É um ato quase heroico este de dedicar…

É um ato quase heroico este de dedicar à literatura as últimas horas de um dia extenuante, quando corpo e mente parecem não suportar esforço adicional. É mesmo o diabo, como uma vez desabafara Carpeaux. E mediante outro desabafo, o de Ferreira de Castro, percebe-se que a situação nunca toma outra forma senão a de luta duríssima: mesmo o hábito não parece forte o suficiente para evitar aqueles dias em que se sucumbe ao cansaço, em que não se consegue pensar, e não se consegue escrever. Ah, quão mais fácil seria a vida sem duas ocupações! E, ainda assim, é essa a sorte da maioria, e foi em semelhantes condições que o dever venceu a natureza e produziu boa parte do melhor que a literatura tem a nos oferecer.

Literariamente, não há dúvida de que os tons…

Literariamente, não há dúvida de que os tons instrutivo e confessional não estejam entre as formas mais requintadas, e de que produzem amiúde antipatia em leitores experientes. Porém, se tomarmos Tolstói como exemplo, veremos que, embora seguramente não sejam suas obras-primas, os livros que escreveu se valendo dos tons referidos possuem um sabor especial. É como se o grande autor, o homem de qualidades indiscutivelmente reconhecidas, se despisse de toda sorte de artifícios para expressar objetivamente aquilo que mais o marcou e que, se pudesse, gostaria de nos ensinar. Para um romancista, é ato que exige coragem, porque significa assinar uma peça falta de encanto literário, uma peça que provavelmente desagradará. Mas nós, que a lemos, não podemos negar que, por ela, aproximamo-nos um pouco mais do homem que escolheu não se esconder, nem se preservar.

As artes visuais possuem uma especial…

As artes visuais possuem uma especial capacidade de choque — instantâneo, inesperado — que, logo ao primeiro contato, pode produzir uma lembrança que jamais deixará a memória. É, por exemplo, o que pode acontecer com o sujeito que se coloca, pela primeira vez, diante de uma escultura de Aleijadinho. No momento em que os olhos se fixam na obra e lhe captam a dramaticidade, é como se esta os penetrasse como um raio; há um susto, e tal instante de perplexidade se grava para sempre na mente. Depois, é admirar os detalhes, refletir sobre a realização impossível; mas, dali em diante, é do abalo súbito que a mente primeiro se recordará sempre que evocar o nome do gênio criador.

Gilberto Freyre, Mário Ferreira dos Santos e Otto Maria Carpeaux…

Gilberto Freyre, Mário Ferreira dos Santos e Otto Maria Carpeaux: três autores que, sozinhos, poderiam transformar o Brasil numa nova civilização. Adicione-se aí, para ficar só neles, as dezenas de ótimos poetas que o país já produziu, e então se teria um painel literário amplo e fecundo, suficiente para lançar as bases de uma sólida formação intelectual. Tudo isso já existe, e está disponível para quem se interessar. É conhecê-los e ver o quão tola é a tal afirmação de que “a literatura brasileira não presta”. A nova civilização, no entanto, pode ser que não venha nunca; mas os rebentos da que houve já se provaram dignos de algum espaço no relicário da cultura universal.