Apesar de já terem-no dito muitas e muitas vezes…

Apesar de já terem-no dito muitas e muitas vezes, é preciso repisar a mesma verdade, sabendo que ela continuará ignorada pela maioria: a intuição precede, e independe de sua expressão verbal. É preciso dizê-lo sempre porque sempre se encontram exemplos daquele que sabe, mas não consegue explicar o que sabe; e não saber explicá-lo, ou não conseguir explicá-lo de forma satisfatória, não quer dizer que não saiba. Em verdade, muitas vezes o problema está menos na explicação do que no interlocutor. Mas é indiferente: percebe-o apenas aquele que, ao menos uma vez na vida, obteve uma compreensão súbita de qualquer coisa, uma compreensão instantânea e confiável, que permitiu julgar e decidir com acerto, mas cujas bases escaparam à racionalização. Quem nunca a experimentou, ou não reparou experimentá-la, faz bem tendo ciência desta possibilidade, para que não erre tomando o conhecimento pela capacidade de explicar.

Os velórios ensinam que o sucesso morre…

Os velórios ensinam que o sucesso morre antes da memória, e que, mesmo em vida, são muito diferentes os graus de satisfação que se pode obter. Num velório, diante da carne exaurida, revelam-se ainda vivas as marcas deixadas pelo falecido na mente de quem o conheceu. E se percebe, havendo velórios distintos, haver o cultivo, e o desfrute, de distintos bens. A morte apenas escancara o gratificante que houve, se duradouro ou perecível, se egoísta ou compartilhado, se as marcas deixadas foram boas ou foram más. O falecido, como diz o verso de Mallarmé, converte-se no que é; e é por esta forma final que se pode avaliar o sucesso e a validade da convergência simultânea de tudo aquilo que se passou a vida a colecionar.

Uma das coisas mais belas no sistema oriental…

Uma das coisas mais belas no sistema oriental de mestre e discípulo, pelo qual o conhecimento vai transmitido individualmente numa linha sucessória que remonta a tempos imemoriais, é isto de o mestre sobreviver e viver no discípulo, sem anular-se e sem se sobrepor à personalidade do discípulo. Vamos lendo as histórias, vamos nos impressionando com as realizações de todos os mestres, e parece que nunca nos dá na cabeça a ideia de compará-los, a fim de determinar qual deles foi maior. Não há rivalidade; mas há, sim, uma tradição que vive em todos eles, e continua se manifestando sob novas formas, em resposta a circunstâncias específicas, através de atos individuais.

Ensinar é, decerto, uma atividade muito prazerosa…

Ensinar é, decerto, uma atividade muito prazerosa, às vezes mais do que o próprio aprender. Contudo, é fácil torná-la frustrante: basta que o professor crie expectativas, ou melhor, basta que tente forçar o aprendizado. Leva um tempo para entendê-lo, e só então se pode desenvolver a resposta devida, que se resume a uma disposição sempre aberta, sempre bem-intencionada, mas que espera pelo sinal positivo antes de agir. Pacientemente, aguarda que o interesse se manifeste e, sabendo que tanto este como o resultado de seu ensinamento estão além do que controla, pode enfim desfrutar a experiência de ajudar.