Presenciar um único destes momentos…

Presenciar um único destes momentos de “coincidências significativas”, ou “sincronicidade”, para usar a terminologia de Jung, mais do que justifica o estudo do esoterismo inteiro, desde as teorias mais obscuras aos mais exóticos sistemas de divinação. Nestes momentos, percebe-se o quão insuficiente, o quão estúpida é essa concepção cientificista moderna, que se apoia numa autoridade ridicularizada pela violência tremenda, inquestionável e inesquecível de algumas experiências. É presenciá-lo uma única vez, e já se torna difícil interessar-se por qualquer coisa “científica” — cai por terra o sagrado do adjetivo. Então, o verdadeiro problema: imergir neste que é o território mais prolífero de picaretas. Mas não há saída: é ouvi-los, talvez ludibriar-se, e descobrir, no fim das contas, o que foi possível se tirar de bom.

O grosso da insatisfação nasce da vaidade

É escandalosamente óbvio que o grosso da insatisfação nasce da vaidade; e quanto mais se consegue tolher esta última, menos se experimenta a primeira. Evidente, indiscutível. Porém, costuma ser necessário um estado de desilusão completa para percebê-lo deveras. Não há desilusão sem expectativa, e não há insatisfação sem vaidade. Alimentar este vício é erro grave, porque ele jamais provoca algo de bom. Para aniquilá-lo, às vezes é preciso romper vínculos, cortar raízes; mas o esforço é compensador. Então se pode concluir praticamente que toda insatisfação é sem fundamento, e que a vida é muito melhor quando se rejeita o hábito de reclamar.

É mesmo uma maravilha que Cioran…

É mesmo uma maravilha que Cioran tenha-se mudado para Paris, tenha deliberado viver sem jamais exercer uma profissão, e tenha conseguido! Só de pensar neste sucesso, as ideias vêm… É curioso: parece que algo sempre ocorre em socorro de toda decisão radical desse tipo. Ao menos, é essa a sensação que parece brotar da leitura de inúmeras biografias. Alguém certamente objetará: “Esses, naturalmente, são os que sobreviveram para contar história”. Mas há muitos! Vão aos extremos da angústia e, quando sentem a circunstância insuportável, quando preferem morrer a prolongá-la, assumem o risco, deliberam o impossível, se comprometem a jamais ceder. E, por fim, as coisas acontecem. Ah, ideias!…

A injustiça é uma oportunidade

A injustiça é uma oportunidade. Quando ocorre, há uma gama de reações possíveis. As mais comuns são as mais naturais, e variam da tristeza, do desalento, à indignação. São manifestações compreensíveis, porém irrefletidas. Não impressionam, nem engrandecem. A injustiça, porém, enseja o crescimento pessoal, enseja não somente o não se deixar afetar por ela, o dominá-la, mas também o exercício da mais autêntica compaixão. Nestes momentos, é possível elevar-se acima da natureza, é possível ser grande e perdoar. E, realmente, poucas imagens marcam tanto quanto aquela do injustiçado que, maduro e compassivo, superou a injustiça sem guardar rancor.