É engraçado notar como são raras na prática

É engraçado notar como são raras na prática, e frequentíssimas no pensamento, as histórias de redenção. Isto é, o espírito inclinado ao sonho tende a imaginar semelhante arco para a sua vida, sem refletir se ele seria desejável ou, antes, se ele tem efeito prático benéfico. Porque o sonho, se não se realiza, ainda assim influi. Toda uma vida à espera deste grande momento! E, simultaneamente, toda uma vida perdida em sonhar… Há melhores enredos; mais modestos. Mas tal ambiguidade evidencia a complexidade da psicologia humana. A visualização é necessária, direciona o ato criador. Mas é preciso radicá-lo e radicar-se enquanto se vive, não se permitindo perder-se no ar. Resta, então, a realidade diária, sempre menos grandiosa do que se gostaria, mas na qual se pode escrever um enredo real.

Têm de ser gratos aqueles que desfrutam…

Têm de ser gratos aqueles que desfrutam de influências positivas que, quando não querem, ou não esperam, os atraem, lhes melhoram os dias e lhes causam um inesperado sentimento bom. Em contrapartida, nunca é excessivo o cuidado que devem ter aqueles que têm de lidar com influências opostas. Ceder a elas é, frequentemente, permitir-se arrastar a um abismo onde, num momento de descontrole, pode-se errar. Nunca se está tão distante da angústia quanto se imagina… E, afinal, quando se conhece com exatidão o fundo das coisas, pesa o fardo de que o desespero experimentado, em verdade, é resultado menos de influências do que de decisões.

Em verdade, a recomendação de assumir-se…

Em verdade, a recomendação de assumir-se, de definir o curso da própria vida e, através de escolhas conscientes, concretizar um plano deliberado, só serve para um tipo específico de personalidade, que possui uma predisposição não muito comum. Parece loucura notá-lo; afinal, quem é que não deseja viver a vida que escolheu? Contudo, assim são as coisas: há outro tipo de pessoas, mais comum, que não o deseja; e o que anseia é simplesmente corresponder a uma vida planejada pelos outros, ou melhor, pelo consenso — e a satisfação, para este tipo, é desfrutar de aceitação. Nada há que se lamentar ou criticar. Para ambos, há uma fórmula que conduz à satisfação sincera — e, portanto, a boa recomendação será sempre aquela que melhor se adaptar às necessidades individuais.

A única disposição justificável para aquele…

A única disposição justificável para aquele que se dedica a acompanhar algum esporte é o entusiasmo exaltado, irrefletido, irracional. Assim, extrai-se o melhor do entretenimento que, de qualquer esporte, é a qualidade medular. Do contrário, o tempo dedicado não se justifica. Ora, o brasileiro de que falava Nelson Rodrigues, obsessivo e desconfiante, é um contrassenso. Um bom conselheiro haveria de recomendá-lo deixar de ser besta ou procurar outra ocupação. O problema é menos sofrer diante da televisão ou acordar de mau humor por causa de um jogo, mas usar o passatempo como combustível para sentimentos ruins. Menosprezar de praxe o time para que torce, enaltecer de praxe o time rival: o sujeito que assim procede está no nível mais baixo da escala evolutiva. Se é para empregar o tempo nisto, que seja com sabedoria! E sabedoria, em futebol, é o otimismo efusivo, a confiança louca e contagiante, o enaltecimento supremo da razão desse orgulho artificial!