Se fosse estabelecida uma escala com os níveis…

Se fosse estabelecida uma escala com os níveis de compreensão literária, ou de inteligência linguística, seguramente haveria um nível que a maioria das pessoas razoavelmente inteligentes, com alto QI e boa capacidade argumentativa, não alcançariam, e é o nível que capacita a identificar uma expressão concebida esteticamente, uma expressão que se justifica pelo efeito que produz. Realmente, quantos o não alcançam! A maioria dos “inteligentes” se recusa a não se aferrar ao sentido das frases, e portanto parecem desconhecer haver mais do que a semântica, a lógica e as figuras de linguagem mais óbvias. São aqueles incapazes de apreciar um autor como Cioran, ou como Nietzsche, ou até certos trechos de Pessoa, porque “não concordam” com aquilo que leem. O curioso é que, embora seja instintivo taxá-los de imaturos, tal nível de compreensão parece realmente difícil de ser alcançado por aqueles que não exercem o ofício de escrever. Exercendo-o, tudo se torna muito simples: basta propor-se, ainda que por brincadeira, talhar algumas frases impactantes; e então ficará evidente que o exagero, e mesmo a adulteração do pensamento, às vezes, produzem um resultado muito superior.

O homem moderno pode desprezar como bobagens…

O homem moderno pode desprezar como bobagens os conselhos dos advogados das longas caminhadas, — numerosos e que congregam figuras desde os antigos até um Nietzsche ou um Taleb; — mas a verdade é que a vida se transforma sensivelmente, e para melhor, quando se cultiva o hábito de caminhar. Decerto, nem sempre se pode caminhar como aqueles homens, longa e despreocupadamente, fazendo da caminhada uma espécie de meditação em movimento, colocando em prática o solvitur ambulando; contudo, o homem que substitua o trânsito, o transporte público e os automóveis pela caminhada, deixando que esta, e os efeitos desta, participem de sua rotina, em vez e no lugar do inevitável desgaste proporcionado por aqueles, testemunhará que sua vida tornou-se significativamente melhor. Poucas coisas são tão seguras como esta: mover-se com o próprio corpo, pelo próprio esforço, na velocidade natural, todos os dias, muda por completo a disposição com que se acorda pelas manhãs.

O problema das relações é que…

O problema das relações é que, em geral, o que se ganha delas é pouco perante o que se tem de fazer para sustentá-las; quer dizer, assim é para as relações comuns, e quando tal não ocorre, nas raras vezes em que tal não ocorre, aí se encontrou uma relação de valor. Para esta, que se estabelece e se mantém com naturalidade, sem que as partes tenham de falsificar-se ou fingir temporariamente ser aquilo que não são, o esforço que se faz é para cultivá-la, não deixando que esmoreça pela distância, nem que se deteriore pela banalização. Ainda assim, há o risco de que acabe presa das circunstâncias, sujeita à dinâmica da vida, e portanto corre o risco de perecer. Mas basta uma única relação desta natureza, e muda-se completamente a ideia que se faz de viver.

Embora o trabalho dos críticos seja de grande…

Embora o trabalho dos críticos seja de grande serventia ao estudante, que tem de definir uma rota de estudos, e tem de encontrar uma maneira de selecionar, desconhecendo-as, as obras que mais lhe convêm, é sem dúvida melhor entrar numa obra ignorando-se o que dela disseram, e deixar que ela cause, numa relação travada entre autor e leitor, a sua impressão. Depois, a crítica, que será melhor compreendida, e talvez estimulará leitura adicional. Ocorre, porém, que não é possível, e nem conveniente fazê-lo sempre, uma vez que, antes de tudo, é preciso definir o que ler. Então é preciso lidar com a sensação desagradável de, durante a leitura, pedir que se afastem da mente os julgamentos já conhecidos que ficarão insistindo em aparecer.