Seria sem dúvida mais proveitoso…

Seria sem dúvida mais proveitoso, em vez de se falar em “estilos” e “escolas”, classificar os escritores por tipos de motivação artística. Ocorre que, coisa curiosa, há muitos casos em que, pela obra, mal se consegue delinear o que motivou a escrever. Ou, antes, tal classificação evidenciaria que motivações trivialíssimas foram responsáveis pelo grosso daquilo que se escreveu. Em contrapartida, porém, não haveria dúvida de que um Proust pertence a uma família específica de escritores. E que Antero, Vigny, Leopardi, Unamuno, são todos, em seus países, representativos de uma semelhante motivação. Não haveria dificuldade em demonstrar que estes últimos, pela forma artística, não quiseram senão dar a expressão mais requintada às questões que lhes pareceram fundamentais. Mas na literatura, infelizmente, nem todos são movidos por motivações tão simples e de tão clara significação.

A literatura contemporânea carece de vida

Reclamam que a literatura contemporânea carece de vida, e que parece um castelo de palavras e ideias vazias. Ora, mas isso é o resultado prático e previsível daquela ideia de Saussure, segundo a qual o sentido de uma palavra não é senão a diferença entre ela e todas as outras. Eu mesmo, se penso um bocado nesta linguística moderna, sinto-me lentamente deixando de ser homem e virando palavra. Com tamanho avanço na nova ciência, imagino que, após uma pós-graduação em linguística, o sujeito já deve se tornar apto a enxergar o seu nome em vez de sua cara num espelho. Nada há de que se espantar.

Há acadêmicos que não consideram…

Há acadêmicos que não consideram Farias Brito filósofo; há literatos que consideram Lima Barreto escritor menor. E, no entanto, é possível ler a obra de ambos com lágrimas nos olhos. Isolados os textos, tornados objetos de análise técnico-estrutural, desaparece grande parte de sua significação. Devia ser um tanto óbvio, mas há sempre aqueles que ignoram a dimensão que a pessoa do autor pode dar à sua obra. Talvez seja consequência da modernidade. E o resultado é muito simples: é ignorá-lo e não haverá capacidade de discernir o sincero do dissimulado, a autenticidade da afetação; o texto não passará de um amontoado de palavras; a profundidade do discurso nunca se poderá captar. Não haverá diferença, afinal, entre ler uma história em quadrinhos e ler um Osamu Dazai.

A melhor ferramenta de autopromoção literária…

Muito frequentemente, a melhor ferramenta de autopromoção literária é a crítica. E muito frequentemente, tal crítica acaba descaindo em maledicência simples. Os exemplos são infinitos. O autor, às vezes futuro autor, começa a carreira contrapondo-se ao modelo que desgosta. Censura, reprova, enumera defeitos, desabona. O alvo, geralmente morto, não o responde. E fica por isso mesmo. Se, por um lado, o crítico acaba amadurecendo as próprias ideias com a crítica; por outro, não evita que dela brote um sentimento ruim. Tempo depois, há de pensar: aquilo era mesmo necessário? E ocorre que, em literatura, os estilos, os temas, as possibilidades são tão variados que é muito fácil não gostar de algo, quando confrontado com aquela outra intensíssima identificação. Justifica, pois, que um escritor se dedique a atacar outro escritor? Sem dúvida, mas apenas quando a mera preferência é suplantada pelo sentimento de traição à vocação.