Os velórios ensinam que o sucesso morre antes da memória, e que, mesmo em vida, são muito diferentes os graus de satisfação que se pode obter. Num velório, diante da carne exaurida, revelam-se ainda vivas as marcas deixadas pelo falecido na mente de quem o conheceu. E se percebe, havendo velórios distintos, haver o cultivo, e o desfrute, de distintos bens. A morte apenas escancara o gratificante que houve, se duradouro ou perecível, se egoísta ou compartilhado, se as marcas deixadas foram boas ou foram más. O falecido, como diz o verso de Mallarmé, converte-se no que é; e é por esta forma final que se pode avaliar o sucesso e a validade da convergência simultânea de tudo aquilo que se passou a vida a colecionar.
O sucesso no mundo é mais dependente…
O sucesso no mundo é mais dependente de oportunidades do que de capacidades, porque estas são dependentes daquelas para se desenvolverem. E são as oportunidades que não somente abrem o caminho, mas ditam o maior ou menor número de obstáculos, facilitam ou travam a passagem. Em certa medida, é possível criá-las; mas não faltam exemplos de esforços baldados e capacidades desperdiçadas. Afinal, é fazer o melhor com aquilo que se consegue, e agradecer pelo mínimo que seja, mas que parece haver sempre, que deu azo à manifestação do valor.
Ao lado da exaltação batida…
Ao lado da exaltação batida, há na literatura, aqui e ali, exemplos mais sóbrios, mas muito mais reais do reconhecimento da influência efetiva, diária, e por vezes maravilhosa da natureza na vida do autor. Alguns poderiam estranhar que não sejam tão frequentes, e outros poderiam julgá-los tão idealistas quanto os primeiros; mas ocorre que, de um lado, é preciso experiência e olhos abertos para notá-lo, e, de outro, é admitir que são simplesmente reais. Às vezes, basta uma janela. E a paisagem, quando menos se espera, quando mais se precisa, invade a casa, invade o espírito, transforma o ânimo e dá outro rumo à situação. Lamentavelmente, há quem passe uma vida sem experimentá-lo; mas é preciso ter ciência de que tal é possível e, tendo-a, nada há de mais razoável do que o esforço por fazê-lo acontecer.
Um americano especialista em educação disse…
Um americano especialista em educação disse, há alguns meses, que uma boa formação já pode dispensar o estudo de idiomas, visto que a inteligência artificial já é capaz de fazer traduções instantâneas, e o tempo pode ser aplicado com maior proveito em outras disciplinas. Saber bem o inglês é suficiente, concluiu. Que dizer? Sobre os efeitos do estudo de um idioma na inteligência, já disseram muito; Napoleão Mendes de Almeida, em sua insuperável Gramática latina, argumenta em favor do latim. Para alguém que possui o inglês como língua materna, porém, talvez não haja nada mais relevante ao seu desenvolvimento intelectual do que aprender, desesperadamente, tão cedo como possível, um idioma sintaticamente mais complexo, e serve até o espanhol. Mas como convencer o especialista? Se ele não o percebe de imediato, talvez não haja solução. Sua visão tem de ser invertida: o homem do futuro, quanto mais facilidades usufruir, mais terá de se esforçar para não desbaratar capacidades que somente o esforço focado pode desenvolver.