Um bom ponto a partir do qual o escritor se poderá considerar efetivamente um profissional das letras é aquele em que começa a sentir prazer no estudo da língua, isto é, começa a gostar de percorrer terríveis gramáticas, estudos linguísticos complicadíssimos e similares. É quando, neste meio imperscrutável para a maioria, sente-se em casa afinal. E é quando se percebe apto a esmerar deveras um texto, atentando-se aos detalhes, consciente do poder imenso das palavras, de que, às vezes, uma delas é suficiente para mudar tudo num discurso ou numa narrativa. Toda habilidade difícil, dominada a duras penas, costuma outorgar este prêmio: a dificuldade passa a deleitar. Mas há habilidades cuja dificuldade possui um claro limite; nas letras, não parece havê-lo.
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Se um autor pensar um bocado…
Se um autor pensar um bocado, descobrirá que possui, sempre, algo a ensinar a alguém. E se, em vez de seguir a irresistível tendência de imitar o que outros fizeram, centrar-se em ensinar, na medida de suas possibilidades, mas com sinceridade e pureza de intenção, aquilo que sabe àquele que não o sabe, terá, seguramente, ao menos um bom leitor. Mas acontece que, fazendo isso, descobre que sabe mais do que supunha, aprende mais do que antes sabia e consegue, de uma só vez, evoluir e criar algo de valor.
A ironia é uma delícia
A ironia é uma delícia. Irresistível, às vezes. E para alguns temperamentos, essencial. Mas é difícil não enxergar para onde tende, ou melhor, é difícil não enxergar os efeitos de sua prática regular prolongada na personalidade do praticante. Para entendê-lo, basta investigar de onde brota sua motivação. Há ironias que, em suma, edificam; outras degeneram. E tal se percebe não pelas reações que suscitam, mas pelo sentimento que o ironista alimenta dentro de si. Sentar-se sempre à mesa, centrar a vida na crítica mordaz é algo que só se deveria fazer com um objetivo construtivo e purificador.
Há algo estranho na maneira como as ideias…
Há algo estranho na maneira como as ideias se manifestam na mente. Às vezes, é divertido brincar de defrontar o problema da tela branca, do ponteiro a piscar e do texto ainda por escrever. Então, percebe-se o seguinte: a ideia não brota quando a mente se movimenta, quando imagina frases e temas, e reflete sobre aquilo que irá escrever. Se intensifica o pensamento, chega a esgotar-se, mas a ideia não vem. Contudo, se se permite, ou se lhe sucede um lapso, às vezes no ato de acender um cigarro ou de passar um café, que interrompe o pensamento e estabelece um vazio, uma inércia de um segundo, é neste segundo que a ideia brota manifesta, restando ao escritor a tarefa de modelá-la e escrever.