Talvez, somente a poesia seja comparável…

Talvez, somente a poesia seja comparável à historiografia no Brasil, ambas com uma longa tradição de autores de altíssimo nível, dos mais variados estilos e enfoques. E o curioso é notar que, apesar desta vasta e excelente bibliografia à disposição, o brasileiro comum desconhece por completo a história do Brasil. É uma dessas ironias paralisantes. O americano médio tem lá sua opinião sobre todos os grandes eventos da história americana: conhece-os, ao menos. E nos Estados Unidos, basta entrar em qualquer livraria, em qualquer das extremidades do enorme país, para constatar o seguinte: não há, em nenhuma delas, seção maior do que a de história americana. No Brasil, a despeito dos grandes autores, tal não se passa. E os grandes autores, é bom que se diga, são tão grandes quanto desconhecidos do público geral. Assim, ficamos nessa: a engrenagem da cultura já parece existente; falta, no entanto, que algo force o arranque do motor.

A história brasileira seria talvez…

A história brasileira seria talvez a mais interessante do planeta se nascessem mais dois ou três Gilbertos Freyres, que concedessem ao público leitor duzentos ou trezentos anos analisados sob o prisma variadíssimo do gênio original. Não seria preciso cataclismos, proezas heroicas, êxitos milagrosos para torná-la intrigante: bastaria que, pelas vestes, pelos costumes, pelas preferências e convicções, ficassem evidentes a ascensão e a degradação do homem comum. “De que você brincava quando era criança?”, “O que fazia aos finais de semana?”, “O que lia?”, “O que pensava sobre isso ou aquilo?”… Este tipo de pergunta diz tudo, ou quase tudo, sobre o estado de uma civilização.

A saúde é um dos tópicos mais interessantes…

A saúde é um dos tópicos mais interessantes que se tem notícia, muito em razão de haver pouquíssimo consenso e demasiado em discussão. Uma análise histórica demonstra como noções as mais díspares se foram criando e perdendo, causando reviravoltas no conceito de salutar. Hábitos que, aos gregos, eram tidos como benéficos, séculos depois ganharam a pecha de prejudiciais. Inversamente, o prejudicial passou a benéfico, e tudo isso num ciclo que não parece terminar. A orientação é dificílima; mas, sem dúvida, muito se pode aprender com este estudo, inclusive o tratar-se, mais do que se imagina, de um estudo individual.

Algo que salta aos olhos nos grandes feitos…

Algo que salta aos olhos nos grandes feitos mais recentes da humanidade, boa parte relacionada à tecnologia, é que nenhum deles possui grandiosidade comparável aos grandes feitos do passado. Tal se nota por serem os primeiros predominantemente feitos isolados da inteligência, para os quais não se exigiu maiores virtudes. Em contrapartida, temos os loucos dos séculos precedentes, cujas façanhas sempre começam por um inalienável risco pessoal. É verdade que, valendo-se de parâmetros distintos, é possível optar por aqueles, em razão de acarretarem transformações mais acentuadas. Mas não há talvez nenhum destes novos consagrados cuja mera ideia de embarcar num veleiro e meter-se com instrumental precário num mar tempestuoso, ou desbravar a pé um território desconhecido, não provoque o máximo terror.