O contrassenso de não desejar experiências traumáticas está na realidade de que tais experiências são frequentemente as mais marcantes, mais proveitosas, das quais se pode extrair os mais abundantes e duradouros frutos. Não é raro que uma vida fecunda seja construída em torno delas; uma vida admirável, que sabe sublimar o negativo e criar dele algo de valor. Por que motivo, então, não querê-las? Pelo motivo que, naturalmente, nos inclina a crer que uma vida agradável é superior a uma vida proveitosa. Que engano! E, no fim das contas, não é difícil perceber quão mais satisfatório é poder olhar para trás e admirar o quanto se fez e o quanto se conseguiu transformar.
Algumas das lições mais preciosas…
Algumas das lições mais preciosas que a vida pode oferecer são aquelas evidenciadas por um contraste para com expectativa comum. É, por exemplo, quando se descobre que a generosidade verdadeira nem sempre se dá por uma aparência generosa; ou, inversamente, que uma violência, um malefício enorme vive camuflado na melhor das disposições. Tais experiências ensinam um monte sobre a qualidade essencial das naturezas e das intenções. Com elas, aprende-se a admirar e a desprezar de maneira não convencional, mas de maneira mais digna, que valoriza aquilo que efetivamente tem valor.
Em verdade, a recomendação de assumir-se…
Em verdade, a recomendação de assumir-se, de definir o curso da própria vida e, através de escolhas conscientes, concretizar um plano deliberado, só serve para um tipo específico de personalidade, que possui uma predisposição não muito comum. Parece loucura notá-lo; afinal, quem é que não deseja viver a vida que escolheu? Contudo, assim são as coisas: há outro tipo de pessoas, mais comum, que não o deseja; e o que anseia é simplesmente corresponder a uma vida planejada pelos outros, ou melhor, pelo consenso — e a satisfação, para este tipo, é desfrutar de aceitação. Nada há que se lamentar ou criticar. Para ambos, há uma fórmula que conduz à satisfação sincera — e, portanto, a boa recomendação será sempre aquela que melhor se adaptar às necessidades individuais.
A única disposição justificável para aquele…
A única disposição justificável para aquele que se dedica a acompanhar algum esporte é o entusiasmo exaltado, irrefletido, irracional. Assim, extrai-se o melhor do entretenimento que, de qualquer esporte, é a qualidade medular. Do contrário, o tempo dedicado não se justifica. Ora, o brasileiro de que falava Nelson Rodrigues, obsessivo e desconfiante, é um contrassenso. Um bom conselheiro haveria de recomendá-lo deixar de ser besta ou procurar outra ocupação. O problema é menos sofrer diante da televisão ou acordar de mau humor por causa de um jogo, mas usar o passatempo como combustível para sentimentos ruins. Menosprezar de praxe o time para que torce, enaltecer de praxe o time rival: o sujeito que assim procede está no nível mais baixo da escala evolutiva. Se é para empregar o tempo nisto, que seja com sabedoria! E sabedoria, em futebol, é o otimismo efusivo, a confiança louca e contagiante, o enaltecimento supremo da razão desse orgulho artificial!