Diz Stefan Zweig, em sua Autobiografia…

Diz Stefan Zweig, em sua Autobiografia:

Tão simples como a vida dos pintores era a dos poetas, de quem logo me tornei íntimo. Em geral, tinham pequenos cargos públicos em que havia pouco trabalho positivo; o grande respeito pela realização intelectual, que na França se estendia dos postos mais baixos até os mais elevados, havia muitos anos produzira o método inteligente de dar sinecuras insignificantes a poetas e escritores que não tiravam altos rendimentos do seu trabalho; eram nomeados, por exemplo, bibliotecários no Ministério da Marinha ou no Senado. Isso garantia um pequeno salário e só dava pouco trabalho, pois os senadores muito raramente pediam um livro, e assim o feliz proprietário de uma dessas prebendas podia escrever seus versos durante o expediente com tranquilidade e conforto no velho palácio do Senado, tendo o Jardim de Luxemburgo diante da janela, sem jamais se preocupar com honorários. E essa modesta garantia lhes bastava.

Ora, mas é claro que lhes bastava! Oh, Deus! É preciso ornar tal relato com as devidas exclamações! O que tais poetas tiveram foi, sem dúvida, uma condição paradisíaca. E é inevitável cotejá-lo com toda a angústia espraiada pela literatura brasileira, toda a angústia, a bem dizer, não motivada senão pela falta de uns tostões garantidos no fim do mês, a qual, valendo-se da natureza demoníaca do dinheiro, desencadeia um processo inacreditável de constrangimentos, obstáculos e perturbações, que acaba por meter o mais sereno, o mais modesto dos seres neste atroz desconsolo, diante do qual todo o esforço prévio, todo o valor cultivado, toda a pureza de intenção parece se eclipsar. É o óbvio: frequentemente, a diferença entre a serenidade e o desespero não é mais do que uma destas insignificantes “prebendas”.

Se, tal como se dá no oriente…

Se, tal como se dá no oriente, os escritores se formassem numa espécie de discipulado, o bom mestre diria de cara, logo no primeiro encontro com o discípulo: “Antes de tudo, temos de resolver o seu problema financeiro. Você precisa, caso não as possua, criar as condições para que nunca dependa, nem nunca espere dinheiro de nenhum de seus escritos”. Então, antes da gramática, antes da leitura dos clássicos, antes de qualquer outra coisa, o discípulo teria de exercitar a matemática: calcular quanto precisaria, mensalmente, para viver; calcular quanto precisaria juntar para ter essa renda, ou que tipo de trabalho poderia fazer, paralelamente à escrita, para reunir o montante ou extrair a tal renda mensal. Sem um plano financeiro muito bem definido, cujo triunfo significa a superação do problema do dinheiro, o descolamento de toda sorte de perturbações pecuniárias, todo escritor tende a acabar, com sorte, como Mário de Sá-Carneiro, com azar, como outros que não merecem menção. Cioran está certo: qualquer trabalho físico é preferível ao texto remunerado; a necessidade de dinheiro não pode contaminar o ato de escrever.

Decerto, minha sorte foi ter devorado…

Liberdade… Decerto, minha sorte foi ter devorado livros de finanças antes de descobrir a literatura, quer dizer, ter entendido a mecânica do dinheiro antes de cometer a insanidade de largar tudo para me tornar escritor. Assim, pude fazer algo que ninguém me ensinaria: estruturei um plano financeiro, paralelo ao plano de estudos para me capacitar a escrever. Preparei-me, através de um planejamento que ainda segue, para chutar o balde com segurança. Será que houve, alguma vez, escritor sem recursos com a mesma sorte? Fui salvo por esta circunstância especialíssima. Sem ela, se eu tivesse entrado em contato com esse papo de liberdade, acabaria muito, muito mal.

Cioran, em entrevista a Michael Jakob…

Cioran, em entrevista a Michael Jakob:

M. J. : Aviez-vous décidé avant votre arrivée en France de ne pas travailler dans ce pays non plus ?

C. : Oui, c’est d’une façon ultra-lucide que j’ai compris qu’il faut accepter n’importe quelle humiliation ou souffrance pour se refuser à exercer un métier, à faire des choses qu’on n’aime pas et qu’on ne peut pas aimer, à exercer tout travail impersonnel. Seul j’aurais accepté un travail physique. J’aurais accepté de balayer les rues, n’importe quoi, mais pas d’écrire, de faire du journalisme ! Il fallait tout faire pour ne pas gagner sa vie. Pour être libre il faut supporter n’importe quelle humiliation et c’était presque le programme de ma vie.

Liberdade e humilhação! Talvez não haja palavras tão próximas. Por tal resposta, vê-se claramente o sentimento que pulsa num escritor verdadeiro. E este, queira ou não, não fará muito além de carregar uma vida que, para os outros, seria impensável. Não existe essa coisa de reconhecimento nas letras. O sujeito dedica a vida à construção de uma obra, financeiramente se torna uma subpessoa, persevera contra tudo, renuncia a todo o resto — e, ainda assim, tem de torcer para que permaneça na paz do anonimato, para que não seja jamais lido. Quando não dá essa sorte, é invejado pelos pares e insultado pelo primeiro imbecil. No fim de tudo, porém, vale a pena, porque o escritor que o aceita, em verdade, opta por uma vida autêntica, e pode se orgulhar de tê-la sustentado sem se trair.