Às vezes parece que entre o gênio inglês…

Às vezes parece que entre o gênio inglês e o gênio latino há uma fronteira intransponível, muito maior que entre este e o russo, ou entre este e o oriental. É difícil explicar. Mas, por mais que se admita a grandeza da literatura inglesa, há uma veia latina, um fulcro que os ingleses nunca tocam, e portanto as suas obras sempre parecem faltas de algo. A Inglaterra não pode produzir um Unamuno, nem é imaginável em sua literatura um Raskólnikov. E ao latino, não há imagem mais perfeita de obscuridade do que a de um metafísico inglês.

Embora o amor de Carpeaux pela cultura…

Embora o amor de Carpeaux pela cultura que absorveu após os quarenta seja um testemunho e tanto em favor da língua portuguesa; o “ordálio” enfrentado por um homem que já dominava variadas línguas europeias é suficiente prova de que o Quinto Império de Vieira, tal como interpretado por Fernando Pessoa, é coisa impossível. O mundo não aprenderá jamais o português; este será, como sempre foi, uma língua periférica, a despeito de tudo o que porventura ofereça. Quanto à profecia, no entanto, talvez seja bom que se continue a alimentá-la, e ao diabo com o resultado final.

Um americano especialista em educação disse…

Um americano especialista em educação disse, há alguns meses, que uma boa formação já pode dispensar o estudo de idiomas, visto que a inteligência artificial já é capaz de fazer traduções instantâneas, e o tempo pode ser aplicado com maior proveito em outras disciplinas. Saber bem o inglês é suficiente, concluiu. Que dizer? Sobre os efeitos do estudo de um idioma na inteligência, já disseram muito; Napoleão Mendes de Almeida, em sua insuperável Gramática latina, argumenta em favor do latim. Para alguém que possui o inglês como língua materna, porém, talvez não haja nada mais relevante ao seu desenvolvimento intelectual do que aprender, desesperadamente, tão cedo como possível, um idioma sintaticamente mais complexo, e serve até o espanhol. Mas como convencer o especialista? Se ele não o percebe de imediato, talvez não haja solução. Sua visão tem de ser invertida: o homem do futuro, quanto mais facilidades usufruir, mais terá de se esforçar para não desbaratar capacidades que somente o esforço focado pode desenvolver.

O desenvolvimento da linguística

O desenvolvimento da linguística, depois de Saussure, é impressionante e comparável à física, posto que, se folheamos obras antigas e recentes de qualquer destas duas disciplinas, ficamos espantados com o contraste. Quer dizer: tais disciplinas transformaram-se ao irreconhecível; do que falam as obras recentes, as antigas não poderiam nem sonhar. Com a linguística, ocorre, porém, o seguinte: o estudante pode facilmente dispensar tudo quanto se tem escrito recentemente, e mesmo assim tornar-se um respeitável conhecedor do idioma. Pode, é claro, ganhar um bocado estudando as obras atuais; mas é preciso que tenha uma forte base linguística, algo que não é conferido por elas. Se começa, contudo, o estudo pelo que há de mais novo, o mais provável é que se confunda até o desespero, e acabe tendo pavor do idioma que fala. Incrível! A simplicidade dos antigos mestres, já inimitável, parece garantir para as suas obras mais um punhado de reimpressões.