Ainda que o autor provavelmente nunca se satisfaça de todo, é inegável que, ao finalizar uma obra, se recorda o seu início, quando não havia muito mais do que intenção e expectativa, tem de concluir que alguma coisa especial aconteceu. Às vezes, é notar o curso inimaginável tomado pela criação, e consequentemente a realização inesperada, para satisfazer-se da certeza de ter concretizado algo novo, de ter, enfim, honrado a tarefa a que se propôs. Talvez não seja muita coisa, e talvez esta satisfação não predomine sobre o desagrado com o produto final; mas um autor só se realiza criando, só se aprimora por sobre aquilo que já criou. Uma obra realizada, portanto, nunca será tão má que não lhe conceda ao menos uma lição.
Se penso nos sannyasis da Índia…
Se penso nos sannyasis da Índia, naturalmente não renunciei a nada, levo uma vida de prazeres e conforto, e não lidei senão com obstáculos mínimos para exercer a minha vocação. Se, contudo, confronto-me o meio com aquilo que me tornei, se reflito no curso natural rejeitado, na vida adulta que se resumiu a deserções sucessivas, a um isolamento sempre crescente, a pequenas privações que se foram amontoando, ao abandono contínuo daquilo que era e de muito do que tendia a ser, vejo que não foi pouca coisa. Seguramente, não teria dificuldades em convencer um cidadão comum de minha loucura. E talvez eu acabe, como Lima Barreto, frequentando um hospício. Mas é certo que, tal como Lima Barreto não pôde, eu não poderia fazer algo diferente do que fiz.
Ainda que tenha “sucesso”…
Um escritor brasileiro, ainda que tenha “sucesso”, provavelmente nunca conseguirá, somando a receita auferida com a venda de todos os seus livros durante toda a sua vida, superar aquilo que ganha num ano o dentista mais vagabundo de São Paulo. Escrevo-o aos risos. Vou repetir: um escritor brasileiro, ainda que supere Machado de Assis em genialidade, ainda que supere Carpeaux em erudição e Mário Ferreira dos Santos em tempo de estudo, provavelmente não ganhará mais dinheiro com livros, em toda a sua vida, do que ganha num único ano um barbeiro que trabalha de chinelos, que se formou num curso de seis meses e exerce despreocupadamente a sua ocupação. Essa é a realidade, e escreva quem quiser.
Para entender o que se tornou o cinema…
Para entender o que se tornou o cinema, basta refletir: quem leria uma literatura escrita por múltiplas mãos? A resposta é muito simples: aquele que busca entretenimento. Numa história assim escrita, não há dúvida de que os mínimos detalhes seriam bem pensados: a história seria talvez um engenhoso quebra-cabeça, o enredo progrediria revelando “mistérios”; mas, tão certo como a manhã sucede a noite, a história careceria de autenticidade. E é exatamente por isso que, não importa quão evoluída e perfeita se torne, ninguém terá o menor interesse por uma história escrita pela inteligência artificial. A arte implica uma conexão entre duas e não mais do que duas almas; do contrário, ela não se realiza.