Isto de trancar-se em casa e devorar pilhas de livros tem lá sua utilidade, mas a compreensão adequada da sociedade e dos tempos exige o contato direto com o mundo. O vizinho, portanto, ensina algo que os livros não podem ensinar. Assim que Cioran, percorrendo a França de bicicleta, dormindo em albergues e conversando com jovens, estava adiante de embaixadores, observadores e tutti quanti a respeito dos ânimos do povo francês em relação à Segunda Guerra. Ganhou, errando pelo mundo afora, uma convicção que pareceu clarividência a oficiais ingleses. Frequentemente, clarividência não é senão uma variação de experiências assim.
Não há erudição ou estudo capazes de anular…
Não há erudição ou estudo capazes de anular as manifestações do temperamento, ainda que estas se provem evidentemente irracionais. Nisto não há nenhum problema; pelo contrário: seria indesejável anulá-las, visto que o temperamento é parte importante da personalidade. O problema começa quando o sujeito se engana, e tenta convencer outras cabeças de que conseguiu, pelo estudo, submeter os nervos, e como resultado aquilo que diz não sai senão calcado na luminosíssima razão. Ora, há piadas melhores! Mas é preciso chegar à maturidade da inteligência para apreciar devidamente a personalidade, e com ela deliciar-se como Goethe o fez.
Os Discursos de Epicteto são impressionantes…
Os Discursos de Epicteto são impressionantes por passarem a impressão de que, depois deles, não restou muito que se dizer sobre ética. Mudam os tempos, mudam os costumes, mas o que é relevante está, de alguma maneira, retratado ali. E mesmo nos grandes filósofos de orientação distinta, podemos traçar um paralelo, ou melhor, podemos encontrar a equivalência do que dizem na obra daquele sábio invulgar. Dois mil anos de distância! E a grande obra permanece intacta, tão valiosa e tão atual como sempre fora… Assim permanecerá.
As velhas histórias de cavalaria
Uma vez que travamos contato com as velhas histórias de cavalaria, e assimilamos os valores do cavaleiro medieval, temos de encarar a realidade: os “heróis” da história vão longe, muito longe daquele tipo fascinante. O legado daquelas lendas, decerto, é real e positivo; ainda hoje, lemo-las com grande proveito e grande prazer. Mas é inútil buscar representantes concretos daqueles ideais, que parecem submeter o homem a uma régua moral impossível, literária. Tendo viva em mente a imagem dos nobres Cavaleiros da Távola Redonda, dificilmente fecharemos a biografia de um homem poderoso sem alguma frustração.
