É preciso repetir ao infinito: a arte da vida é fazer dela conscientemente um processo transformativo no qual o sujeito se converte naquilo que tenciona ser. Para tanto, é necessário, primeiro, visualizar, depois, deliberar e, por fim, manter-se fiel ao plano de ação. É claro que jamais haverá uma execução perfeita, e o natural é que tudo contribua para que o plano não se realize. O natural é que, após assumido o voto, brotem obstáculos inumeráveis, manifestados de contínuo de onde jamais se esperou. E o natural é que muitas vezes se tropece, se caia, se traia aquele desígnio inicial. Mas é precisamente diante das dificuldades que ele se realiza, é precisamente em carregá-lo a despeito de tudo e, ainda que ciente das falhas e dificuldades, em não desistir.
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Não é difícil perceber o que está em conformidade…
Não é difícil perceber o que está em conformidade ou contraria a própria natureza; difícil é deliberar não contrariá-la, e agir em conformidade com esta deliberação. O diabo está sempre à espreita; a vontade sempre ameaçada de trair-se. E embora, às vezes, tudo pareça muito claro, ninguém melhor que nós mesmos para nos convencer da pouca monta da falha iminente. Para cometê-la, basta deixar-se levar, algo que também facilmente queremos isento de culpa, mas que, afinal, sabemos não ser. A inércia é sempre leve, mas não conduz aonde se pode orgulhar de chegar.
Com um pouco de maturidade, absorve-se…
Com um pouco de maturidade, absorve-se facilmente a ofensa, o agravo, o infortúnio; não a culpa. Quando o homem, contra a sua vontade, tem de amargar o travo da vida, até pode gemer inicialmente, sentir o dano sofrido, a perda, a infelicidade; mas tudo isso se dissolve no tempo quando a responsabilidade recai sobre um agente exterior. O sofrimento, portanto, não tortura nem cria raízes. Algo muito diferente se passa quando ele se sabe responsável pelo dano, mormente se este não fez apenas uma vítima. Aqui, já não é possível confortar-se na aceitação de algo que não pôde controlar: o erro marca, menos por expor a natureza imperfeita do que por concretizá-lo autor da obra indesejada — para sempre. Não se pode aceitá-lo porque, diferentemente do outro caso, esta obra diz algo sobre a sua individualidade que não é possível suprimir ou evitar.
É dificílima a arte de proteger as boas relações…
Travá-las, nem tanto; mas é dificílima a arte de proteger as boas relações. Em verdade, a despeito de evidentemente haver níveis diferentes, não é preciso quase nada para que se estabeleçam. Um pouco de boa vontade, um pouco de cortesia, e elas se dão. Preservá-las neste nível saudável, contudo, exige sabedoria; especialmente para com aquelas que se mostram mais promissoras, mais autênticas e mais benéficas. A distância as aniquila, a proximidade também. Sem equilíbrio, entra em cena o assunto vulgar; e aí já não se pode evitar o pior. Antes vê-las definhar pela ausência, preservando-lhes a memória, do que testemunhar a infelicidade da deterioração!