Toda a miséria do homem parece remontar à sua incapacidade de apreender com segurança a veracidade de suas percepções. Mas, se é verdade que muitas vezes capta mal, outras tantas o faz espantosamente bem. Assim que afirmações feitas na juventude — “é isto o que farei da vida”; “pertenço a este lugar”… — podem vir a confirmar-se após décadas, após o indivíduo quase trocar de nome, provando a acuidade incrível daquelas antigas percepções. O problema, pois, é ser difícil separá-las, e portanto confiar naquilo que se sente; mas decerto causa menos arrependimento enganar-se confiando que menosprezar uma realíssima e prodigiosa percepção.