É atribuída a Churchill a famosa afirmação…

É atribuída a Churchill a famosa afirmação de que o sucesso é pular de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo. É uma frase bonita e profunda; em certa medida, até verdadeira, tal como aquela outra, segundo a qual para ter sucesso, basta não desistir. Ocorre, porém, o seguinte: o fracasso é uma experiência fundamental e engrandecedora; lidar com ele repetidas vezes transforma o caráter, amadurece. Mas a assimilação desta, como de outras experiências, é um ato consciente: é preciso deixar-se transformar por ela, e passar a agir em conformidade com a transformação. Assim, a experiência adquire sentido, torna-se útil, e cada fracasso fica para trás como um degrau de uma escada. Nem todos, infelizmente, incorporam-na assim. Há quem não aprenda com os fracassos, cuja vida se resuma a um ciclo em que os mesmos erros são seguidos das mesmas consequências, numa repetição degradante, que vai destruindo o que há em redor. No lugar da perseverança, tem-se a teimosia, e o resultado é muito triste de se ver…

É curioso notar como, às vezes, é muito sutil…

É curioso notar como, às vezes, é muito sutil a diferença entre a técnica bem ou mal empregada, entre o resultado estimulante e o resultado tedioso. Em Corpo vivo, Adonias Filho intercala planos narrativos, como que desenvolvendo a história, aos poucos, no passado e no presente. À medida que o faz, vai apresentando novos personagens. O tempo inteiro, cria expectativa para uma apresentação, ou para um acontecimento, e se sacia alguma curiosidade, no mesmo ato cria uma nova, e assim vai por toda a narrativa sustentando um interesse que não cessa. Além disso, emprega o padrão estético, até visual, decorrente destas intercalações: a narrativa presente é seguida das aspas que desvelam o passado, num ritmo como que hipnotizante, o qual, se aventurado por escritores menos hábeis, resulta numa indescritível porcaria. Esse é o milagre do grande escritor: com o seu toque de mestre, torna interessante aquilo que enfastia. Imitá-lo é sempre perigoso; mas apreciá-lo, ah!, isso todos nós temos o privilégio de poder fazer.

Corpo vivo, de Adonias Filho

Se Adonias Filho tivesse publicado este pequeno romance em qualquer outra língua, que não o português, e em qualquer outro país, que não o Brasil, teria o seu nome aventado para receber as maiores honrarias literárias do planeta. Sendo brasileiro, é claro que isso não ocorreu. Tanto faz… Este livro, no entanto, tem as peculiaridades que caracterizam a obra-prima. E torna interessante mesmo aquela temática antiga, trabalhada tão artificial e infelizmente por autores do passado: aqui, desaparece a natural antipatia para com ela. De resto, basta dizer o seguinte: pela escrita excelente, pela técnica narrativa estimulante, pela intensidade ímpar da história e pela realidade dos personagens, este é um dos melhores romances que a literatura brasileira já produziu.

Diz Stefan Zweig, em sua Autobiografia…

Diz Stefan Zweig, em sua Autobiografia:

Tão simples como a vida dos pintores era a dos poetas, de quem logo me tornei íntimo. Em geral, tinham pequenos cargos públicos em que havia pouco trabalho positivo; o grande respeito pela realização intelectual, que na França se estendia dos postos mais baixos até os mais elevados, havia muitos anos produzira o método inteligente de dar sinecuras insignificantes a poetas e escritores que não tiravam altos rendimentos do seu trabalho; eram nomeados, por exemplo, bibliotecários no Ministério da Marinha ou no Senado. Isso garantia um pequeno salário e só dava pouco trabalho, pois os senadores muito raramente pediam um livro, e assim o feliz proprietário de uma dessas prebendas podia escrever seus versos durante o expediente com tranquilidade e conforto no velho palácio do Senado, tendo o Jardim de Luxemburgo diante da janela, sem jamais se preocupar com honorários. E essa modesta garantia lhes bastava.

Ora, mas é claro que lhes bastava! Oh, Deus! É preciso ornar tal relato com as devidas exclamações! O que tais poetas tiveram foi, sem dúvida, uma condição paradisíaca. E é inevitável cotejá-lo com toda a angústia espraiada pela literatura brasileira, toda a angústia, a bem dizer, não motivada senão pela falta de uns tostões garantidos no fim do mês, a qual, valendo-se da natureza demoníaca do dinheiro, desencadeia um processo inacreditável de constrangimentos, obstáculos e perturbações, que acaba por meter o mais sereno, o mais modesto dos seres neste atroz desconsolo, diante do qual todo o esforço prévio, todo o valor cultivado, toda a pureza de intenção parece se eclipsar. É o óbvio: frequentemente, a diferença entre a serenidade e o desespero não é mais do que uma destas insignificantes “prebendas”.