O jovem brasileiro que se incline à literatura possui uma vantagem para escolher se segue ou não a sua disposição natural. Esta é a de se desenhar claríssimo o futuro que lhe aguardará caso opte por segui-la. A ilusão é-lhe impossível. Basta vasculhar alguns diários ou cartas de escritores do passado. Ou então refletir se há, vivo, algum exemplo de “sucesso”, de “reconhecimento” que lhe poderia servir de meta. Não há nenhum. O candidato a escritor, se refletir um pouco, concluirá que não inveja a situação de nenhum outro escritor de seu país. Daí que chegará facilmente à questão fundamental, que talvez fique encoberta para jovens de outras nacionalidades: é possível imaginar outra vida? seria tolerável privar-se de escrever e exercer outra ocupação? Pensando nisto, poderá escolher, pelos motivos certos, a vida que deseja para si.
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É uma noção um tanto besta esta…
É uma noção um tanto besta esta de que, a cada novo poema, o autor tem de “inventar”. E vai associada a esta outra de que o maior poeta é aquele que executou o maior número de fórmulas, que abarcou o maior número de possibilidades construtivas, que, enfim, “não se repetiu”. É por isso que os manuais de versificação, após determinado momento, começam a cansar. O mesmo se dá com os tratados de estilística. Há um ponto em que o essencial parece há muito ultrapassado, e as linhas passam a versar sobre o irrelevante. O estudante fica com a sensação de que o seu nobre interesse se rebaixa, e a própria arte é coisa de pequeno valor.
Há acadêmicos que não consideram…
Há acadêmicos que não consideram Farias Brito filósofo; há literatos que consideram Lima Barreto escritor menor. E, no entanto, é possível ler a obra de ambos com lágrimas nos olhos. Isolados os textos, tornados objetos de análise técnico-estrutural, desaparece grande parte de sua significação. Devia ser um tanto óbvio, mas há sempre aqueles que ignoram a dimensão que a pessoa do autor pode dar à sua obra. Talvez seja consequência da modernidade. E o resultado é muito simples: é ignorá-lo e não haverá capacidade de discernir o sincero do dissimulado, a autenticidade da afetação; o texto não passará de um amontoado de palavras; a profundidade do discurso nunca se poderá captar. Não haverá diferença, afinal, entre ler uma história em quadrinhos e ler um Osamu Dazai.
No Brasil, quando nasce um escritor verdadeiro…
No Brasil, quando nasce um escritor verdadeiro, é-lhe exigida uma força de caráter incomum: de antemão, ele já sabe que a obra de sua vida será não mais que uma prova de amor. Não haverá reconhecimento pelo seu trabalho, e nem poderia havê-lo, porque não se pode esperar de alguém que reconheça algo que não lhe tem importância. Não há nem o que lamentar. O brasileiro não lê e não gosta de livros; eles não fazem parte de sua vida. Portanto, independentemente da seriedade e do quilate do escritor brasileiro, sua obra não terá relevância, nem influência, como seria de se esperar. Isso, porém, não é tudo. Também de antemão, ele pode estar seguro de que, mesmo estudando mais do que escritores de outros países, mesmo sofrendo mais privações, superando maiores obstáculos, exercendo o ofício com maior dedicação, mesmo que o monumento que erga se prove irrefutavelmente mais digno e mais comovente, haverá, depois de sua morte, um desses jornalistas metidos a intelectuais, deslumbrado com o seu conhecimento do inglês, a cuspir, do alto de sua inépcia e péssimo manejo do idioma, frases como “nada presta na literatura brasileira”, “aqui jamais se produziu nada de bom”. O escritor brasileiro está fadado a ser desprezado por néscios e insultado por imbecis.