Visto que a maior parte do tempo é sempre dedicada a coisas de pouca monta, deveria ser mais simples convencer a mente da necessidade de tentar dotá-las de significado. Quem dera! O que ocorre mais frequentemente é vê-las todas como estorvos, como tolices sem tamanho que corroem o tempo e a motivação. Em suma, a verdadeira existência parece se limitar a uns raros momentos em que a razão capta a importância daquilo que se faz — e isso, decerto, não é tolerável que permaneça assim.
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É preciso sobretudo banir a possibilidade…
É preciso sobretudo banir a possibilidade do desespero, e blindar-se de antemão contra essa armadilha indesejável e potencialmente fatal. E então aprender a lidar com a culpa, com a morte, com o desânimo, com o sofrimento, buscando sempre tirar deles algo de bom. O infortúnio, já se disse, costuma vir acompanhado; mas também abre uma porta, e será sempre assim.
Será fatalmente um estranho aquele…
Será fatalmente um estranho aquele que não possuir o desejo de concordância, nem mover-se para provar o erro nos outros e a correção em si mesmo. Um sujeito assim nunca se adaptará a nenhum meio, embora possa participar superficialmente de qualquer um. A identificação, porém, é-lhe impossível, e ninguém será capaz de ver nele uma natureza afim. Tais impulsos são componentes das relações humanas normais: unem e separam, mas afinal classificam; não tê-los é como blindar-se de qualquer conexão.
É muito difícil imaginar um ateu…
É muito difícil imaginar um ateu que tenha sido tão infeliz a ponto de jamais, em toda a sua vida, ter se deparado com um exemplo de virtude modelar. Porque, sem dúvida, uma coisa é um ato isolado, e outra bem diferente é ter a virtude de tal forma entranhada na própria natureza que o ato sai frequente, espontâneo, irrefletido. E, se há algo que a experiência demonstra, é que tais naturezas estão sempre vinculadas à religião. Daí que o ateu, se tem alguma sinceridade, é forçado a se questionar se a religião não determina, em alguma medida, a capacidade de exemplificar a virtude através da personalidade. E se admite que gostaria de possuir ao menos um pouco daquilo que sobeja nos exemplos, passará por uma crise existencial. Infelizmente, por mais que queira, não conseguirá alterar as lições que a experiência lhe forneceu.