Este livro é prova daquilo que disse Mário Ferreira dos Santos, de ser o romance obra de maturidade. Um jovem jamais poderia escrevê-lo: Maugham, com sete décadas de vida, demonstra-se apto a descrever o painel imenso e complexo de possibilidades que a existência oferece. É uma obra que retrata tipos e escolhas, vidas possíveis, circunstâncias, ambições e resultados. Nela aparecem manifestações humanas das mais desprezíveis às mais nobres. E aparece esse inesquecível Larry Darrell, cuja vida é interrompida pelo fim da narrativa, deixando-nos inclinados a peticionar a Deus que faça Maugham novamente vivo para terminar aquilo que começou. Contudo, um personagem assim, mesmo incompleto, faz valer um livro: é o retrato de como qualidades raras se manifestam no mundo, de como fogem ao óbvio, rejeitam o conveniente e parecem errar por uma trilha incerta e indesejável. Parecem, em suma, o fracasso. E o fracasso talvez pareça o sucesso. E não se pode enfim julgar com segurança, porque às vezes uma aparente fidelidade à própria natureza guarda no passado uma possibilidade rejeitada, talvez mais autêntica, que não pôde frutificar. Fica tudo em suspenso; a nós, porém, resta o privilégio de poder ler e reler esse romance excepcional.
