A vida inteira na cidade…

Um sujeito que passou a vida inteira na cidade talvez não consiga abandoná-la, senão por um processo traumático e desconfortável. Curiosamente, é nela que se sente seguro, é nela experimenta a sensação de normalidade com a qual se habituou. Se lhe contassem, porém, não acreditaria: é preciso experimentar em primeira pessoa a percepção do entorpecimento ao qual seus sentidos foram submetidos ao longo dos anos. E isso só é possível num ambiente afastado de sua querida cidade. Vem à mente aquelas velhas crônicas de europeus que, andando com índios na selva, espantavam-se de seu faro quase sobrenatural, que, em verdade, consistia numa atenção muito mais refinada aos sentidos, e que pelos sentidos demonstrava ao europeu a veracidade da intuição. Fica, assim, o questionamento de até que ponto se estendem as consequências dessa evidente desatenção urbana.

O grande interesse provocado pelas epístolas…

O grande interesse provocado pelas epístolas, hoje, deriva basicamente de se tratar de literatura que já não se produz, e de se tratar, por vezes, do conteúdo mais íntimo de determinadas obras. Aqui, sobretudo, reside o maior atrativo: pelas cartas podemos descobrir um autor que pode apenas se manifestar em camadas mais profundas de sua obra, mas cuja compreensão é essencial. Ocorre, porém, e é lamentável notá-lo, que nem sempre encontramos nas cartas a sinceridade que buscamos. E percebemos claramente que foram escritas visando a publicação posterior. O estilo, assim, perde o atrativo; brota a desconfortável sensação de estarmos sendo enganados. E o interesse se esvai…

O que se pode dizer do estudo da teoria literária…

O que se pode dizer do estudo da teoria literária é mesmo que se pode dizer do estudo da estilística: contribuem ambos, e são valiosos ao escritor que leve a sério o seu trabalho. Fornecem-lhe meios para dizer criativamente o que porventura queira dizer. Mas não lhe ajudarão a ter o que dizer. Nem tornarão os seus temas mais interessantes. Nem configuram um estudo essencial. O estudo da gramática, este sim, é basilar e não deve ser negligenciado. Um verdadeiro escritor que a domine, no entanto, pode muito bem produzir grandes obras desconhecendo por completo o objeto de estudo daquelas estimulantes, mas superestimadas disciplinas. Aliás, assim fizeram todos os escritores até o século XX.

O gênio literário é aquele que consegue…

O gênio literário é aquele que consegue captar e expressar, à sua maneira, a natureza íntima das coisas. É o autor cuja primeira leitura nos provoca aquela sensação de redescoberta de que fala Lavelle, que parece lançar uma luz inédita sobre algo que já sabíamos, mas se encontrava escondido em nosso interior. Então, pela expressão singular e memorável, tomamo-lo em definitivo como patrimônio nosso. Esse tipo de experiência, só os verdadeiramente grandes podem-na proporcionar.