma! O iniciante, dez anos depois, tornou-se outro; fisicamente é outro, e às vezes fica difícil associar o novo especialista a quem um dia foi. Alguém que não o conhecia já não encontrará aqueles traços que culminaram no estado atual. E alguém que o conhecia antes, mesmo que tente, mesmo que force, mesmo que não aceite a mudança, provavelmente não conseguirá fazer vibrar cordas antigas, e acabará constatando que elas — graças a Deus! — jamais voltarão a vibrar.
Presenciar um único destes momentos…
Presenciar um único destes momentos de “coincidências significativas”, ou “sincronicidade”, para usar a terminologia de Jung, mais do que justifica o estudo do esoterismo inteiro, desde as teorias mais obscuras aos mais exóticos sistemas de divinação. Nestes momentos, percebe-se o quão insuficiente, o quão estúpida é essa concepção cientificista moderna, que se apoia numa autoridade ridicularizada pela violência tremenda, inquestionável e inesquecível de algumas experiências. É presenciá-lo uma única vez, e já se torna difícil interessar-se por qualquer coisa “científica” — cai por terra o sagrado do adjetivo. Então, o verdadeiro problema: imergir neste que é o território mais prolífero de picaretas. Mas não há saída: é ouvi-los, talvez ludibriar-se, e descobrir, no fim das contas, o que foi possível se tirar de bom.
Alguns dirão faltar um Walt Whitman…
Alguns dirão faltar um Walt Whitman, faltar um Eliot; contudo, o que há de mais evidente na poesia brasileira é que os bons poetas contam-se às dezenas, e isso não é pouca coisa. Poetas como Maranhão Sobrinho, Junqueira Freire, Raul de Leoni, José Albano, Venceslau de Queirós não costumam ser sequer mencionados em antologias e compêndios. A tradição, por sua vez, já ostenta alguns séculos de consistência e solidez. E por mais que, após uma análise superficial de novos e velhos poetas, de temáticas batidas ou importadas, se possa ceder ao impulso de menosprezar o todo, o estudo aprofundado não deixa dúvida quanto a tremenda tolice de fazê-lo. A poesia brasileira é ótima; e nada mais é preciso dizer.