Cioran recomendou, corretamente, que basta ao sujeito que sofre um acesso de raiva em relação a alguém pegar um papel, uma caneta, e registrar algumas dezenas de insultos: “Ele é um porco, um crápula, um bandido, um animal…”. A raiva passa. Se não passa, diminui drasticamente, e o registro escrito provoca uma espécie de libertação. Ora, o que se passa com a raiva, também se passa com a angústia. Mas são procedimentos diferentes. A raiva vai-se com o jato frenético e vertiginoso, vai-se no próprio modo de escrever. Já a angústia se dissipa, ao menos em parte, com a racionalização. Sempre se dá o mesmo: evocá-la como que a intensifica, atira a mente num processo penoso; contudo, pouco a pouco, com descrever o seu modo de operação, ela vai perdendo força, como se a compreensão a neutralizasse. No fim, tem-se um texto: está ela ali exposta, talvez muito desagradavelmente; mas efetivamente diminuiu.
Vulgarizou-se a noção de que um jornalista…
Vulgarizou-se a noção de que um jornalista, para provar-se competente num programa de entrevistas, tem de colocar o entrevistado numa saia justa, tem de confrontá-lo, desmascará-lo, evidenciar nele os defeitos e contradições. O jornalista, portanto, se é competente, tem de exercer com maestria o papel de acusador. Se, por exemplo, pensa um pouco diferente, e acredita que sua função não é senão tentar extrair o melhor, o mais interessante do entrevistado, deixando-se ocultar na temática que deve sobressair, tem de renascer em outros tempos, pois não há espaço para tal postura no jornalismo atual. Um programa de entrevistas existe para estimular embates, interrupções e perguntas capciosas. E o entrevistado, para que o público o possa absolver ou condenar.
De início, é descobrir-se agente…
De início, é descobrir-se agente, é levar ao limite as próprias capacidades, até que se possa senti-las esgotadas, insuficientes. Então, é reconhecer a impossibilidade de apoiar-se tão somente nelas, e a necessidade de amparo maior. Tal amparo é possível! Mas o homem, para percebê-lo, costuma ter de, primeiro, fracassar. É quando o mundo desaba, é quando o esforço parece inútil e o anseio impossível que o homem se capacita a perceber quão erroneamente é capaz de julgar.
São sempre melhores as linhas daquele…
São sempre melhores as linhas daquele que não se deixa dominar pelo sentimento de autoimportância, ainda que este não tenha sido transmutado em humildade. Desprezo, escárnio, o que seja: tudo é válido para anulá-lo, e toda manifestação que o contraria agrada mais do que a soberba que dele pode derivar. O leitor, ainda que não seja filósofo, sempre terá a noção inata da importância relativa de um único homem perante a criação. Portanto, o vício, mesmo que não captado conscientemente, produzirá a impressão decorrente de sua natureza viciosa. Simples assim.