Este destacado romance é merecedor de um lugar no legado que se deve passar adiante de geração para geração, por quanto tempo exista a literatura brasileira. Ainda que se possa alegar possíveis estereótipos, a obra coloca questões seríssimas, e as desenvolve num drama vivo, com personagens convincentes inseridos num ambiente argutamente desenhado. A obra comove porque retrata um poeta na angustiante realidade brasileira, cuja mesquinharia desconhece limites. A vocação literária é-lhe, naturalmente, a definitiva impossibilidade de adaptação ao meio hostil, à qual vocação soma-se o sentimento de dever, que o força a digladiar-se pelo imediato, num conflito interior insuperável bem resumido no título da obra. Trata-se, em suma, de um homem de valor, que afinal não se deixa corromper pelas circunstâncias desfavoráveis e pela pressão constante, especialmente dentro de casa. Fica, para além da crítica social, o questionamento: vale a pena a arte? E embora não afirme, a narrativa evidencia que valer ou não a pena nunca foi a principal questão.
Categoria: Notas
Um exercício de curiosidade
Um exercício de curiosidade nos arquivos da imprensa brasileira do século passado escancara uma destruição cultural que não pode ser apenas obra dos tempos. O que de imediato se percebe é o uso do idioma: as velhas páginas evidenciam não somente o domínio do vernáculo, mas — até! — estilo. As manchetes já demonstram a radical modificação do relevante; mas é nas colunas que a real extensão do problema é percebida. Nestas, a literatura, antes abundante, desapareceu: não se acha referência a um romance, a um personagem, a um poema, a um autor; o que, noutras palavras, é demonstração de que o legado literário já não se faz presente. E se não se faz presente, convém perguntar o motivo. A resposta surge após meio segundo de reflexão: ele não aparece porque não foi absorvido e assimilado, porque não foi importante na formação dos cronistas e neles não viceja como apoio seguro para a interpretação da realidade; em suma, ele não aparece porque inexiste. Deste fato conclui-se, primeiro, que o cidadão comum que se oriente pelos jornais, talvez pela primeira vez em muito tempo, passará a vida sem tomar conhecimento do legado cultural brasileiro, a menos que recorra à literatura especializada. Em segundo lugar, o mais óbvio: são homens supinamente incultos que, hoje, escrevem para os jornais.
Tão ou mais importante que o domínio do meio
Ao artista, tão ou mais importante que o domínio do meio de expressão é o domínio da experiência, porque é em torno desta que se concentrarão os seus esforços e em função desta que se apresentará a sua obra. Antes de moldá-la, é preciso senti-la e apreendê-la o máximo possível, estando o resultado do esforço inteiramente dependente da intensidade com que se executa estas duas operações.
Para além dos abalos incontornáveis…
Para além dos abalos incontornáveis na reputação de alguns dos autores analisados, a tese que permeia este Intellectuals, de Paul Johnson, parece justificar-se de maneira convincente pela variedade de exemplos oferecidos na obra. Demonstra Johnson que todo “intelectual” que se acredita capaz e deseja reformar o mundo segundo as próprias ideias acaba, cedo ou tarde, possuído por elas, o que significa adorá-las e tê-las acima da verdade, o que significa tomar partido delas em detrimento de pessoas reais. Possuído, converte-se em monstro moral, refutando pela conduta qualquer possível nobreza contida na ideia que o dominou. Em contrapartida, também demonstra Johnson que a saída para a atração magnética das ideias não pode se dar senão pelo apreço sincero à verdade e pela consciência de que uma ideia não vale uma vida. É uma obra que, como os bons tratados moralistas, humaniza por expor a desumanização.