Pär Lagerkvist é mesmo um grande escritor…

Pär Lagerkvist é mesmo um grande escritor, que conseguiu transferir para as letras o essencial de sua experiência angustiante; e o fez de tal maneira que, já no contato inicial, o leitor se percebe diante de um espírito incomum. É engraçado: o sujeito que avança no pensamento sem permitir que ele descole da experiência, e que avança sentindo-o, tentando integrá-lo, não querendo valer-se dele senão para obter respostas para as questões que julga fundamentais, sempre acaba penetrando o terreno da religião. E aí que, de duas, uma: ou é do tipo afortunado que obtém respostas, ou é, como Lagerkvist, do tipo que não consegue obtê-las, nem se livrar das perguntas, e que logo se encontra dominado por uma invencível obsessão. Este último tipo parece produzir escritores mais fecundos; e não somente escritores: produz homens que, pelo esforço de uma vida inteira, acabam por justificá-la, justificando também a angústia interminável que correrá sempre de geração em geração.

O investidor, não importa o quanto domine…

O investidor, não importa o quanto domine a literatura financeira, só entenderá deveras o que é uma crise quando vivê-la; quando, tendo os recursos inteiramente alocados em ativos financeiros, vir a crise estourar. Antes disso, o mais que souber será pouca coisa. Depois disso, pode enfim dizer que se batizou como investidor. E assim ocorre em inúmeras outras ocasiões. Às vezes, a natureza de uma experiência só pode ser assimilada quando o sangue ferve e o coração dispara: é somente a sofrendo que se pode captar o seu poder.

O sujeito gosta de café. Por anos…

O sujeito gosta de café. Por anos, por uma vida inteira, toma-o todas as manhãs e sente prazer. Agrada-o o golpe quente na língua, o sabor que permanece na boca, o estímulo mental evidente, do qual depende para trabalhar. Crê-se apreciador da bebida, como crê nos efeitos benéficos reais que ela traz ao seu cotidiano. Em suma: o café o deixa feliz. Então chega o dia em que prova um café de qualidade superior, que lhe deixa o paladar extasiado. Quando retorna ao velho café que bebia, percebe claramente tratar-se de lixo. Investiga a respeito e descobre tratar-se de lixo deveras, no qual o café real, mas em grãos de pior qualidade, é misturado às impurezas mais variadas, entre elas algumas inomináveis, e o todo é torrado além da conta para que lhe sejam mascarados os defeitos. Deste dia em diante, o mesmo café, a bebida tão apreciada que lhe deu prazer por toda a vida, nunca mais o satisfará. E a filosofia, como o faz sempre, escancara a pergunta: vale a pena o conhecimento?

Se releio algumas dezenas de páginas…

É inacreditável! Se releio algumas dezenas de páginas escritas por mim mesmo, em verso ou em prosa, não há uma única vez que não encontre, gritando, algum deslize, que parece-me como grafado em letras garrafais. Todas as vezes, sempre, cem por cento dos casos! Daí que, diante do absurdo, diante do fato incontestável de estar ali o lapso impossível, tenho de conjeturar que seres desconhecidos estão a vasculhar e alterar-me os escritos, mesmo depois de revisados, porque seguramente tais erros não sou capaz de cometer. E não adianta tentar consolar-me com tolas ideias de que são muitas as variáveis, que o enquadramento do texto na tela porventura me prejudique, que é o diabo essa coisa de digitar, deletar, selecionar e sobrescrever: há erros injustificáveis, indignos de perdão. Mas, graças a Deus, não posso afligir-me nem irritar-me demasiado: lembro-me sempre de Machado, redentor dos escritores brasileiros passados e futuros, que, com aquele magnífico “lhe cegara o juízo”, está eternamente disponível para me socorrer.