É dificílima a arte de proteger as boas relações…

Travá-las, nem tanto; mas é dificílima a arte de proteger as boas relações. Em verdade, a despeito de evidentemente haver níveis diferentes, não é preciso quase nada para que se estabeleçam. Um pouco de boa vontade, um pouco de cortesia, e elas se dão. Preservá-las neste nível saudável, contudo, exige sabedoria; especialmente para com aquelas que se mostram mais promissoras, mais autênticas e mais benéficas. A distância as aniquila, a proximidade também. Sem equilíbrio, entra em cena o assunto vulgar; e aí já não se pode evitar o pior. Antes vê-las definhar pela ausência, preservando-lhes a memória, do que testemunhar a infelicidade da deterioração!

O escândalo é, sobretudo, triste

O escândalo é, sobretudo, triste. E muito mais penosa do que aquilo que o motiva é a miséria generalizada que costuma escancarar. Espraia-se, extrapola os próprios limites; estimula, traz à tona o que há de mais desprezível no ser humano, desde a repugnante maledicência àquela vergonhosa schadenfreude. Aquele que observa o fenômeno acaba com a certeza de viver entre porcos. As línguas assanhadas, o tom presumido, o prazer demoníaco de acusar: tudo isso provoca um sentimento de repulsa total.

Quando Nabokov discorre sobre suas borboletas…

Quando Nabokov discorre sobre suas borboletas, elas se tornam interessantes mesmo para aquele que as despreza. Isso porque Nabokov, para além de ser um exímio escritor, quando discorre sobre borboletas, discorre sobre algo que o absorve, discorre entusiasticamente, fazendo com que ao menos parte deste grande entusiasmo se irradie para o leitor. Com tal exemplo, fica fácil perceber que a literatura possibilita leituras improváveis, imprevistas, até impossíveis, desde que o autor seja autêntico, e trate de assuntos que realmente o interessam — agindo como um anfitrião que, num ato de boa-fé, expõe ao visitante aquilo que de mais valioso julga possuir. Talvez o efeito mais evidente de um grande escritor seja justamente este: ele estimula, ainda que à força, o interesse no leitor.

É tão libertador quanto impopular rejeitar…

É tão libertador quanto impopular rejeitar todos os rótulos, não se aferrar a nada, permitir-se dizer sempre aquilo que se quer. Filosofar sem o título de filósofo, fazer versos sem o título de poeta, escrever sem angariar nunca o título de escritor. Assim é possível fazer tudo isso de maneira autêntica, isto é, empregando meios de expressão autênticos na tentativa de responder os problemas que a experiência estipulou. Título nenhum dará gratificação semelhante a esta, de saber-se, de sentir-se a empregar o tempo em questões de importância pessoal. E se nada resultar do esforço, restará ao menos a sensação reconfortante de que a atenção foi direcionada às questões que a vida prescreveu.