No Brasil, quando nasce um escritor verdadeiro, é-lhe exigida uma força de caráter incomum: de antemão, ele já sabe que a obra de sua vida será não mais que uma prova de amor. Não haverá reconhecimento pelo seu trabalho, e nem poderia havê-lo, porque não se pode esperar de alguém que reconheça algo que não lhe tem importância. Não há nem o que lamentar. O brasileiro não lê e não gosta de livros; eles não fazem parte de sua vida. Portanto, independentemente da seriedade e do quilate do escritor brasileiro, sua obra não terá relevância, nem influência, como seria de se esperar. Isso, porém, não é tudo. Também de antemão, ele pode estar seguro de que, mesmo estudando mais do que escritores de outros países, mesmo sofrendo mais privações, superando maiores obstáculos, exercendo o ofício com maior dedicação, mesmo que o monumento que erga se prove irrefutavelmente mais digno e mais comovente, haverá, depois de sua morte, um desses jornalistas metidos a intelectuais, deslumbrado com o seu conhecimento do inglês, a cuspir, do alto de sua inépcia e péssimo manejo do idioma, frases como “nada presta na literatura brasileira”, “aqui jamais se produziu nada de bom”. O escritor brasileiro está fadado a ser desprezado por néscios e insultado por imbecis.
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É curioso notar como, às vezes, é muito sutil…
É curioso notar como, às vezes, é muito sutil a diferença entre a técnica bem ou mal empregada, entre o resultado estimulante e o resultado tedioso. Em Corpo vivo, Adonias Filho intercala planos narrativos, como que desenvolvendo a história, aos poucos, no passado e no presente. À medida que o faz, vai apresentando novos personagens. O tempo inteiro, cria expectativa para uma apresentação, ou para um acontecimento, e se sacia alguma curiosidade, no mesmo ato cria uma nova, e assim vai por toda a narrativa sustentando um interesse que não cessa. Além disso, emprega o padrão estético, até visual, decorrente destas intercalações: a narrativa presente é seguida das aspas que desvelam o passado, num ritmo como que hipnotizante, o qual, se aventurado por escritores menos hábeis, resulta numa indescritível porcaria. Esse é o milagre do grande escritor: com o seu toque de mestre, torna interessante aquilo que enfastia. Imitá-lo é sempre perigoso; mas apreciá-lo, ah!, isso todos nós temos o privilégio de poder fazer.
Se, tal como se dá no oriente…
Se, tal como se dá no oriente, os escritores se formassem numa espécie de discipulado, o bom mestre diria de cara, logo no primeiro encontro com o discípulo: “Antes de tudo, temos de resolver o seu problema financeiro. Você precisa, caso não as possua, criar as condições para que nunca dependa, nem nunca espere dinheiro de nenhum de seus escritos”. Então, antes da gramática, antes da leitura dos clássicos, antes de qualquer outra coisa, o discípulo teria de exercitar a matemática: calcular quanto precisaria, mensalmente, para viver; calcular quanto precisaria juntar para ter essa renda, ou que tipo de trabalho poderia fazer, paralelamente à escrita, para reunir o montante ou extrair a tal renda mensal. Sem um plano financeiro muito bem definido, cujo triunfo significa a superação do problema do dinheiro, o descolamento de toda sorte de perturbações pecuniárias, todo escritor tende a acabar, com sorte, como Mário de Sá-Carneiro, com azar, como outros que não merecem menção. Cioran está certo: qualquer trabalho físico é preferível ao texto remunerado; a necessidade de dinheiro não pode contaminar o ato de escrever.
Cioran, em entrevista a Michael Jakob…
Cioran, em entrevista a Michael Jakob:
M. J. : Aviez-vous décidé avant votre arrivée en France de ne pas travailler dans ce pays non plus ?
C. : Oui, c’est d’une façon ultra-lucide que j’ai compris qu’il faut accepter n’importe quelle humiliation ou souffrance pour se refuser à exercer un métier, à faire des choses qu’on n’aime pas et qu’on ne peut pas aimer, à exercer tout travail impersonnel. Seul j’aurais accepté un travail physique. J’aurais accepté de balayer les rues, n’importe quoi, mais pas d’écrire, de faire du journalisme ! Il fallait tout faire pour ne pas gagner sa vie. Pour être libre il faut supporter n’importe quelle humiliation et c’était presque le programme de ma vie.
Liberdade e humilhação! Talvez não haja palavras tão próximas. Por tal resposta, vê-se claramente o sentimento que pulsa num escritor verdadeiro. E este, queira ou não, não fará muito além de carregar uma vida que, para os outros, seria impensável. Não existe essa coisa de reconhecimento nas letras. O sujeito dedica a vida à construção de uma obra, financeiramente se torna uma subpessoa, persevera contra tudo, renuncia a todo o resto — e, ainda assim, tem de torcer para que permaneça na paz do anonimato, para que não seja jamais lido. Quando não dá essa sorte, é invejado pelos pares e insultado pelo primeiro imbecil. No fim de tudo, porém, vale a pena, porque o escritor que o aceita, em verdade, opta por uma vida autêntica, e pode se orgulhar de tê-la sustentado sem se trair.