É uma pena que o homem não possua um instinto de preservação que o encoraje a cortar a própria língua antes que se degrade irremediavelmente na difamação. Há casos em que, se tal instinto existisse, a biografia seria outra. É preciso pensar muito bem antes de ceder a esse impulso terrível, que mais cega quanto mais parece justo. Em geral, melhor se difama aquele que melhor se conhece, e a melhor maneira de se conhecer é travar intimidade, a qual muito dificilmente se dá desprovida de algum grau de gentileza, de cordialidade mútua, pelo qual se deve agradecer. Logo se vê onde tudo isso desagua: não há manifestação mais desprezível do que a ingratidão.
Tag: comportamento
É compreensível a agitação, o inconformismo…
É compreensível a agitação, o inconformismo daquele que se sente supinamente ignorado, desmerecido ou injustiçado. Mas acontece o seguinte: é quase sempre inútil, e não costuma causar boa impressão aquele que faz o papel de advogado ou propagandista de si mesmo. Não vence a tal injustiça, e pode fortalecê-la com a pecha de vaidoso. Aquela é prato que se deve mastigar em silêncio, sem reclamar do excesso de sal. É preciso engoli-la sem perturbar-se, como quem aceita o destino, e satisfazer-se da não perturbação. Porque, afinal, o mundo nunca foi juiz confiável, e não se deve buscar nele nenhum tipo de orientação.
A maior dificuldade dos jovens…
A maior dificuldade dos jovens é lidar com a necessidade de fazer algumas escolhas irrevogáveis antes de possuírem experiência de vida suficiente para assumirem tais escolhas como suas. Isso equivale a dizer que hesitam, ou simplesmente não querem assumir uma identidade antes que ela tenha se consolidado. Há, pois, um instinto realista, justificável, que não deseja dar um passo em falso. No entanto, o imperativo do mundo não o reconhece e força a tomada de ação. É indiferente reprová-lo, e a resistência é ineficaz: chega sempre o momento a partir do qual se tem de decidir, e se tem de sentir as consequências das decisões. Se não houver consolo, basta pensar em quão pior poderia ser o destino que não contasse com semelhante empurrão.
Causa inveja a memória daqueles que…
Causa inveja a memória daqueles que conseguem reconstruir mentalmente a infância, lembrando lances marcantes e acontecimentos vários com minúcias que seriam naturalmente ignoradas. E mais inveja a memória daqueles que, além do que já recordam sem esforço, esforçando-se relembram outro tanto a mais. Porque esta não é uma faculdade universal. E, ao que não a possui, ainda pior do que o vácuo, é a incerteza, isto é, a vaga lembrança de que algo ocorreu, mas sem qualquer possibilidade de certificação. Quer dizer: vem ao sujeito a ideia de ter dito, de ter pensado, de ter vivido algo, mas não consegue reconstruí-lo, não consegue sequer recordar o que precisamente disse, pensou ou viveu. Daí que pode vir-lhe em seguida esta outra ideia: se mesmo disse, pensou ou viveu o que julga tê-lo feito, então será real a ligação daquele fato longínquo com o presente; e esta, para além de inimaginável e extraordinária, pode não apenas dotar o destino de beleza, de sentido, mas afirmar uma realidade fundamental. No entanto, a memória não pode certificá-lo: a coincidência espantosa, assim, não pode assumir um valor superior ao de possibilidade. Um desperdício dificílimo de engolir!
