É curioso notar como, às vezes, é muito sutil…

É curioso notar como, às vezes, é muito sutil a diferença entre a técnica bem ou mal empregada, entre o resultado estimulante e o resultado tedioso. Em Corpo vivo, Adonias Filho intercala planos narrativos, como que desenvolvendo a história, aos poucos, no passado e no presente. À medida que o faz, vai apresentando novos personagens. O tempo inteiro, cria expectativa para uma apresentação, ou para um acontecimento, e se sacia alguma curiosidade, no mesmo ato cria uma nova, e assim vai por toda a narrativa sustentando um interesse que não cessa. Além disso, emprega o padrão estético, até visual, decorrente destas intercalações: a narrativa presente é seguida das aspas que desvelam o passado, num ritmo como que hipnotizante, o qual, se aventurado por escritores menos hábeis, resulta numa indescritível porcaria. Esse é o milagre do grande escritor: com o seu toque de mestre, torna interessante aquilo que enfastia. Imitá-lo é sempre perigoso; mas apreciá-lo, ah!, isso todos nós temos o privilégio de poder fazer.