Há acadêmicos que não consideram…

Há acadêmicos que não consideram Farias Brito filósofo; há literatos que consideram Lima Barreto escritor menor. E, no entanto, é possível ler a obra de ambos com lágrimas nos olhos. Isolados os textos, tornados objetos de análise técnico-estrutural, desaparece grande parte de sua significação. Devia ser um tanto óbvio, mas há sempre aqueles que ignoram a dimensão que a pessoa do autor pode dar à sua obra. Talvez seja consequência da modernidade. E o resultado é muito simples: é ignorá-lo e não haverá capacidade de discernir o sincero do dissimulado, a autenticidade da afetação; o texto não passará de um amontoado de palavras; a profundidade do discurso nunca se poderá captar. Não haverá diferença, afinal, entre ler uma história em quadrinhos e ler um Osamu Dazai.

A melhor ferramenta de autopromoção literária…

Muito frequentemente, a melhor ferramenta de autopromoção literária é a crítica. E muito frequentemente, tal crítica acaba descaindo em maledicência simples. Os exemplos são infinitos. O autor, às vezes futuro autor, começa a carreira contrapondo-se ao modelo que desgosta. Censura, reprova, enumera defeitos, desabona. O alvo, geralmente morto, não o responde. E fica por isso mesmo. Se, por um lado, o crítico acaba amadurecendo as próprias ideias com a crítica; por outro, não evita que dela brote um sentimento ruim. Tempo depois, há de pensar: aquilo era mesmo necessário? E ocorre que, em literatura, os estilos, os temas, as possibilidades são tão variados que é muito fácil não gostar de algo, quando confrontado com aquela outra intensíssima identificação. Justifica, pois, que um escritor se dedique a atacar outro escritor? Sem dúvida, mas apenas quando a mera preferência é suplantada pelo sentimento de traição à vocação.

Algo acontece na primeira transgressão

Todo adulto sabe que, psicologicamente, algo acontece na primeira transgressão. E quando se percebe, paralelamente à importância de segui-las, a possibilidade de transgredir todas as regras, o impacto é definitivo. Não somente, como se trata de uma experiência fundamental. Tal possibilidade é, afinal, a da recusa, a da escolha, sem a qual não há consciência no ato e, portanto, a conformidade se torna ausente de mérito e sentido. A uma criança, é claro, acaso não seja prudente ensiná-lo; mas o adulto que desconhece esta verdade simplesmente não amadureceu.

O contrassenso de não desejar experiências…

O contrassenso de não desejar experiências traumáticas está na realidade de que tais experiências são frequentemente as mais marcantes, mais proveitosas, das quais se pode extrair os mais abundantes e duradouros frutos. Não é raro que uma vida fecunda seja construída em torno delas; uma vida admirável, que sabe sublimar o negativo e criar dele algo de valor. Por que motivo, então, não querê-las? Pelo motivo que, naturalmente, nos inclina a crer que uma vida agradável é superior a uma vida proveitosa. Que engano! E, no fim das contas, não é difícil perceber quão mais satisfatório é poder olhar para trás e admirar o quanto se fez e o quanto se conseguiu transformar.