É uma pena que o homem não possua…

É uma pena que o homem não possua um instinto de preservação que o encoraje a cortar a própria língua antes que se degrade irremediavelmente na difamação. Há casos em que, se tal instinto existisse, a biografia seria outra. É preciso pensar muito bem antes de ceder a esse impulso terrível, que mais cega quanto mais parece justo. Em geral, melhor se difama aquele que melhor se conhece, e a melhor maneira de se conhecer é travar intimidade, a qual muito dificilmente se dá desprovida de algum grau de gentileza, de cordialidade mútua, pelo qual se deve agradecer. Logo se vê onde tudo isso desagua: não há manifestação mais desprezível do que a ingratidão.

Os últimos séculos tornaram obrigatório…

Os últimos séculos tornaram obrigatório o perguntarmo-nos, antes de abrir um livro de história, quem a conta e sob qual ponto de vista o faz. Isso porque parece ter-se tornado uma espécie de vício ou passatempo irresistível a transformação de heróis em vilões e vilões em heróis. Lamentavelmente, tal hábito só costumamos adquirir após a constatação de termos sido enganados. Por outro lado, contudo, o avanço impressionante da historiografia é um acontecimento demasiado feliz, e podemos confiar que aqueles que nos enganaram, ou tentaram nos enganar, assinaram um contrato desvantajoso: apostaram na mentira contra o tempo; hão de ser desmascarados e permanecerão humilhados para todo o sempre, sem possibilidade de reparação.

O antipatriotismo, por mais que literariamente…

O antipatriotismo, por mais que literariamente forneça material abundante, por mais que possibilite uma boa sátira, e portanto um bom livro, quase sem que o escritor tenha de se esforçar por tornar a matéria-prima interessante e convincente, por mais que pareça mais lógico que o seu contrário, traça de antemão um limite para a expressão artística — o mesmo limite que o sentimento em que se funda pode atingir. Não se pode transformá-lo em algo positivo, senão atacando as qualidades que o sustentam. Numa obra, isso significaria destruir-lhe a unidade, a essência. Convém tê-lo não mais do que como elemento periférico, dando-lhe um papel sempre secundário e cuidando não insuflá-lo a ponto de cansar — porque é isso o que faz quando toma o lugar de uma manifestação superior em vez de superar-se, algo que definitivamente não consegue fazer.

É compreensível a agitação, o inconformismo…

É compreensível a agitação, o inconformismo daquele que se sente supinamente ignorado, desmerecido ou injustiçado. Mas acontece o seguinte: é quase sempre inútil, e não costuma causar boa impressão aquele que faz o papel de advogado ou propagandista de si mesmo. Não vence a tal injustiça, e pode fortalecê-la com a pecha de vaidoso. Aquela é prato que se deve mastigar em silêncio, sem reclamar do excesso de sal. É preciso engoli-la sem perturbar-se, como quem aceita o destino, e satisfazer-se da não perturbação. Porque, afinal, o mundo nunca foi juiz confiável, e não se deve buscar nele nenhum tipo de orientação.