O antipatriotismo, por mais que literariamente forneça material abundante, por mais que possibilite uma boa sátira, e portanto um bom livro, quase sem que o escritor tenha de se esforçar por tornar a matéria-prima interessante e convincente, por mais que pareça mais lógico que o seu contrário, traça de antemão um limite para a expressão artística — o mesmo limite que o sentimento em que se funda pode atingir. Não se pode transformá-lo em algo positivo, senão atacando as qualidades que o sustentam. Numa obra, isso significaria destruir-lhe a unidade, a essência. Convém tê-lo não mais do que como elemento periférico, dando-lhe um papel sempre secundário e cuidando não insuflá-lo a ponto de cansar — porque é isso o que faz quando toma o lugar de uma manifestação superior em vez de superar-se, algo que definitivamente não consegue fazer.
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É uma sensação revigorante…
É uma sensação revigorante, inspiradora, deliciosa esta que nos sobrevém quando um providencial dia chuvoso interrompe uma sequência de dias quentes. O frescor nos envolve e só então tomamos consciência de como a atividade vinha-se arrastando, como forçada contra a oposição ferrenha do ambiente. Agora, parece tudo estimulá-la, e é realmente um privilégio poder trabalhar sob um teto aconchegante, sentindo debelado o desconforto, enquanto a chuva cai serena do outro lado da janela…
Algo deveras divertido na literatura brasileira…
Algo deveras divertido na literatura brasileira é ver como se confrontam os regionalismos e como interagem as rivalidades entre os estados, com representações as mais diversas e sempre muito pessoais. O “paulista”, o “gaúcho”, o “mineiro”, o “baiano” são definições vagas que, no entanto, refletem experiências reais. O paulista trabalha, o gaúcho briga, o mineiro dissimula e o baiano não coincidentemente veio por último nesta enumeração. E tanto como é possível reconhecer a veracidade nas qualidades a eles atribuídas, é possível rejeitá-las por completo, de forma que em ambos os casos se estabelece um contato verdadeiro com a experiência pessoal. É mesmo interessante este campo de infindáveis e divertidíssimas ironias que hão de perdurar enquanto existir esse país.
Imaginar que tenha havido um Carpeaux…
Imaginar que tenha havido um Carpeaux antes da invenção do computador dá o que pensar. Um leitor ativo, no correr de uma década, produz uma quantidade de anotações que ultrapassa os milhares. Três, quatro décadas de estudo, portanto, equivalem a um montante que cabeça humana nenhuma é capaz de abarcar, a não ser que seja executado um trabalho constante de releitura e reorganização, que nunca cede porque sempre há velhas anotações a serem revisitadas, e sempre há novas ideias, novas conexões a serem estabelecidas a partir desta revisitação. Um computador, se utilizado com inteligência, facilita tremendamente a pesquisa: uma tarefa de uma hora, às vezes, é reduzida a minutos. Ainda assim, parece quase inalcançável a condição daqueles antigos eruditos, cujas anotações residiam enfiadas nos próprios calhamaços — algo que, hoje, faz arrepiar.