Uma das coisas mais belas no sistema oriental…

Uma das coisas mais belas no sistema oriental de mestre e discípulo, pelo qual o conhecimento vai transmitido individualmente numa linha sucessória que remonta a tempos imemoriais, é isto de o mestre sobreviver e viver no discípulo, sem anular-se e sem se sobrepor à personalidade do discípulo. Vamos lendo as histórias, vamos nos impressionando com as realizações de todos os mestres, e parece que nunca nos dá na cabeça a ideia de compará-los, a fim de determinar qual deles foi maior. Não há rivalidade; mas há, sim, uma tradição que vive em todos eles, e continua se manifestando sob novas formas, em resposta a circunstâncias específicas, através de atos individuais.

Ensinar é, decerto, uma atividade muito prazerosa…

Ensinar é, decerto, uma atividade muito prazerosa, às vezes mais do que o próprio aprender. Contudo, é fácil torná-la frustrante: basta que o professor crie expectativas, ou melhor, basta que tente forçar o aprendizado. Leva um tempo para entendê-lo, e só então se pode desenvolver a resposta devida, que se resume a uma disposição sempre aberta, sempre bem-intencionada, mas que espera pelo sinal positivo antes de agir. Pacientemente, aguarda que o interesse se manifeste e, sabendo que tanto este como o resultado de seu ensinamento estão além do que controla, pode enfim desfrutar a experiência de ajudar.

Através da aparência fenomênica…

Através da aparência fenomênica dos livros de Kant, aprende-se que só é possível ter uma opinião sobre a aparência fenomênica de Kant, uma vez que o Kant em si não pode ser conhecido. Igualmente, a filosofia de Kant não pode ter senão sua aparência fenomênica apreendida, tal como um cachorro, uma geladeira ou uma equação. Agora, acontece o seguinte: a partir do momento em que se aceita esse preceito, tudo se justifica, salvo o estudo e, finalmente, a vida. É incrível como tenha podido haver exércitos de kantianos que viveram como homens comuns, isto é, que aceitaram essa fantasmagoria e permitiram-se uma morte natural. Em verdade, para isso só parece haver uma explicação, um tanto desabonadora para a filosofia de Kant.

O sofrimento é a experiência humana por excelência

Por mais que se queira evitá-lo, o sofrimento é a experiência humana por excelência, que universaliza as palavras de Buda a Jesus Cristo, a música de Beethoven e os poemas de Camões. Não se é humano sem ele; sentir é sofrer. No fim das contas, a reflexão acaba demonstrando-lhe o valor. E disso brota algo bom, como já dito pelo enorme e irretocável Louis Lavelle. Graças ao sofrimento, somos compreensíveis e podemos compreender.