O que se percebe ao analisar a obra dos três ases da música é que houve uma transferência da experiência para a arte tão perfeita que, apenas por suas obras, é possível dizer sem pestanejar qual deles desfrutou uma vida mais harmoniosa, e em que grau experimentaram o sofrimento, a melancolia e o desespero. O homem de carne e osso, para dizer como Unamuno, grita através das composições. Trata-se de arte autêntica, que inspira pela sinceridade e comove pelo fundamento real. Enfim, percebe-se que o limite da técnica é expressar com precisão uma ideia ou sentimento; depois disso, o impacto da obra resultará do grau de identificação que ela provocar no seu receptor.
“Saving for retirement will be irrelevant”…
O multibilionário Elon Musk disse recentemente que “saving for retirement will be irrelevant” e, como se soubesse o que venho fazendo e sofrendo há mais de dez anos, deu-me um conselho pessoal: “Don’t worry about squirreling money away for retirement in 10 or 20 years. It won’t matter”. Sem dúvida, tais palavras cairiam muito bem no dia mais feliz de toda a minha vida, e seriam justificativa mais do que suficiente para que eu começasse a queimar o pouco que juntei. Mas, no tocante ao dinheiro — e somente ao dinheiro!, — sou como Schopenhauer. E isso significa que sou incapaz de acreditar nas palavras do visionário engenheiro de foguetes e explorador espacial, crendo muito mais plausível que, num futuro como este, eu descobrirei uma maneira de falir. Seria lindo, maravilhoso, aposentar-me agora e aguardar o dia em que já não será necessário me aposentar. Comprar um pequeno buraco, acender o meu cigarro e escrever. Sentar numa cadeira de balanço e contemplar as nuvens, tomar todos os dias o meu sol matinal. Muito, muito bonito… mas preciso de outra vida para ser capaz de confiar num robô.
É difícil dimensionar o quão desastroso…
É difícil dimensionar o quão desastroso foi este último Acordo Ortográfico, e quanto mais se aprofunda nas minúcias destas novas regras, ou melhor, no que deixou de existir na língua após a sua aplicação, mais se lamenta e mais se revolta. A questão deveria se encerrar nas motivações do acordo, e suscitar gargalhadas diante da incompetência e ilegitimidade das “autoridades” que arrogaram a si mesmas o direito de decidir. Contudo, a estupidez vigorou. E, agora, alguém que queira segui-la perdeu a possibilidade de raciocinar dentro da língua, de imbuir-se no espírito da língua, e tem de consultar sempre os ditames das mesmas “autoridades” sobre como se deve escrever. É tudo muito ridículo. Um escritor tem de consultar esse tal de VOLP para saber se hifeniza ou não um substantivo composto, para saber se a mente caótica dos especialistas o considerou substantivo, “expressão com valor de substantivo”, ou alguma locução. A ambiguidade intrincada e ilógica dos critérios resultou em não haver mais critérios, apenas determinações. Diante desta lista infinita de exceções arbitrárias, ao menos, pode se extrair uma lição: numa língua variada e viva como o português, a mera ideia de qualquer acordo deveria constranger.
Deixar-se envolver na teia de afazeres…
Deixar-se envolver na teia de afazeres e responsabilidades da vida mundana praticamente sela, pelo tempo que este estado perdura, a possibilidade de que a mente perceba o quanto se está a desperdiçar. Só poderá percebê-lo depois, com sorte, quando o desperdício já estiver consumado. O positivo da situação é que o aprendizado costuma demandar o erro experimentado em ato pessoal; quer dizer: primeiro o deslize, depois a lição. Sem desperdiçar-se temporariamente, a mente não assimila as consequências concretas de fazê-lo. Mas ocorre que, após certo ponto, o que havia de instrutivo ou foi assimilado, ou se provou inócuo, e a mente ou decidiu transformar-se, ou aceitou encerrar-se num ciclo interminável de repetições.