Estes dias em que se acorda…

Estes dias em que se acorda, intempestivamente, com um impulso louco por tudo compreender a respeito de si… E então revirar arquivos, livros, memórias e anotações; buscar desesperadamente por novas fontes, forçar lampejos daquilo que não se percebeu. Durante o processo, reaparecem em mente aquelas certezas esquecidas, amiúde como se fossem novas, mas que já foram objeto de reflexão. São dias bons, esses… Mas o conhecimento que se tem a respeito de si, conquanto possa conectar e dar sentido ao passado, conquanto possa orientar o futuro, reafirmar votos, relembrar decisões, nada pode contra esta gigantesca zona desconhecida, que deixa a existência inteira em aberto, para ser devidamente compreendida apenas quando já não se existir.

Muito impressiona nas pessoas humildes…

Muito impressiona nas pessoas humildes esta habilidade, decerto forjada pela necessidade, de simplesmente viver o presente, deixando que o mais suceda como tiver de suceder. Parecem saber que de nada adianta se preocupar, e não ser inteligente fritar os nervos por problemas hipotéticos, às vezes infundados e às vezes sem solução. Vivem o agora, desfrutando ou sofrendo, mas experimentando aquilo que efetivamente é. Não deixa de ser irônico ter de estudar pilhas e pilhas de livros para chegar a essa solução tão natural.

O computador foi uma invenção magnífica

O computador foi uma invenção magnífica; o telefone, não. Este matou as cartas, instrumento muito mais útil, muito mais refinado de comunicação. As cartas exigiam que se refletisse naquilo que se ia comunicar ao destinatário; o telefone, tornando a comunicação instantânea, tornou-a também irrefletida, e afinal vulgarizou completamente as relações. Como má invenção que foi, evoluiu para outra pior: o celular. Deste cidadão, que fique desde já proclamado que quaisquer qualidades que porventura possua são nada perante os malefícios terríveis que realizou. Já é preciso estabelecer uma nova definição para o ser humano que malgasta horas de seu dia com a cara enfiada nesse bicho, não apenas queimando o tempo, mas danificando continuamente as suas funções cerebrais. No futuro, não há dúvida de que esse entorpecente será exibido ao lado dos instrumento de lobotomia nos museus.

O maior benefício da civilização ao homem…

O maior benefício da civilização ao homem talvez tenha sido possibilitar um planejamento muito mais abrangente e muito mais preciso, tornando possível não somente a prevenção contra adversidades, mas também o projetar-se no futuro com alguma segurança, calculando condições a serem vivenciadas a depender do que fizer. Projetar-se, prevenir-se: tais verbos se lhe entranharam na psique, tomando boa parte do espaço antes ocupado por outros de consequência imediata. Já se vê aonde tudo isso conduz. O homem de hoje vive, em medida muito maior, o futuro; e vive menos o presente, quer por menor necessidade, quer por menor disposição. E aqui, evidentemente, reside um problema, que faz com que seja dificílimo compreender o sentido daquilo que os sábios indianos estão há séculos a repetir.