Algo acontece na primeira transgressão

Todo adulto sabe que, psicologicamente, algo acontece na primeira transgressão. E quando se percebe, paralelamente à importância de segui-las, a possibilidade de transgredir todas as regras, o impacto é definitivo. Não somente, como se trata de uma experiência fundamental. Tal possibilidade é, afinal, a da recusa, a da escolha, sem a qual não há consciência no ato e, portanto, a conformidade se torna ausente de mérito e sentido. A uma criança, é claro, acaso não seja prudente ensiná-lo; mas o adulto que desconhece esta verdade simplesmente não amadureceu.

O contrassenso de não desejar experiências…

O contrassenso de não desejar experiências traumáticas está na realidade de que tais experiências são frequentemente as mais marcantes, mais proveitosas, das quais se pode extrair os mais abundantes e duradouros frutos. Não é raro que uma vida fecunda seja construída em torno delas; uma vida admirável, que sabe sublimar o negativo e criar dele algo de valor. Por que motivo, então, não querê-las? Pelo motivo que, naturalmente, nos inclina a crer que uma vida agradável é superior a uma vida proveitosa. Que engano! E, no fim das contas, não é difícil perceber quão mais satisfatório é poder olhar para trás e admirar o quanto se fez e o quanto se conseguiu transformar.

Algumas das lições mais preciosas…

Algumas das lições mais preciosas que a vida pode oferecer são aquelas evidenciadas por um contraste para com expectativa comum. É, por exemplo, quando se descobre que a generosidade verdadeira nem sempre se dá por uma aparência generosa; ou, inversamente, que uma violência, um malefício enorme vive camuflado na melhor das disposições. Tais experiências ensinam um monte sobre a qualidade essencial das naturezas e das intenções. Com elas, aprende-se a admirar e a desprezar de maneira não convencional, mas de maneira mais digna, que valoriza aquilo que efetivamente tem valor.

Em verdade, a recomendação de assumir-se…

Em verdade, a recomendação de assumir-se, de definir o curso da própria vida e, através de escolhas conscientes, concretizar um plano deliberado, só serve para um tipo específico de personalidade, que possui uma predisposição não muito comum. Parece loucura notá-lo; afinal, quem é que não deseja viver a vida que escolheu? Contudo, assim são as coisas: há outro tipo de pessoas, mais comum, que não o deseja; e o que anseia é simplesmente corresponder a uma vida planejada pelos outros, ou melhor, pelo consenso — e a satisfação, para este tipo, é desfrutar de aceitação. Nada há que se lamentar ou criticar. Para ambos, há uma fórmula que conduz à satisfação sincera — e, portanto, a boa recomendação será sempre aquela que melhor se adaptar às necessidades individuais.