Se, tal como se dá no oriente, os escritores se formassem numa espécie de discipulado, o bom mestre diria de cara, logo no primeiro encontro com o discípulo: “Antes de tudo, temos de resolver o seu problema financeiro. Você precisa, caso não as possua, criar as condições para que nunca dependa, nem nunca espere dinheiro de nenhum de seus escritos”. Então, antes da gramática, antes da leitura dos clássicos, antes de qualquer outra coisa, o discípulo teria de exercitar a matemática: calcular quanto precisaria, mensalmente, para viver; calcular quanto precisaria juntar para ter essa renda, ou que tipo de trabalho poderia fazer, paralelamente à escrita, para reunir o montante ou extrair a tal renda mensal. Sem um plano financeiro muito bem definido, cujo triunfo significa a superação do problema do dinheiro, o descolamento de toda sorte de perturbações pecuniárias, todo escritor tende a acabar, com sorte, como Mário de Sá-Carneiro, com azar, como outros que não merecem menção. Cioran está certo: qualquer trabalho físico é preferível ao texto remunerado; a necessidade de dinheiro não pode contaminar o ato de escrever.
Decerto, minha sorte foi ter devorado…
Liberdade… Decerto, minha sorte foi ter devorado livros de finanças antes de descobrir a literatura, quer dizer, ter entendido a mecânica do dinheiro antes de cometer a insanidade de largar tudo para me tornar escritor. Assim, pude fazer algo que ninguém me ensinaria: estruturei um plano financeiro, paralelo ao plano de estudos para me capacitar a escrever. Preparei-me, através de um planejamento que ainda segue, para chutar o balde com segurança. Será que houve, alguma vez, escritor sem recursos com a mesma sorte? Fui salvo por esta circunstância especialíssima. Sem ela, se eu tivesse entrado em contato com esse papo de liberdade, acabaria muito, muito mal.
Cioran, em entrevista a Michael Jakob…
Cioran, em entrevista a Michael Jakob:
M. J. : Aviez-vous décidé avant votre arrivée en France de ne pas travailler dans ce pays non plus ?
C. : Oui, c’est d’une façon ultra-lucide que j’ai compris qu’il faut accepter n’importe quelle humiliation ou souffrance pour se refuser à exercer un métier, à faire des choses qu’on n’aime pas et qu’on ne peut pas aimer, à exercer tout travail impersonnel. Seul j’aurais accepté un travail physique. J’aurais accepté de balayer les rues, n’importe quoi, mais pas d’écrire, de faire du journalisme ! Il fallait tout faire pour ne pas gagner sa vie. Pour être libre il faut supporter n’importe quelle humiliation et c’était presque le programme de ma vie.
Liberdade e humilhação! Talvez não haja palavras tão próximas. Por tal resposta, vê-se claramente o sentimento que pulsa num escritor verdadeiro. E este, queira ou não, não fará muito além de carregar uma vida que, para os outros, seria impensável. Não existe essa coisa de reconhecimento nas letras. O sujeito dedica a vida à construção de uma obra, financeiramente se torna uma subpessoa, persevera contra tudo, renuncia a todo o resto — e, ainda assim, tem de torcer para que permaneça na paz do anonimato, para que não seja jamais lido. Quando não dá essa sorte, é invejado pelos pares e insultado pelo primeiro imbecil. No fim de tudo, porém, vale a pena, porque o escritor que o aceita, em verdade, opta por uma vida autêntica, e pode se orgulhar de tê-la sustentado sem se trair.
É mesmo uma maravilha que Cioran…
É mesmo uma maravilha que Cioran tenha-se mudado para Paris, tenha deliberado viver sem jamais exercer uma profissão, e tenha conseguido! Só de pensar neste sucesso, as ideias vêm… É curioso: parece que algo sempre ocorre em socorro de toda decisão radical desse tipo. Ao menos, é essa a sensação que parece brotar da leitura de inúmeras biografias. Alguém certamente objetará: “Esses, naturalmente, são os que sobreviveram para contar história”. Mas há muitos! Vão aos extremos da angústia e, quando sentem a circunstância insuportável, quando preferem morrer a prolongá-la, assumem o risco, deliberam o impossível, se comprometem a jamais ceder. E, por fim, as coisas acontecem. Ah, ideias!…