O mestre e Margarida e The razor’s edge

Interessante experiência esta de ler, em sequência, O mestre e Margarida e The razor’s edge, obras muito diferentes. Não há como não se impressionar com a engenhosidade da primeira: a leitura corre leve; intriga e sugere; desde o princípio não esmorece o anseio pela página seguinte. É uma obra-prima. Já a segunda não ostenta essa criatividade exuberante. Acontece, porém, o seguinte: um romance, para ser escrito, exige determinadas qualidades do autor; por isso, a experiência habilita a escrever com propriedade sobre assuntos vedados à juventude. Assim que o crítico, talvez com acerto, poderá dizer que o romance de Bulgákov é artisticamente superior; mas o filósofo, também com acerto, poderá notar que talvez não haja objetivo mais nobre para um romancista que desenvolver as qualidades que Maugham revelou possuir.

A leitura de Nietzsche…

A leitura de Nietzsche, mais do que qualquer outra coisa, provoca o sentimento da grandiosidade do estudo, da escrita, da filosofia e da arte. Trata-se de um autor que enobrece como poucos tais ocupações, e cuja leitura, consequentemente, é das mais estimulantes para qualquer aspirante a exercê-las. Daí que, tal como ele matura o pessimismo transvertendo-o em algo novo, sua obra pode maturar o estudante meramente inclinado às obras do espírito a alguém consciente, orgulhoso e determinado a assentar a vida no mais que puder extrair de seu imenso valor.

É uma pena que o homem não possua…

É uma pena que o homem não possua um instinto de preservação que o encoraje a cortar a própria língua antes que se degrade irremediavelmente na difamação. Há casos em que, se tal instinto existisse, a biografia seria outra. É preciso pensar muito bem antes de ceder a esse impulso terrível, que mais cega quanto mais parece justo. Em geral, melhor se difama aquele que melhor se conhece, e a melhor maneira de se conhecer é travar intimidade, a qual muito dificilmente se dá desprovida de algum grau de gentileza, de cordialidade mútua, pelo qual se deve agradecer. Logo se vê onde tudo isso desagua: não há manifestação mais desprezível do que a ingratidão.

Os últimos séculos tornaram obrigatório…

Os últimos séculos tornaram obrigatório o perguntarmo-nos, antes de abrir um livro de história, quem a conta e sob qual ponto de vista o faz. Isso porque parece ter-se tornado uma espécie de vício ou passatempo irresistível a transformação de heróis em vilões e vilões em heróis. Lamentavelmente, tal hábito só costumamos adquirir após a constatação de termos sido enganados. Por outro lado, contudo, o avanço impressionante da historiografia é um acontecimento demasiado feliz, e podemos confiar que aqueles que nos enganaram, ou tentaram nos enganar, assinaram um contrato desvantajoso: apostaram na mentira contra o tempo; hão de ser desmascarados e permanecerão humilhados para todo o sempre, sem possibilidade de reparação.