Embora o trabalho dos críticos seja de grande…

Embora o trabalho dos críticos seja de grande serventia ao estudante, que tem de definir uma rota de estudos, e tem de encontrar uma maneira de selecionar, desconhecendo-as, as obras que mais lhe convêm, é sem dúvida melhor entrar numa obra ignorando-se o que dela disseram, e deixar que ela cause, numa relação travada entre autor e leitor, a sua impressão. Depois, a crítica, que será melhor compreendida, e talvez estimulará leitura adicional. Ocorre, porém, que não é possível, e nem conveniente fazê-lo sempre, uma vez que, antes de tudo, é preciso definir o que ler. Então é preciso lidar com a sensação desagradável de, durante a leitura, pedir que se afastem da mente os julgamentos já conhecidos que ficarão insistindo em aparecer.

Um bom ponto a partir do qual o escritor…

Um bom ponto a partir do qual o escritor se poderá considerar efetivamente um profissional das letras é aquele em que começa a sentir prazer no estudo da língua, isto é, começa a gostar de percorrer terríveis gramáticas, estudos linguísticos complicadíssimos e similares. É quando, neste meio imperscrutável para a maioria, sente-se em casa afinal. E é quando se percebe apto a esmerar deveras um texto, atentando-se aos detalhes, consciente do poder imenso das palavras, de que, às vezes, uma delas é suficiente para mudar tudo num discurso ou numa narrativa. Toda habilidade difícil, dominada a duras penas, costuma outorgar este prêmio: a dificuldade passa a deleitar. Mas há habilidades cuja dificuldade possui um claro limite; nas letras, não parece havê-lo.

Ao lado da exaltação batida…

Ao lado da exaltação batida, há na literatura, aqui e ali, exemplos mais sóbrios, mas muito mais reais do reconhecimento da influência efetiva, diária, e por vezes maravilhosa da natureza na vida do autor. Alguns poderiam estranhar que não sejam tão frequentes, e outros poderiam julgá-los tão idealistas quanto os primeiros; mas ocorre que, de um lado, é preciso experiência e olhos abertos para notá-lo, e, de outro, é admitir que são simplesmente reais. Às vezes, basta uma janela. E a paisagem, quando menos se espera, quando mais se precisa, invade a casa, invade o espírito, transforma o ânimo e dá outro rumo à situação. Lamentavelmente, há quem passe uma vida sem experimentá-lo; mas é preciso ter ciência de que tal é possível e, tendo-a, nada há de mais razoável do que o esforço por fazê-lo acontecer.

É frequente nos depararmos com autores…

É frequente nos depararmos com autores que, depois de avançarem nos estudos e na carreira literária, renegam seus antigos mestres. E se é assim com mestres, ainda mais frequente é renegarem autores previamente admirados, que contribuíram para a sua formação intelectual. Por um lado, a evolução intelectual implica mudanças sensíveis no pensamento, e há vezes em que a mudança se dá no próprio mestre, que se torna diferente daquele que foi. Contudo, é tarefa dificílima esta de renegar, sem com ela varrer junto o sentimento de gratidão. Pode parecer ao filósofo, após alcançar altitudes imponentes, uma vergonha ter-se beneficiado, quando jovem, de um jornalista, de um economista, de alguma figura do dito baixo clero intelectual. Grande bobagem! É muito mais honroso, lá do alto, recordar-se do caminho único que o permitiu ascender.