Embora o trabalho dos críticos seja de grande serventia ao estudante, que tem de definir uma rota de estudos, e tem de encontrar uma maneira de selecionar, desconhecendo-as, as obras que mais lhe convêm, é sem dúvida melhor entrar numa obra ignorando-se o que dela disseram, e deixar que ela cause, numa relação travada entre autor e leitor, a sua impressão. Depois, a crítica, que será melhor compreendida, e talvez estimulará leitura adicional. Ocorre, porém, que não é possível, e nem conveniente fazê-lo sempre, uma vez que, antes de tudo, é preciso definir o que ler. Então é preciso lidar com a sensação desagradável de, durante a leitura, pedir que se afastem da mente os julgamentos já conhecidos que ficarão insistindo em aparecer.
Categoria: Notas
Estes dias em que se acorda…
Estes dias em que se acorda, intempestivamente, com um impulso louco por tudo compreender a respeito de si… E então revirar arquivos, livros, memórias e anotações; buscar desesperadamente por novas fontes, forçar lampejos daquilo que não se percebeu. Durante o processo, reaparecem em mente aquelas certezas esquecidas, amiúde como se fossem novas, mas que já foram objeto de reflexão. São dias bons, esses… Mas o conhecimento que se tem a respeito de si, conquanto possa conectar e dar sentido ao passado, conquanto possa orientar o futuro, reafirmar votos, relembrar decisões, nada pode contra esta gigantesca zona desconhecida, que deixa a existência inteira em aberto, para ser devidamente compreendida apenas quando já não se existir.
Ah, recordações!… É mesmo algo indescritível…
Ah, recordações!… É mesmo algo indescritível brincar de revivê-las, experimentando mentalmente aquilo que não se pôde viver. Dizer o que não se teve coragem, estender um momento que o acaso interrompeu… E então ficar a refletir no que poderia ter sucedido. É verdade: o mais das vezes, nada extraordinário, e o exercício não passa de uma brincadeira imaginativa. Extrai-se dele algum prazer; mas, afinal, conclui-se ter ocorrido o que havia de ocorrer.
Muito impressiona nas pessoas humildes…
Muito impressiona nas pessoas humildes esta habilidade, decerto forjada pela necessidade, de simplesmente viver o presente, deixando que o mais suceda como tiver de suceder. Parecem saber que de nada adianta se preocupar, e não ser inteligente fritar os nervos por problemas hipotéticos, às vezes infundados e às vezes sem solução. Vivem o agora, desfrutando ou sofrendo, mas experimentando aquilo que efetivamente é. Não deixa de ser irônico ter de estudar pilhas e pilhas de livros para chegar a essa solução tão natural.