Em certa medida, não se escolhe os sentimentos…

Em certa medida, não se escolhe os sentimentos que brotarão em relação ao meio, porque não se escolhe as circunstâncias em que se nasce, nem se escolhe grande parte dos eventos determinantes que o meio produzirá durante uma vida. Assim, produzem-se naturalmente a afeição e a repulsa, o patriotismo e o antipatriotismo, o pertencimento e a alienação. Mas todos esses sentimentos, se não compreendidos, frutificam mal. É preciso um esforço consciente por relacioná-los sempre às transformações pessoais experimentadas, tendo-os como os catalisadores importantíssimos que são. As tais transformações, às vezes, contrariam a natureza daquele sentimento inicial; mas todas ensinam, e para com todas é necessário desenvolver uma boa disposição.

Imaginar que tenha havido um Carpeaux…

Imaginar que tenha havido um Carpeaux antes da invenção do computador dá o que pensar. Um leitor ativo, no correr de uma década, produz uma quantidade de anotações que ultrapassa os milhares. Três, quatro décadas de estudo, portanto, equivalem a um montante que cabeça humana nenhuma é capaz de abarcar, a não ser que seja executado um trabalho constante de releitura e reorganização, que nunca cede porque sempre há velhas anotações a serem revisitadas, e sempre há novas ideias, novas conexões a serem estabelecidas a partir desta revisitação. Um computador, se utilizado com inteligência, facilita tremendamente a pesquisa: uma tarefa de uma hora, às vezes, é reduzida a minutos. Ainda assim, parece quase inalcançável a condição daqueles antigos eruditos, cujas anotações residiam enfiadas nos próprios calhamaços — algo que, hoje, faz arrepiar.

Não faz sentido ler, senão para tomar…

Não faz sentido ler, senão para tomar posse daquilo que foi lido; e isso dificilmente se faz numa primeira leitura. Portanto, a assimilação exige a releitura e exige o retorno àquilo que, no primeiro contato, chamou atenção. É por isso que o intelectual deve gastar um bom tempo planejando e executando o seu método pessoal de organização. Notas, trechos destacados têm de se tornar matéria viva em sua rotina de estudos: têm de estar à mão quando se necessita, e sempre à vista para evitar que caiam no esquecimento. É relê-los metodicamente e ver que, com o hábito, eles germinam dentro de si.

A vida inteira na cidade…

Um sujeito que passou a vida inteira na cidade talvez não consiga abandoná-la, senão por um processo traumático e desconfortável. Curiosamente, é nela que se sente seguro, é nela experimenta a sensação de normalidade com a qual se habituou. Se lhe contassem, porém, não acreditaria: é preciso experimentar em primeira pessoa a percepção do entorpecimento ao qual seus sentidos foram submetidos ao longo dos anos. E isso só é possível num ambiente afastado de sua querida cidade. Vem à mente aquelas velhas crônicas de europeus que, andando com índios na selva, espantavam-se de seu faro quase sobrenatural, que, em verdade, consistia numa atenção muito mais refinada aos sentidos, e que pelos sentidos demonstrava ao europeu a veracidade da intuição. Fica, assim, o questionamento de até que ponto se estendem as consequências dessa evidente desatenção urbana.