Muito impressiona nas pessoas humildes…

Muito impressiona nas pessoas humildes esta habilidade, decerto forjada pela necessidade, de simplesmente viver o presente, deixando que o mais suceda como tiver de suceder. Parecem saber que de nada adianta se preocupar, e não ser inteligente fritar os nervos por problemas hipotéticos, às vezes infundados e às vezes sem solução. Vivem o agora, desfrutando ou sofrendo, mas experimentando aquilo que efetivamente é. Não deixa de ser irônico ter de estudar pilhas e pilhas de livros para chegar a essa solução tão natural.

O computador foi uma invenção magnífica

O computador foi uma invenção magnífica; o telefone, não. Este matou as cartas, instrumento muito mais útil, muito mais refinado de comunicação. As cartas exigiam que se refletisse naquilo que se ia comunicar ao destinatário; o telefone, tornando a comunicação instantânea, tornou-a também irrefletida, e afinal vulgarizou completamente as relações. Como má invenção que foi, evoluiu para outra pior: o celular. Deste cidadão, que fique desde já proclamado que quaisquer qualidades que porventura possua são nada perante os malefícios terríveis que realizou. Já é preciso estabelecer uma nova definição para o ser humano que malgasta horas de seu dia com a cara enfiada nesse bicho, não apenas queimando o tempo, mas danificando continuamente as suas funções cerebrais. No futuro, não há dúvida de que esse entorpecente será exibido ao lado dos instrumento de lobotomia nos museus.

O maior benefício da civilização ao homem…

O maior benefício da civilização ao homem talvez tenha sido possibilitar um planejamento muito mais abrangente e muito mais preciso, tornando possível não somente a prevenção contra adversidades, mas também o projetar-se no futuro com alguma segurança, calculando condições a serem vivenciadas a depender do que fizer. Projetar-se, prevenir-se: tais verbos se lhe entranharam na psique, tomando boa parte do espaço antes ocupado por outros de consequência imediata. Já se vê aonde tudo isso conduz. O homem de hoje vive, em medida muito maior, o futuro; e vive menos o presente, quer por menor necessidade, quer por menor disposição. E aqui, evidentemente, reside um problema, que faz com que seja dificílimo compreender o sentido daquilo que os sábios indianos estão há séculos a repetir.

Apesar de já terem-no dito muitas e muitas vezes…

Apesar de já terem-no dito muitas e muitas vezes, é preciso repisar a mesma verdade, sabendo que ela continuará ignorada pela maioria: a intuição precede, e independe de sua expressão verbal. É preciso dizê-lo sempre porque sempre se encontram exemplos daquele que sabe, mas não consegue explicar o que sabe; e não saber explicá-lo, ou não conseguir explicá-lo de forma satisfatória, não quer dizer que não saiba. Em verdade, muitas vezes o problema está menos na explicação do que no interlocutor. Mas é indiferente: percebe-o apenas aquele que, ao menos uma vez na vida, obteve uma compreensão súbita de qualquer coisa, uma compreensão instantânea e confiável, que permitiu julgar e decidir com acerto, mas cujas bases escaparam à racionalização. Quem nunca a experimentou, ou não reparou experimentá-la, faz bem tendo ciência desta possibilidade, para que não erre tomando o conhecimento pela capacidade de explicar.