Cioran, em entrevista a Michael Jakob…

Cioran, em entrevista a Michael Jakob:

M. J. : Aviez-vous décidé avant votre arrivée en France de ne pas travailler dans ce pays non plus ?

C. : Oui, c’est d’une façon ultra-lucide que j’ai compris qu’il faut accepter n’importe quelle humiliation ou souffrance pour se refuser à exercer un métier, à faire des choses qu’on n’aime pas et qu’on ne peut pas aimer, à exercer tout travail impersonnel. Seul j’aurais accepté un travail physique. J’aurais accepté de balayer les rues, n’importe quoi, mais pas d’écrire, de faire du journalisme ! Il fallait tout faire pour ne pas gagner sa vie. Pour être libre il faut supporter n’importe quelle humiliation et c’était presque le programme de ma vie.

Liberdade e humilhação! Talvez não haja palavras tão próximas. Por tal resposta, vê-se claramente o sentimento que pulsa num escritor verdadeiro. E este, queira ou não, não fará muito além de carregar uma vida que, para os outros, seria impensável. Não existe essa coisa de reconhecimento nas letras. O sujeito dedica a vida à construção de uma obra, financeiramente se torna uma subpessoa, persevera contra tudo, renuncia a todo o resto — e, ainda assim, tem de torcer para que permaneça na paz do anonimato, para que não seja jamais lido. Quando não dá essa sorte, é invejado pelos pares e insultado pelo primeiro imbecil. No fim de tudo, porém, vale a pena, porque o escritor que o aceita, em verdade, opta por uma vida autêntica, e pode se orgulhar de tê-la sustentado sem se trair.

É mesmo uma maravilha que Cioran…

É mesmo uma maravilha que Cioran tenha-se mudado para Paris, tenha deliberado viver sem jamais exercer uma profissão, e tenha conseguido! Só de pensar neste sucesso, as ideias vêm… É curioso: parece que algo sempre ocorre em socorro de toda decisão radical desse tipo. Ao menos, é essa a sensação que parece brotar da leitura de inúmeras biografias. Alguém certamente objetará: “Esses, naturalmente, são os que sobreviveram para contar história”. Mas há muitos! Vão aos extremos da angústia e, quando sentem a circunstância insuportável, quando preferem morrer a prolongá-la, assumem o risco, deliberam o impossível, se comprometem a jamais ceder. E, por fim, as coisas acontecem. Ah, ideias!…

A injustiça é uma oportunidade

A injustiça é uma oportunidade. Quando ocorre, há uma gama de reações possíveis. As mais comuns são as mais naturais, e variam da tristeza, do desalento, à indignação. São manifestações compreensíveis, porém irrefletidas. Não impressionam, nem engrandecem. A injustiça, porém, enseja o crescimento pessoal, enseja não somente o não se deixar afetar por ela, o dominá-la, mas também o exercício da mais autêntica compaixão. Nestes momentos, é possível elevar-se acima da natureza, é possível ser grande e perdoar. E, realmente, poucas imagens marcam tanto quanto aquela do injustiçado que, maduro e compassivo, superou a injustiça sem guardar rancor.

A arte da vida é fazer dela conscientemente…

É preciso repetir ao infinito: a arte da vida é fazer dela conscientemente um processo transformativo no qual o sujeito se converte naquilo que tenciona ser. Para tanto, é necessário, primeiro, visualizar, depois, deliberar e, por fim, manter-se fiel ao plano de ação. É claro que jamais haverá uma execução perfeita, e o natural é que tudo contribua para que o plano não se realize. O natural é que, após assumido o voto, brotem obstáculos inumeráveis, manifestados de contínuo de onde jamais se esperou. E o natural é que muitas vezes se tropece, se caia, se traia aquele desígnio inicial. Mas é precisamente diante das dificuldades que ele se realiza, é precisamente em carregá-lo a despeito de tudo e, ainda que ciente das falhas e dificuldades, em não desistir.