“Sou filósofo; faço filosofia”

“Sou filósofo; faço filosofia” — diz o construtor de castelos imaginários, tal como diz aquele que brinca de criar, ordenar e adulterar palavras: “Sou escritor; faço literatura”. E embora ambos, talvez, sintam-se justificados pelo atributo que o ofício lhes confere, a verdade é que nada daquilo que produzem possui sentido existencial. Notá-lo parece bobagem, mas os anos passam e a vida pressiona por uma verdadeira justificação. O filósofo, o escritor, não podem encontrá-la no passado, por terem-no dedicado a motivações exteriores, descoladas de si. Então se arrependem; porventura ainda com tempo para redimi-lo, mas já tendo deixado a influência e o exemplo prejudiciais.

Algumas ideias, é preciso tê-las para depois…

Algumas ideias, é preciso tê-las para depois entendê-las, vivê-las para, enfim, saber de onde vêm. Por isso, se o primeiro contato com elas se dá pelo papel, haverá desentendimento. Quando, porém, dá-se o contrário, é curioso notar que uma ideia, mesmo que já concebida, já experimentada em primeira pessoa, pode ficar como oculta na mente, sem manifestar-se, e como se ainda não tivesse sido devidamente assimilada. Ocorre, então, o contato com sua exposição escrita, precisa e detalhada. A mente se ilumina; capta o sentido e a motivação. E percebe que, sem a experiência prévia, jamais poderia compreendê-la.

Se fosse estabelecida uma escala com os níveis…

Se fosse estabelecida uma escala com os níveis de compreensão literária, ou de inteligência linguística, seguramente haveria um nível que a maioria das pessoas razoavelmente inteligentes, com alto QI e boa capacidade argumentativa, não alcançariam, e é o nível que capacita a identificar uma expressão concebida esteticamente, uma expressão que se justifica pelo efeito que produz. Realmente, quantos o não alcançam! A maioria dos “inteligentes” se recusa a não se aferrar ao sentido das frases, e portanto parecem desconhecer haver mais do que a semântica, a lógica e as figuras de linguagem mais óbvias. São aqueles incapazes de apreciar um autor como Cioran, ou como Nietzsche, ou até certos trechos de Pessoa, porque “não concordam” com aquilo que leem. O curioso é que, embora seja instintivo taxá-los de imaturos, tal nível de compreensão parece realmente difícil de ser alcançado por aqueles que não exercem o ofício de escrever. Exercendo-o, tudo se torna muito simples: basta propor-se, ainda que por brincadeira, talhar algumas frases impactantes; e então ficará evidente que o exagero, e mesmo a adulteração do pensamento, às vezes, produzem um resultado muito superior.

O homem moderno pode desprezar como bobagens…

O homem moderno pode desprezar como bobagens os conselhos dos advogados das longas caminhadas, — numerosos e que congregam figuras desde os antigos até um Nietzsche ou um Taleb; — mas a verdade é que a vida se transforma sensivelmente, e para melhor, quando se cultiva o hábito de caminhar. Decerto, nem sempre se pode caminhar como aqueles homens, longa e despreocupadamente, fazendo da caminhada uma espécie de meditação em movimento, colocando em prática o solvitur ambulando; contudo, o homem que substitua o trânsito, o transporte público e os automóveis pela caminhada, deixando que esta, e os efeitos desta, participem de sua rotina, em vez e no lugar do inevitável desgaste proporcionado por aqueles, testemunhará que sua vida tornou-se significativamente melhor. Poucas coisas são tão seguras como esta: mover-se com o próprio corpo, pelo próprio esforço, na velocidade natural, todos os dias, muda por completo a disposição com que se acorda pelas manhãs.