Seria sem dúvida mais proveitoso, em vez de se falar em “estilos” e “escolas”, classificar os escritores por tipos de motivação artística. Ocorre que, coisa curiosa, há muitos casos em que, pela obra, mal se consegue delinear o que motivou a escrever. Ou, antes, tal classificação evidenciaria que motivações trivialíssimas foram responsáveis pelo grosso daquilo que se escreveu. Em contrapartida, porém, não haveria dúvida de que um Proust pertence a uma família específica de escritores. E que Antero, Vigny, Leopardi, Unamuno, são todos, em seus países, representativos de uma semelhante motivação. Não haveria dificuldade em demonstrar que estes últimos, pela forma artística, não quiseram senão dar a expressão mais requintada às questões que lhes pareceram fundamentais. Mas na literatura, infelizmente, nem todos são movidos por motivações tão simples e de tão clara significação.
A depender de onde se nasce…
A depender de onde se nasce, de onde se cresce, não é difícil que, em poucos anos de vida adulta, já se alcance uma sensação de saturação completa, de total desinteresse e não identificação com tudo quanto o meio tem para oferecer. E, então, é partir. E partir sem reflexão demasiada, porque esta tenderá a desestimular a resolução. Aqui, aparece o problema das condições. Mas não há quem explique como é possível que, mesmo quando estas parecem as mais precárias, a decisão correta triunfa, e em pouco tempo já não há nada que se arrepender. A partir do momento em que a experiência parece absorvida e superada, em que se aprendeu o que dela se podia aprender e ela se tornou indesejável, é abandoná-la para sempre; do contrário, ela se enraizará prejudicando, corrompendo, e já não possuindo nada de novo para ensinar.
É engraçado notar como são raras na prática
É engraçado notar como são raras na prática, e frequentíssimas no pensamento, as histórias de redenção. Isto é, o espírito inclinado ao sonho tende a imaginar semelhante arco para a sua vida, sem refletir se ele seria desejável ou, antes, se ele tem efeito prático benéfico. Porque o sonho, se não se realiza, ainda assim influi. Toda uma vida à espera deste grande momento! E, simultaneamente, toda uma vida perdida em sonhar… Há melhores enredos; mais modestos. Mas tal ambiguidade evidencia a complexidade da psicologia humana. A visualização é necessária, direciona o ato criador. Mas é preciso radicá-lo e radicar-se enquanto se vive, não se permitindo perder-se no ar. Resta, então, a realidade diária, sempre menos grandiosa do que se gostaria, mas na qual se pode escrever um enredo real.
Têm de ser gratos aqueles que desfrutam…
Têm de ser gratos aqueles que desfrutam de influências positivas que, quando não querem, ou não esperam, os atraem, lhes melhoram os dias e lhes causam um inesperado sentimento bom. Em contrapartida, nunca é excessivo o cuidado que devem ter aqueles que têm de lidar com influências opostas. Ceder a elas é, frequentemente, permitir-se arrastar a um abismo onde, num momento de descontrole, pode-se errar. Nunca se está tão distante da angústia quanto se imagina… E, afinal, quando se conhece com exatidão o fundo das coisas, pesa o fardo de que o desespero experimentado, em verdade, é resultado menos de influências do que de decisões.