Toda a miséria do homem parece remontar à sua incapacidade de apreender com segurança a veracidade de suas percepções. Mas, se é verdade que muitas vezes capta mal, outras tantas o faz espantosamente bem. Assim que afirmações feitas na juventude — “é isto o que farei da vida”; “pertenço a este lugar”… — podem vir a confirmar-se após décadas, após o indivíduo quase trocar de nome, provando a acuidade incrível daquelas antigas percepções. O problema, pois, é ser difícil separá-las, e portanto confiar naquilo que se sente; mas decerto causa menos arrependimento enganar-se confiando que menosprezar uma realíssima e prodigiosa percepção.
Causa inveja a memória daqueles que…
Causa inveja a memória daqueles que conseguem reconstruir mentalmente a infância, lembrando lances marcantes e acontecimentos vários com minúcias que seriam naturalmente ignoradas. E mais inveja a memória daqueles que, além do que já recordam sem esforço, esforçando-se relembram outro tanto a mais. Porque esta não é uma faculdade universal. E, ao que não a possui, ainda pior do que o vácuo, é a incerteza, isto é, a vaga lembrança de que algo ocorreu, mas sem qualquer possibilidade de certificação. Quer dizer: vem ao sujeito a ideia de ter dito, de ter pensado, de ter vivido algo, mas não consegue reconstruí-lo, não consegue sequer recordar o que precisamente disse, pensou ou viveu. Daí que pode vir-lhe em seguida esta outra ideia: se mesmo disse, pensou ou viveu o que julga tê-lo feito, então será real a ligação daquele fato longínquo com o presente; e esta, para além de inimaginável e extraordinária, pode não apenas dotar o destino de beleza, de sentido, mas afirmar uma realidade fundamental. No entanto, a memória não pode certificá-lo: a coincidência espantosa, assim, não pode assumir um valor superior ao de possibilidade. Um desperdício dificílimo de engolir!
Tão difícil quanto deixar que passem…
Tão difícil quanto deixar que passem as disposições negativas, os rompantes e estados de espírito perniciosos como se fossem alheios à nossa natureza, é seguir a recomendação de Lavelle e “ne pas laisser flétrir, à ne pas gaspiller toutes les bonnes dispositions qui paraissent en nous par éclairs, mais au contraire à les retenir, à les mettre en œuvre et à les faire fructifier”. Assenhorear-se de si mesmo não é senão decidir conscientemente aquilo que passa e aquilo que deve permanecer. Para fazê-lo é preciso aliar uma atenção plena a uma orientação intransigente. Muito, muito difícil… No entanto, assim como a desatenção acarreta o descontrole, a displicência para com aqueles raros lampejos é rejeitar a associação íntima que eles possibilitam, mas não se concretiza sem uma ativa resolução.
A verdadeira coragem
Lavelle apontou:
Le véritable courage consiste à reconnaître notre vocation, qui est unique au monde, et à lui demeurer fidèle au milieu de tous les obstacles que nous rencontrons, sans nous permettre de jamais céder devant eux.
É curioso notar como a vocação, ao mesmo tempo que tem relevância ao mundo, é por ele sempre mais ou menos estorvada. A relevância deriva de sua unicidade, deriva do fato de que o mundo se alarga com sua realização, a despeito de quaisquer considerações de grandeza. No entanto, o mesmo mundo parece resumir-se no conjunto de circunstâncias que trabalham ativamente para transtorná-la, para desviar e dissipar o foco, para obscurecê-la, menosprezá-la, e fazer com que a energia se direcione para outro fim. A coragem de encará-lo, pois, é a verdadeiramente autêntica, pois defronta o todo em imensa desvantagem, numa batalha na qual a vitória possível é sempre parcial, arrogando a si a tarefa dificílima de esforçar-se por energizar-se com a força opositora — mas, sobretudo, é autêntica por não hesitar diante do conflito fundamental.