É frequente nos depararmos com autores que, depois de avançarem nos estudos e na carreira literária, renegam seus antigos mestres. E se é assim com mestres, ainda mais frequente é renegarem autores previamente admirados, que contribuíram para a sua formação intelectual. Por um lado, a evolução intelectual implica mudanças sensíveis no pensamento, e há vezes em que a mudança se dá no próprio mestre, que se torna diferente daquele que foi. Contudo, é tarefa dificílima esta de renegar, sem com ela varrer junto o sentimento de gratidão. Pode parecer ao filósofo, após alcançar altitudes imponentes, uma vergonha ter-se beneficiado, quando jovem, de um jornalista, de um economista, de alguma figura do dito baixo clero intelectual. Grande bobagem! É muito mais honroso, lá do alto, recordar-se do caminho único que o permitiu ascender.
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Millôr Fernandes alçou, no Brasil, o ofício…
Millôr Fernandes alçou, no Brasil, o ofício de humorista a um patamar muito alto e talvez inatingível porque já não parecer haver, na imprensa, espaço para um novo Millôr. Pior para a imprensa! E de todos os elogios que poderíamos fazer a este grande autor, que cavou o seu espaço na literatura brasileira através de um ofício ingrato — feito raro, — basta dizer que é um verdadeiro prazer percorrer sua obra aforística, certamente entre as melhores do gênero que possuímos. Conhecendo-a, percebe-se que uma profissão pode ser sempre transformada pela criatividade, e que mesmo para aqueles que têm de se valer de uma matéria-prima essencialmente transitória, como ocorre com jornalistas, há espaço para que se produza um resultado imortal. Fácil não é, mas aí está a prova de que é possível fazer.
Às vezes, nas biografias, não é dado…
Às vezes, nas biografias, não é dado o devido destaque, ou não prestamos suficiente atenção nas vezes em que o biografado é ajudado, estimulado ou impulsionado por alguém que a biografia acaba por ofuscar. Vem à mente aquele anônimo tio Cunha, cuja importância na formação do pequeno Fernando Pessoa não pode ser sequer estimada, mas certamente foi benéfica e fundamental. Pessoas assim, como anjos, costumam aparecer umas poucas vezes na vida; influem de forma determinante, mas com uma sutileza que costuma se perder no tempo, frequentemente não deixando registros senão aqueles que deveriam permanecer para sempre na consciência. Cabe ao beneficiado nunca esquecê-las: nem quando, porventura, se encontrar em altitudes superiores; nem quando descair e for assaltado pelo injustificado pensamento de que esta terra está privada do bem.
O problema em se escrever uma “ode ao fútil”
O problema em se escrever uma “ode ao fútil”, como o fizeram alguns poetas, é que, a partir do momento em que o leitor se depara com um poema assim, prosseguir na leitura significa aceitar o papel de interessado nas futilidades do autor. A maioria, decerto, o aceita, e o aceita entusiasticamente, e o tal poema talvez encerre a genialidade de aproximar-se, pelas letras, de um programa de televisão. Mas ocorre o seguinte: ninguém se interessa por programas da década passada, porque todo fútil possui este atributo que o condena ao esquecimento — é, necessariamente, temporal.