O antipatriotismo, por mais que literariamente forneça material abundante, por mais que possibilite uma boa sátira, e portanto um bom livro, quase sem que o escritor tenha de se esforçar por tornar a matéria-prima interessante e convincente, por mais que pareça mais lógico que o seu contrário, traça de antemão um limite para a expressão artística — o mesmo limite que o sentimento em que se funda pode atingir. Não se pode transformá-lo em algo positivo, senão atacando as qualidades que o sustentam. Numa obra, isso significaria destruir-lhe a unidade, a essência. Convém tê-lo não mais do que como elemento periférico, dando-lhe um papel sempre secundário e cuidando não insuflá-lo a ponto de cansar — porque é isso o que faz quando toma o lugar de uma manifestação superior em vez de superar-se, algo que definitivamente não consegue fazer.
É compreensível a agitação, o inconformismo…
É compreensível a agitação, o inconformismo daquele que se sente supinamente ignorado, desmerecido ou injustiçado. Mas acontece o seguinte: é quase sempre inútil, e não costuma causar boa impressão aquele que faz o papel de advogado ou propagandista de si mesmo. Não vence a tal injustiça, e pode fortalecê-la com a pecha de vaidoso. Aquela é prato que se deve mastigar em silêncio, sem reclamar do excesso de sal. É preciso engoli-la sem perturbar-se, como quem aceita o destino, e satisfazer-se da não perturbação. Porque, afinal, o mundo nunca foi juiz confiável, e não se deve buscar nele nenhum tipo de orientação.
A maior dificuldade dos jovens…
A maior dificuldade dos jovens é lidar com a necessidade de fazer algumas escolhas irrevogáveis antes de possuírem experiência de vida suficiente para assumirem tais escolhas como suas. Isso equivale a dizer que hesitam, ou simplesmente não querem assumir uma identidade antes que ela tenha se consolidado. Há, pois, um instinto realista, justificável, que não deseja dar um passo em falso. No entanto, o imperativo do mundo não o reconhece e força a tomada de ação. É indiferente reprová-lo, e a resistência é ineficaz: chega sempre o momento a partir do qual se tem de decidir, e se tem de sentir as consequências das decisões. Se não houver consolo, basta pensar em quão pior poderia ser o destino que não contasse com semelhante empurrão.
Toda a miséria do homem parece remontar…
Toda a miséria do homem parece remontar à sua incapacidade de apreender com segurança a veracidade de suas percepções. Mas, se é verdade que muitas vezes capta mal, outras tantas o faz espantosamente bem. Assim que afirmações feitas na juventude — “é isto o que farei da vida”; “pertenço a este lugar”… — podem vir a confirmar-se após décadas, após o indivíduo quase trocar de nome, provando a acuidade incrível daquelas antigas percepções. O problema, pois, é ser difícil separá-las, e portanto confiar naquilo que se sente; mas decerto causa menos arrependimento enganar-se confiando que menosprezar uma realíssima e prodigiosa percepção.