São sempre melhores as linhas daquele…

São sempre melhores as linhas daquele que não se deixa dominar pelo sentimento de autoimportância, ainda que este não tenha sido transmutado em humildade. Desprezo, escárnio, o que seja: tudo é válido para anulá-lo, e toda manifestação que o contraria agrada mais do que a soberba que dele pode derivar. O leitor, ainda que não seja filósofo, sempre terá a noção inata da importância relativa de um único homem perante a criação. Portanto, o vício, mesmo que não captado conscientemente, produzirá a impressão decorrente de sua natureza viciosa. Simples assim.

Nunca deixa de impressionar o fenômeno…

Nunca deixa de impressionar o fenômeno ocorrido no “dia triunfal” de Fernando Pessoa. É um mistério majestoso, ao qual todos os artistas têm de se curvar. Pode-se racionalizá-lo em parte, pode-se inclusive tentar replicá-lo com bons resultados, executando metodicamente durante a criação etapas predefinidas. Contudo, ainda que o processo se mostre proveitoso, nada se pode fazer para garantir a potência máxima no ato final. Este parece como que independente e soberano: dá-se quando e como quiser. E talvez seja bom que assim proceda, porque evita que o autor caia na soberba e se julgue senhor absoluto do enigmático mister da criação.

Se releio algumas dezenas de páginas…

É inacreditável! Se releio algumas dezenas de páginas escritas por mim mesmo, em verso ou em prosa, não há uma única vez que não encontre, gritando, algum deslize, que parece-me como grafado em letras garrafais. Todas as vezes, sempre, cem por cento dos casos! Daí que, diante do absurdo, diante do fato incontestável de estar ali o lapso impossível, tenho de conjeturar que seres desconhecidos estão a vasculhar e alterar-me os escritos, mesmo depois de revisados, porque seguramente tais erros não sou capaz de cometer. E não adianta tentar consolar-me com tolas ideias de que são muitas as variáveis, que o enquadramento do texto na tela porventura me prejudique, que é o diabo essa coisa de digitar, deletar, selecionar e sobrescrever: há erros injustificáveis, indignos de perdão. Mas, graças a Deus, não posso afligir-me nem irritar-me demasiado: lembro-me sempre de Machado, redentor dos escritores brasileiros passados e futuros, que, com aquele magnífico “lhe cegara o juízo”, está eternamente disponível para me socorrer.

É um ato quase heroico este de dedicar…

É um ato quase heroico este de dedicar à literatura as últimas horas de um dia extenuante, quando corpo e mente parecem não suportar esforço adicional. É mesmo o diabo, como uma vez desabafara Carpeaux. E mediante outro desabafo, o de Ferreira de Castro, percebe-se que a situação nunca toma outra forma senão a de luta duríssima: mesmo o hábito não parece forte o suficiente para evitar aqueles dias em que se sucumbe ao cansaço, em que não se consegue pensar, e não se consegue escrever. Ah, quão mais fácil seria a vida sem duas ocupações! E, ainda assim, é essa a sorte da maioria, e foi em semelhantes condições que o dever venceu a natureza e produziu boa parte do melhor que a literatura tem a nos oferecer.