É atribuída a Churchill a famosa afirmação de que o sucesso é pular de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo. É uma frase bonita e profunda; em certa medida, até verdadeira, tal como aquela outra, segundo a qual para ter sucesso, basta não desistir. Ocorre, porém, o seguinte: o fracasso é uma experiência fundamental e engrandecedora; lidar com ele repetidas vezes transforma o caráter, amadurece. Mas a assimilação desta, como de outras experiências, é um ato consciente: é preciso deixar-se transformar por ela, e passar a agir em conformidade com a transformação. Assim, a experiência adquire sentido, torna-se útil, e cada fracasso fica para trás como um degrau de uma escada. Nem todos, infelizmente, incorporam-na assim. Há quem não aprenda com os fracassos, cuja vida se resuma a um ciclo em que os mesmos erros são seguidos das mesmas consequências, numa repetição degradante, que vai destruindo o que há em redor. No lugar da perseverança, tem-se a teimosia, e o resultado é muito triste de se ver…
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A arte da vida é fazer dela conscientemente…
É preciso repetir ao infinito: a arte da vida é fazer dela conscientemente um processo transformativo no qual o sujeito se converte naquilo que tenciona ser. Para tanto, é necessário, primeiro, visualizar, depois, deliberar e, por fim, manter-se fiel ao plano de ação. É claro que jamais haverá uma execução perfeita, e o natural é que tudo contribua para que o plano não se realize. O natural é que, após assumido o voto, brotem obstáculos inumeráveis, manifestados de contínuo de onde jamais se esperou. E o natural é que muitas vezes se tropece, se caia, se traia aquele desígnio inicial. Mas é precisamente diante das dificuldades que ele se realiza, é precisamente em carregá-lo a despeito de tudo e, ainda que ciente das falhas e dificuldades, em não desistir.
Não é difícil perceber o que está em conformidade…
Não é difícil perceber o que está em conformidade ou contraria a própria natureza; difícil é deliberar não contrariá-la, e agir em conformidade com esta deliberação. O diabo está sempre à espreita; a vontade sempre ameaçada de trair-se. E embora, às vezes, tudo pareça muito claro, ninguém melhor que nós mesmos para nos convencer da pouca monta da falha iminente. Para cometê-la, basta deixar-se levar, algo que também facilmente queremos isento de culpa, mas que, afinal, sabemos não ser. A inércia é sempre leve, mas não conduz aonde se pode orgulhar de chegar.
Com um pouco de maturidade, absorve-se…
Com um pouco de maturidade, absorve-se facilmente a ofensa, o agravo, o infortúnio; não a culpa. Quando o homem, contra a sua vontade, tem de amargar o travo da vida, até pode gemer inicialmente, sentir o dano sofrido, a perda, a infelicidade; mas tudo isso se dissolve no tempo quando a responsabilidade recai sobre um agente exterior. O sofrimento, portanto, não tortura nem cria raízes. Algo muito diferente se passa quando ele se sabe responsável pelo dano, mormente se este não fez apenas uma vítima. Aqui, já não é possível confortar-se na aceitação de algo que não pôde controlar: o erro marca, menos por expor a natureza imperfeita do que por concretizá-lo autor da obra indesejada — para sempre. Não se pode aceitá-lo porque, diferentemente do outro caso, esta obra diz algo sobre a sua individualidade que não é possível suprimir ou evitar.