É preciso sobretudo banir a possibilidade…

É preciso sobretudo banir a possibilidade do desespero, e blindar-se de antemão contra essa armadilha indesejável e potencialmente fatal. E então aprender a lidar com a culpa, com a morte, com o desânimo, com o sofrimento, buscando sempre tirar deles algo de bom. O infortúnio, já se disse, costuma vir acompanhado; mas também abre uma porta, e será sempre assim.

Será fatalmente um estranho aquele…

Será fatalmente um estranho aquele que não possuir o desejo de concordância, nem mover-se para provar o erro nos outros e a correção em si mesmo. Um sujeito assim nunca se adaptará a nenhum meio, embora possa participar superficialmente de qualquer um. A identificação, porém, é-lhe impossível, e ninguém será capaz de ver nele uma natureza afim. Tais impulsos são componentes das relações humanas normais: unem e separam, mas afinal classificam; não tê-los é como blindar-se de qualquer conexão.

É muito difícil imaginar um ateu…

É muito difícil imaginar um ateu que tenha sido tão infeliz a ponto de jamais, em toda a sua vida, ter se deparado com um exemplo de virtude modelar. Porque, sem dúvida, uma coisa é um ato isolado, e outra bem diferente é ter a virtude de tal forma entranhada na própria natureza que o ato sai frequente, espontâneo, irrefletido. E, se há algo que a experiência demonstra, é que tais naturezas estão sempre vinculadas à religião. Daí que o ateu, se tem alguma sinceridade, é forçado a se questionar se a religião não determina, em alguma medida, a capacidade de exemplificar a virtude através da personalidade. E se admite que gostaria de possuir ao menos um pouco daquilo que sobeja nos exemplos, passará por uma crise existencial. Infelizmente, por mais que queira, não conseguirá alterar as lições que a experiência lhe forneceu.

É decerto necessário enxergar…

É decerto necessário enxergar, ou pelo menos tentar enxergar a existência como um roteiro que vai sendo escrito em capítulos carregados de sentido, relacionados a um todo cuja significação última só se pode conjeturar. Contudo, com fazê-lo rapidamente se verá que o roteiro planejado não sai conforme o plano, e que apenas se consegue, com sorte, preservar-lhe um pouco da diretriz. E aí que se tem de aceitar, a contragosto, toda sorte de obstáculos e desvios que podem parecer ilógicos, inúteis, não mais que desagradáveis. Com eles, porém, aprende-se a ter humildade e paciência. E tais virtudes, quando frutificam após décadas de prática, infundem a certeza de que nunca houve razão para praguejar.