São sempre melhores as linhas daquele que não se deixa dominar pelo sentimento de autoimportância, ainda que este não tenha sido transmutado em humildade. Desprezo, escárnio, o que seja: tudo é válido para anulá-lo, e toda manifestação que o contraria agrada mais do que a soberba que dele pode derivar. O leitor, ainda que não seja filósofo, sempre terá a noção inata da importância relativa de um único homem perante a criação. Portanto, o vício, mesmo que não captado conscientemente, produzirá a impressão decorrente de sua natureza viciosa. Simples assim.
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É muito desagradável presenciar, em vida…
É muito desagradável presenciar, em vida, o exemplo destes escritores que acabam se perdendo no envolvimento com a política. O sucesso, o talento atrai atenção; a atenção rende novos amigos, e estes os arrastam para o terreno ingrato. Quando vemo-lo num morto, o processo parece menos doloroso; podemos simplesmente ignorar alguns textos, ou dar-lhes o peso nenhum que merecem. Quando, porém, o escritor é vivo, ainda não somos capazes de distinguir o que dele ficará. Se o respeitamos, queremos lê-lo, e a mudança severa nos textos, o desperdício do talento por tão pouco, chegam a doer. O melhor é não ceder ao impulso maledicente; afinal, uma grande obra, após publicada, é uma realização efetiva que nenhuma miséria e nenhum miserável poderá jamais subtrair de um autor.
Nunca deixa de impressionar o fenômeno…
Nunca deixa de impressionar o fenômeno ocorrido no “dia triunfal” de Fernando Pessoa. É um mistério majestoso, ao qual todos os artistas têm de se curvar. Pode-se racionalizá-lo em parte, pode-se inclusive tentar replicá-lo com bons resultados, executando metodicamente durante a criação etapas predefinidas. Contudo, ainda que o processo se mostre proveitoso, nada se pode fazer para garantir a potência máxima no ato final. Este parece como que independente e soberano: dá-se quando e como quiser. E talvez seja bom que assim proceda, porque evita que o autor caia na soberba e se julgue senhor absoluto do enigmático mister da criação.
Escritores perigosos
Não deixa de ter razão quem diz haver escritores perigosos, capazes de transferir ao leitor o grosso de seus tormentos. Mas esses mesmos escritores costumam ter efeito bem diferente no leitor já atormentado. Às vezes, é com eles que este trava as relações interditadas pela vida e, às vezes, são-lhe estas as relações fundamentais. Assim que, onde para alguns há perigo evidente, para ele há consolo, confidência e compreensão. Por tais escritores descobre que aquela angústia recôndita, intensa conquanto nunca declarada, é na verdade uma experiência comum. E, ao descobri-lo, carregará para sempre o sentimento de gratidão.