Hermann Hesse é um escritor-modelo. E pena que seja um exemplo tão raro, cujas páginas jamais fazem gastar o tempo do leitor. Ao lê-lo, experimenta-se a sensação de que o assunto abordado é sempre importante, a motivação artística é sempre verdadeira; e mesmo naqueles momentos em que o autor se permite voar para áreas mais nebulosas e incertas, como o faz em Demian, percebe-se que o intuito não é outro senão expressar artisticamente experiências reais. Por vezes, também vai por temas que não são os seus prediletos, mas são temas necessários, e que conferem à sua obra aquela importante abrangência que demonstra o autor não ter sido cego para o panorama geral da vida. Lê-lo é sempre uma grande satisfação!
Categoria: Notas
Há na mente uma antena cujo funcionamento…
Há na mente uma antena cujo funcionamento há de ser estudado, e da qual frequentemente derivam as melhores deliberações. É difícil compreendê-la porque, às vezes, as circunstâncias não bastam para lhe justificar a atuação. O caso corriqueiro é aquele em que estas permanecem as mesmas por um tempo prolongado, não raro por anos, e a antena permanece silente, sem captar ou emitir qualquer sinal. Então, subitamente, ela desperta, captando de uma só vez conexões infinitas, recomendando a ação imediata, urgente, antes mesmo que se defina aquilo que se há de fazer. Dá-se em seguida o fervedouro de ideias, e sobrepõe-se à tentativa de organizá-las a sensação de que muito tempo se perdeu. A agitação chega a doer; se é noite, não se pode dormir. Enfim, após algum punhado de horas eletrizantes, o pensamento se ordena e permite a deliberação. Que satisfação vem depois!
Traduzi, ao inglês, dezenas de contos…
Traduzi, ao inglês, dezenas de contos neste último ano. E, ao contrário do que imaginava, diverti-me no demorado trabalho, ainda que me deparando o tempo inteiro com a insuficiência da tradução. Curioso foi rir-me durante o processo, algo que contrasta fortemente com meu estado de humor ao parir aqueles textos. Lembro-me bem… Após imergir-me na criação, o sentimento que predominava era outro. Há algo indescritível que se experimenta ao parir uma obra, enquanto se enfrenta as dificuldades do trabalho. Agora, tudo aquilo passou. Posso recordá-lo e revivê-lo com um distanciamento sereno, e rir-me do resultado de tão intensa aflição.
Talvez a principal razão do ateísmo moderno…
Talvez a principal razão do ateísmo moderno seja o homem, hoje, passar a vida num ambiente controlado, alimentando uma falsa sensação de segurança, que se coloca justamente no lugar daquilo que mais lhe faz falta: a experiência do desamparo extremo, da total dependência de sua condição. Não seria difícil curá-lo da descrença: bastaria colocá-lo num barco pequeno, em mar aberto, no meio de uma tempestade, ou sozinho, à noite, em mata fechada, que ele certamente faria as pazes com a religião e retornaria da experiência transformado, recitando de cabeça um punhado de orações.