Relacionamentos ideais

Apenas pela obra, seria impossível imaginar quão afortunado foi Cioran em seu relacionamento com Simone Boué. Uma relação de uma vida, afetuosa, estável e profunda, com uma pessoa que compartilhava de interesses semelhantes, não se incomodava em levar uma vida discreta, modesta, e que, sobretudo, com sua presença, tornava-lhe os dias melhores, a vida melhor. Machado de Assis também pôde desfrutar um relacionamento semelhante, calcado no afeto, na comunhão de interesses e na admiração mútua. Ora, se algo há de certo é que um vínculo desta natureza é raríssimo, absolutamente anormal. É quase um milagre que duas almas assim consigam se topar no mundo, consigam se conhecer e tenham a oportunidade de descobrir o grau de afinidade que possuem. Isso, sim, é uma experiência única, especialíssima, da qual ficam privados a imensa maioria dos mortais.

É injustificável a razão apontar o exemplo

É injustificável a razão apontar o exemplo, saber positivamente invejá-lo, reconhecer o desejo de reproduzi-lo, e, ainda assim, nada fazer para alcançá-lo, desistindo antes de tentar. Ora, se há algo certo é que o mérito frequentemente é imperceptível para aquele que o possui; isto é, o sujeito o cultiva, o aprimora, perseverando enquanto crê sinceramente não estar fazendo nada de mais. Mas o principal é o seguinte: este mesmo sujeito sabe não possuir o mérito supremo, conhece exemplos melhores que o seu. Assim, pode ser humilde e avançar com tranquilidade e despretensão. Se quisesse tudo logo de cara, acabaria de mãos vazias; mas, com a disposição adequada, acaba criando algo de valor. E assim o exemplo é duplamente útil: para servir de modelo, e para demonstrar que é sobretudo estúpida essa coisa de querer ser sempre o melhor.

Às vezes, o meio pode ser deveras impeditivo

Às vezes, o meio pode ser deveras impeditivo. E, portanto, tem fundamento a sensação de estar-se preso nele. Nestes casos, a vontade sincera não é suficiente para transformá-lo: o hábito, sobretudo, cristalizou uma estrutura complexa e invencível. Invencível, desde que se queira fazer parte dela, desde que se queira usufruir de algo dela ou, simplesmente, não se esteja disposto ao constrangimento de romper com ela. Porque esta é a verdade: é sempre possível proceder com esta última opção. E, caso a evolução seja prioridade, não há alternativa senão fazê-lo — para descobrir, depois do ato corajoso, que o tal constrangimento era algo bem ordinário.

Há, e há mesmo, pessoas que praticamente…

Há, e há mesmo, pessoas que praticamente não se vexariam caso soubessem que viveram por um longo período sendo observadas. Isso contraria aquele velho ditado que, embora falso, expressa fielmente um tanto do senso comum. Mas é preciso notá-lo, e proceder com o exame de consciência devido. Já disseram que o requisito para a santidade não é mais do que o desejo de alcançá-la. E, mesmo assim, não há dúvida de que seja para poucos. Porém, há um mínimo obrigatório, sem o qual o espírito não pode senão sucumbir. É evidente. Os exemplos estão aí aos montes e provam que nada é preciso para segui-los: qualquer um, por mais pobres qualidades que possua, não pode se permitir abrir mão deste mínimo — e, portanto, tem de desejar tornar-se um daqueles homens. Sem isso, todo o resto não tem o menor valor.