Este livro é prova daquilo que disse Mário Ferreira dos Santos, de ser o romance obra de maturidade. Um jovem jamais poderia escrevê-lo: Maugham, com sete décadas de vida, demonstra-se apto a descrever o painel imenso e complexo de possibilidades que a existência oferece. É uma obra que retrata tipos e escolhas, vidas possíveis, circunstâncias, ambições e resultados. Nela aparecem manifestações humanas das mais desprezíveis às mais nobres. E aparece esse inesquecível Larry Darrell, cuja vida é interrompida pelo fim da narrativa, deixando-nos inclinados a peticionar a Deus que faça Maugham novamente vivo para terminar aquilo que começou. Contudo, um personagem assim, mesmo incompleto, faz valer um livro: é o retrato de como qualidades raras se manifestam no mundo, de como fogem ao óbvio, rejeitam o conveniente e parecem errar por uma trilha incerta e indesejável. Parecem, em suma, o fracasso. E o fracasso talvez pareça o sucesso. E não se pode enfim julgar com segurança, porque às vezes uma aparente fidelidade à própria natureza guarda no passado uma possibilidade rejeitada, talvez mais autêntica, que não pôde frutificar. Fica tudo em suspenso; a nós, porém, resta o privilégio de poder ler e reler esse romance excepcional.
O mestre e Margarida e The razor’s edge
Interessante experiência esta de ler, em sequência, O mestre e Margarida e The razor’s edge, obras muito diferentes. Não há como não se impressionar com a engenhosidade da primeira: a leitura corre leve; intriga e sugere; desde o princípio não esmorece o anseio pela página seguinte. É uma obra-prima. Já a segunda não ostenta essa criatividade exuberante. Acontece, porém, o seguinte: um romance, para ser escrito, exige determinadas qualidades do autor; por isso, a experiência habilita a escrever com propriedade sobre assuntos vedados à juventude. Assim que o crítico, talvez com acerto, poderá dizer que o romance de Bulgákov é artisticamente superior; mas o filósofo, também com acerto, poderá notar que talvez não haja objetivo mais nobre para um romancista que desenvolver as qualidades que Maugham revelou possuir.
A leitura de Nietzsche…
A leitura de Nietzsche, mais do que qualquer outra coisa, provoca o sentimento da grandiosidade do estudo, da escrita, da filosofia e da arte. Trata-se de um autor que enobrece como poucos tais ocupações, e cuja leitura, consequentemente, é das mais estimulantes para qualquer aspirante a exercê-las. Daí que, tal como ele matura o pessimismo transvertendo-o em algo novo, sua obra pode maturar o estudante meramente inclinado às obras do espírito a alguém consciente, orgulhoso e determinado a assentar a vida no mais que puder extrair de seu imenso valor.
É uma pena que o homem não possua…
É uma pena que o homem não possua um instinto de preservação que o encoraje a cortar a própria língua antes que se degrade irremediavelmente na difamação. Há casos em que, se tal instinto existisse, a biografia seria outra. É preciso pensar muito bem antes de ceder a esse impulso terrível, que mais cega quanto mais parece justo. Em geral, melhor se difama aquele que melhor se conhece, e a melhor maneira de se conhecer é travar intimidade, a qual muito dificilmente se dá desprovida de algum grau de gentileza, de cordialidade mútua, pelo qual se deve agradecer. Logo se vê onde tudo isso desagua: não há manifestação mais desprezível do que a ingratidão.
