Ah, recordações!… É mesmo algo indescritível…

Ah, recordações!… É mesmo algo indescritível brincar de revivê-las, experimentando mentalmente aquilo que não se pôde viver. Dizer o que não se teve coragem, estender um momento que o acaso interrompeu… E então ficar a refletir no que poderia ter sucedido. É verdade: o mais das vezes, nada extraordinário, e o exercício não passa de uma brincadeira imaginativa. Extrai-se dele algum prazer; mas, afinal, conclui-se ter ocorrido o que havia de ocorrer.

Muito impressiona nas pessoas humildes…

Muito impressiona nas pessoas humildes esta habilidade, decerto forjada pela necessidade, de simplesmente viver o presente, deixando que o mais suceda como tiver de suceder. Parecem saber que de nada adianta se preocupar, e não ser inteligente fritar os nervos por problemas hipotéticos, às vezes infundados e às vezes sem solução. Vivem o agora, desfrutando ou sofrendo, mas experimentando aquilo que efetivamente é. Não deixa de ser irônico ter de estudar pilhas e pilhas de livros para chegar a essa solução tão natural.

O computador foi uma invenção magnífica

O computador foi uma invenção magnífica; o telefone, não. Este matou as cartas, instrumento muito mais útil, muito mais refinado de comunicação. As cartas exigiam que se refletisse naquilo que se ia comunicar ao destinatário; o telefone, tornando a comunicação instantânea, tornou-a também irrefletida, e afinal vulgarizou completamente as relações. Como má invenção que foi, evoluiu para outra pior: o celular. Deste cidadão, que fique desde já proclamado que quaisquer qualidades que porventura possua são nada perante os malefícios terríveis que realizou. Já é preciso estabelecer uma nova definição para o ser humano que malgasta horas de seu dia com a cara enfiada nesse bicho, não apenas queimando o tempo, mas danificando continuamente as suas funções cerebrais. No futuro, não há dúvida de que esse entorpecente será exibido ao lado dos instrumento de lobotomia nos museus.

O maior benefício da civilização ao homem…

O maior benefício da civilização ao homem talvez tenha sido possibilitar um planejamento muito mais abrangente e muito mais preciso, tornando possível não somente a prevenção contra adversidades, mas também o projetar-se no futuro com alguma segurança, calculando condições a serem vivenciadas a depender do que fizer. Projetar-se, prevenir-se: tais verbos se lhe entranharam na psique, tomando boa parte do espaço antes ocupado por outros de consequência imediata. Já se vê aonde tudo isso conduz. O homem de hoje vive, em medida muito maior, o futuro; e vive menos o presente, quer por menor necessidade, quer por menor disposição. E aqui, evidentemente, reside um problema, que faz com que seja dificílimo compreender o sentido daquilo que os sábios indianos estão há séculos a repetir.