O gênio literário é aquele que consegue…

O gênio literário é aquele que consegue captar e expressar, à sua maneira, a natureza íntima das coisas. É o autor cuja primeira leitura nos provoca aquela sensação de redescoberta de que fala Lavelle, que parece lançar uma luz inédita sobre algo que já sabíamos, mas se encontrava escondido em nosso interior. Então, pela expressão singular e memorável, tomamo-lo em definitivo como patrimônio nosso. Esse tipo de experiência, só os verdadeiramente grandes podem-na proporcionar.

Não há salvação para o leitor que, no primeiro…

Não há salvação para o leitor que, no primeiro contato com Dostoiévski, não seja tomado da mais alta admiração por este homem que, em circunstâncias desesperadoras, apreendeu e conseguiu expressar muito do que há de mais íntimo na alma humana, com intensidade e originalidade ímpares. Nada se há de esperar do sujeito que, diante desta realização artística única e óbvia, não se afaste para sempre da esterilidade daquela crítica que tem na forma o verdadeiro pendão da alta literatura. O sujeito que se impressiona mais com esta ou aquela técnica narrativa, com este ou aquele recurso discursivo, com tal ou qual organização estrutural do texto, do que com a raríssima perspicácia do verdadeiro gênio, merece tão somente compaixão.

É bem possível que a modernidade tenha…

É bem possível que a modernidade tenha conseguido ridicularizar para sempre o “ceticismo”, o “espírito investigativo” e o apreço à racionalização. Ao menos, já não inspiram o respeito que inspiravam no início do século passado semelhantes atitudes. O sujeito começa um relato, e faz questão de ressaltar, desde o início, as qualidades de sua mentalidade ocidental, que submeteu ao mais criterioso escrutínio tudo quanto vai adiante; durante o relato, interpola confissões de dificuldade em aceitar o relatado, em razão de sua racionalidade, etc., etc. Se, algum dia, tais trechos suscitavam admiração para com o orador, hoje, como dizer?, não fazem senão esticar um sorriso idêntico aquele que se estica nos lábios de alguém que se depara com uma manifestação supinamente infantil.

Incomoda o reconhecer-se medíocre…

Incomoda o reconhecer-se medíocre a ponto de nunca ter dado um passo temerário, tal como costumeiramente fizeram os homens notáveis, confiando inteiramente quer na providência, quer na própria intuição. Porque tais passos são os verdadeiramente decisivos, e aqueles que, uma vez tomados, produzem as melhores recordações. E quando falham, ora, quando falham o fazem como faz a indecisão e o medo, quando falham ainda guardam a possibilidade de correção.