Cioran recomendou, corretamente…

Cioran recomendou, corretamente, que basta ao sujeito que sofre um acesso de raiva em relação a alguém pegar um papel, uma caneta, e registrar algumas dezenas de insultos: “Ele é um porco, um crápula, um bandido, um animal…”. A raiva passa. Se não passa, diminui drasticamente, e o registro escrito provoca uma espécie de libertação. Ora, o que se passa com a raiva, também se passa com a angústia. Mas são procedimentos diferentes. A raiva vai-se com o jato frenético e vertiginoso, vai-se no próprio modo de escrever. Já a angústia se dissipa, ao menos em parte, com a racionalização. Sempre se dá o mesmo: evocá-la como que a intensifica, atira a mente num processo penoso; contudo, pouco a pouco, com descrever o seu modo de operação, ela vai perdendo força, como se a compreensão a neutralizasse. No fim, tem-se um texto: está ela ali exposta, talvez muito desagradavelmente; mas efetivamente diminuiu.

São sempre melhores as linhas daquele…

São sempre melhores as linhas daquele que não se deixa dominar pelo sentimento de autoimportância, ainda que este não tenha sido transmutado em humildade. Desprezo, escárnio, o que seja: tudo é válido para anulá-lo, e toda manifestação que o contraria agrada mais do que a soberba que dele pode derivar. O leitor, ainda que não seja filósofo, sempre terá a noção inata da importância relativa de um único homem perante a criação. Portanto, o vício, mesmo que não captado conscientemente, produzirá a impressão decorrente de sua natureza viciosa. Simples assim.

Nunca deixa de impressionar o fenômeno…

Nunca deixa de impressionar o fenômeno ocorrido no “dia triunfal” de Fernando Pessoa. É um mistério majestoso, ao qual todos os artistas têm de se curvar. Pode-se racionalizá-lo em parte, pode-se inclusive tentar replicá-lo com bons resultados, executando metodicamente durante a criação etapas predefinidas. Contudo, ainda que o processo se mostre proveitoso, nada se pode fazer para garantir a potência máxima no ato final. Este parece como que independente e soberano: dá-se quando e como quiser. E talvez seja bom que assim proceda, porque evita que o autor caia na soberba e se julgue senhor absoluto do enigmático mister da criação.

Se releio algumas dezenas de páginas…

É inacreditável! Se releio algumas dezenas de páginas escritas por mim mesmo, em verso ou em prosa, não há uma única vez que não encontre, gritando, algum deslize, que parece-me como grafado em letras garrafais. Todas as vezes, sempre, cem por cento dos casos! Daí que, diante do absurdo, diante do fato incontestável de estar ali o lapso impossível, tenho de conjeturar que seres desconhecidos estão a vasculhar e alterar-me os escritos, mesmo depois de revisados, porque seguramente tais erros não sou capaz de cometer. E não adianta tentar consolar-me com tolas ideias de que são muitas as variáveis, que o enquadramento do texto na tela porventura me prejudique, que é o diabo essa coisa de digitar, deletar, selecionar e sobrescrever: há erros injustificáveis, indignos de perdão. Mas, graças a Deus, não posso afligir-me nem irritar-me demasiado: lembro-me sempre de Machado, redentor dos escritores brasileiros passados e futuros, que, com aquele magnífico “lhe cegara o juízo”, está eternamente disponível para me socorrer.