A partir do momento em que se vale de um time de roteiristas, uma produção cinematográfica abandona a possibilidade de produzir uma obra de arte. O óbvio dos óbvios: o cineasta e o roteirista têm de ser a mesma pessoa, e a obra tem de ser uma criação individual. O cinema, contudo, converteu o primeiro numa espécie de gestor, num especialista em montagem de cenas, no sujeito que define onde a câmera deve ficar; já o segundo não existe, porque multiplicou-se numa equipe. Não importa quão talentoso seja o roteirista: numa obra conjunta, o seu talento se dissipará. A equipe, seguramente, produzirá um roteiro redondinho; e justamente por isso, pelo fato de que o consenso podará o excêntrico, as cenas que não se encaixam, os diálogos “sem sentido”, a ideia “que não vai funcionar”, o filme perde de antemão a singularidade que caracteriza a obra de arte. O roteirista, sem um nome, não pode se tornar cineasta. O cineasta, sem dinheiro, não pode produzir sem um contrato de obrigações. Assim, não há muito mais que dizer.
Sete anos sem cinema
Neste último mês de julho, completei sete anos sem assistir a nenhum filme. Não fizeram falta. E se penso naquele velho hábito, de assistir a pelo menos um por semana, numa noite de sábado ou domingo, não sinto saudade. Afinal, quantas horas não foram perdidas em experiências decepcionantes? A evolução do cinema é lamentável: as produções encareceram muito, e obviamente têm de se pagar. Como consequência, as histórias precisam atingir ao menos um ponto sensível na mente do espectador médio; do contrário, não vingam. Assim, é impossível não ceder às fórmulas prontas, que desencadeiam naquele de imediato toda uma série de emoções. Dezenas de colaboradores são contratados e treinados para tal. As produtoras entram com somas homéricas, e o cineasta nada pode fazer. Cada um que faça com o tempo de que dispõe aquilo que lhe apetecer; de minha parte, porém, visto que o cinema tornou-se um bom entretenimento, entretenho-me mais procurando outra coisa para fazer.
Visto que a maior parte do tempo…
Visto que a maior parte do tempo é sempre dedicada a coisas de pouca monta, deveria ser mais simples convencer a mente da necessidade de tentar dotá-las de significado. Quem dera! O que ocorre mais frequentemente é vê-las todas como estorvos, como tolices sem tamanho que corroem o tempo e a motivação. Em suma, a verdadeira existência parece se limitar a uns raros momentos em que a razão capta a importância daquilo que se faz — e isso, decerto, não é tolerável que permaneça assim.
Às vezes parece que entre o gênio inglês…
Às vezes parece que entre o gênio inglês e o gênio latino há uma fronteira intransponível, muito maior que entre este e o russo, ou entre este e o oriental. É difícil explicar. Mas, por mais que se admita a grandeza da literatura inglesa, há uma veia latina, um fulcro que os ingleses nunca tocam, e portanto as suas obras sempre parecem faltas de algo. A Inglaterra não pode produzir um Unamuno, nem é imaginável em sua literatura um Raskólnikov. E ao latino, não há imagem mais perfeita de obscuridade do que a de um metafísico inglês.