Um sujeito que passou a vida inteira na cidade talvez não consiga abandoná-la, senão por um processo traumático e desconfortável. Curiosamente, é nela que se sente seguro, é nela experimenta a sensação de normalidade com a qual se habituou. Se lhe contassem, porém, não acreditaria: é preciso experimentar em primeira pessoa a percepção do entorpecimento ao qual seus sentidos foram submetidos ao longo dos anos. E isso só é possível num ambiente afastado de sua querida cidade. Vem à mente aquelas velhas crônicas de europeus que, andando com índios na selva, espantavam-se de seu faro quase sobrenatural, que, em verdade, consistia numa atenção muito mais refinada aos sentidos, e que pelos sentidos demonstrava ao europeu a veracidade da intuição. Fica, assim, o questionamento de até que ponto se estendem as consequências dessa evidente desatenção urbana.