De início, é descobrir-se agente…

De início, é descobrir-se agente, é levar ao limite as próprias capacidades, até que se possa senti-las esgotadas, insuficientes. Então, é reconhecer a impossibilidade de apoiar-se tão somente nelas, e a necessidade de amparo maior. Tal amparo é possível! Mas o homem, para percebê-lo, costuma ter de, primeiro, fracassar. É quando o mundo desaba, é quando o esforço parece inútil e o anseio impossível que o homem se capacita a perceber quão erroneamente é capaz de julgar.

As longas esperas são sempre mais ou menos penosas

As longas esperas são sempre mais ou menos penosas, porque desviam o foco daquilo que se espera para a atual privação. Contudo, acostumam aos estorvos, e à força ensinam a mirá-los sem desesperar. Obviamente, tal lição é pouco grata e, se fosse possível, não seria tomada por ninguém. Quando, porém, o tempo passa, quando a sorte permite e enfim acaba a espera, pode-se fazer um juízo diferente. E então se percebe que, sem ela, o estado precedente se apagaria na memória, e com ele a noção exata da verdadeira graça psicológica em que consiste o estado atual.

O sujeito gosta de café. Por anos…

O sujeito gosta de café. Por anos, por uma vida inteira, toma-o todas as manhãs e sente prazer. Agrada-o o golpe quente na língua, o sabor que permanece na boca, o estímulo mental evidente, do qual depende para trabalhar. Crê-se apreciador da bebida, como crê nos efeitos benéficos reais que ela traz ao seu cotidiano. Em suma: o café o deixa feliz. Então chega o dia em que prova um café de qualidade superior, que lhe deixa o paladar extasiado. Quando retorna ao velho café que bebia, percebe claramente tratar-se de lixo. Investiga a respeito e descobre tratar-se de lixo deveras, no qual o café real, mas em grãos de pior qualidade, é misturado às impurezas mais variadas, entre elas algumas inomináveis, e o todo é torrado além da conta para que lhe sejam mascarados os defeitos. Deste dia em diante, o mesmo café, a bebida tão apreciada que lhe deu prazer por toda a vida, nunca mais o satisfará. E a filosofia, como o faz sempre, escancara a pergunta: vale a pena o conhecimento?

As artes visuais possuem uma especial…

As artes visuais possuem uma especial capacidade de choque — instantâneo, inesperado — que, logo ao primeiro contato, pode produzir uma lembrança que jamais deixará a memória. É, por exemplo, o que pode acontecer com o sujeito que se coloca, pela primeira vez, diante de uma escultura de Aleijadinho. No momento em que os olhos se fixam na obra e lhe captam a dramaticidade, é como se esta os penetrasse como um raio; há um susto, e tal instante de perplexidade se grava para sempre na mente. Depois, é admirar os detalhes, refletir sobre a realização impossível; mas, dali em diante, é do abalo súbito que a mente primeiro se recordará sempre que evocar o nome do gênio criador.