Se releio algumas dezenas de páginas…

É inacreditável! Se releio algumas dezenas de páginas escritas por mim mesmo, em verso ou em prosa, não há uma única vez que não encontre, gritando, algum deslize, que parece-me como grafado em letras garrafais. Todas as vezes, sempre, cem por cento dos casos! Daí que, diante do absurdo, diante do fato incontestável de estar ali o lapso impossível, tenho de conjeturar que seres desconhecidos estão a vasculhar e alterar-me os escritos, mesmo depois de revisados, porque seguramente tais erros não sou capaz de cometer. E não adianta tentar consolar-me com tolas ideias de que são muitas as variáveis, que o enquadramento do texto na tela porventura me prejudique, que é o diabo essa coisa de digitar, deletar, selecionar e sobrescrever: há erros injustificáveis, indignos de perdão. Mas, graças a Deus, não posso afligir-me nem irritar-me demasiado: lembro-me sempre de Machado, redentor dos escritores brasileiros passados e futuros, que, com aquele magnífico “lhe cegara o juízo”, está eternamente disponível para me socorrer.