O grande interesse provocado pelas epístolas…

O grande interesse provocado pelas epístolas, hoje, deriva basicamente de se tratar de literatura que já não se produz, e de se tratar, por vezes, do conteúdo mais íntimo de determinadas obras. Aqui, sobretudo, reside o maior atrativo: pelas cartas podemos descobrir um autor que pode apenas se manifestar em camadas mais profundas de sua obra, mas cuja compreensão é essencial. Ocorre, porém, e é lamentável notá-lo, que nem sempre encontramos nas cartas a sinceridade que buscamos. E percebemos claramente que foram escritas visando a publicação posterior. O estilo, assim, perde o atrativo; brota a desconfortável sensação de estarmos sendo enganados. E o interesse se esvai…

O que se pode dizer do estudo da teoria literária…

O que se pode dizer do estudo da teoria literária é mesmo que se pode dizer do estudo da estilística: contribuem ambos, e são valiosos ao escritor que leve a sério o seu trabalho. Fornecem-lhe meios para dizer criativamente o que porventura queira dizer. Mas não lhe ajudarão a ter o que dizer. Nem tornarão os seus temas mais interessantes. Nem configuram um estudo essencial. O estudo da gramática, este sim, é basilar e não deve ser negligenciado. Um verdadeiro escritor que a domine, no entanto, pode muito bem produzir grandes obras desconhecendo por completo o objeto de estudo daquelas estimulantes, mas superestimadas disciplinas. Aliás, assim fizeram todos os escritores até o século XX.

O gênio literário é aquele que consegue…

O gênio literário é aquele que consegue captar e expressar, à sua maneira, a natureza íntima das coisas. É o autor cuja primeira leitura nos provoca aquela sensação de redescoberta de que fala Lavelle, que parece lançar uma luz inédita sobre algo que já sabíamos, mas se encontrava escondido em nosso interior. Então, pela expressão singular e memorável, tomamo-lo em definitivo como patrimônio nosso. Esse tipo de experiência, só os verdadeiramente grandes podem-na proporcionar.

Não há salvação para o leitor que, no primeiro…

Não há salvação para o leitor que, no primeiro contato com Dostoiévski, não seja tomado da mais alta admiração por este homem que, em circunstâncias desesperadoras, apreendeu e conseguiu expressar muito do que há de mais íntimo na alma humana, com intensidade e originalidade ímpares. Nada se há de esperar do sujeito que, diante desta realização artística única e óbvia, não se afaste para sempre da esterilidade daquela crítica que tem na forma o verdadeiro pendão da alta literatura. O sujeito que se impressiona mais com esta ou aquela técnica narrativa, com este ou aquele recurso discursivo, com tal ou qual organização estrutural do texto, do que com a raríssima perspicácia do verdadeiro gênio, merece tão somente compaixão.