O mal do homem utilitário

O mal do homem utilitário é crer que tudo está necessariamente à venda, somente à espera de negociação. Daí que acaba, cedo ou tarde, quebrando a cara ao deparar-se contra a sua vontade com uma natureza que não partilha de suas convicções. Então esbraveja, trava guerra e por vezes insulta aquilo que não compreende; em todos os casos, porém, julgue-se ou não triunfante, é forçado a engolir a própria pequenez.

Nenhuma das injustiças de que Frei Vital…

Nenhuma das injustiças de que Frei Vital foi alvo durante sua breve vida parece comparável às inúmeras que, desde sua morte, são perpetradas por inumeráveis historiadores — e bons historiadores… Que dizer? De seus coevos, muito pouco: erraram e vários deles se arrependeram; erraram quase todos por defeitos menores, exageradamente amplificados pela pertinácia. Já os historiadores, como absolvê-los? O que temos, hoje, graças a um falseamento mil vezes repetido, é a imagem de um bispo desarrazoado, tomado pela impetuosidade típica da mocidade, a agir impulsiva e irrefletidamente, quando, em verdade, nos mais acirrados momentos de sua polêmica não se viu senão um homem probo, ciente de até onde um bispo pode transigir. O resto são mentiras, só plausíveis se ocultadas, como são nos livros de história, as verdadeiras circunstâncias que desencadearam esta famigerada “questão”.

Os fundamentos racionais do senso comum

Talvez a mais importante e necessária função da filosofia seja assentar os fundamentos racionais do senso comum. É preciso, de novo e de novo, percorrer os mesmos caminhos e repetir os mesmos argumentos milenares em favor da sensatez; do contrário, quão facilmente ela se dispersa! e quão lamentáveis consequências se sucedem desse dispersar! De fato, tem razão Edward Feser: todos os males morais de que padece a modernidade remontam ao distanciamento de Aristóteles, de Platão, de Aquino e dos demais pensadores que, por muitos séculos, constituíram a base do pensamento ocidental.

O Brasil imperial é marcado por um desfile…

O Brasil imperial é marcado por um desfile de personagens que, apesar de defeituosos, exibem sólidas e inegáveis virtudes. Tão numerosos os embates em que se percebe evidente, de ambos os lados conflitantes, o desejo sincero de acertar. Também numerosos os erros; mas, o que hoje impressiona, há arrependimento e retratação. Encontra-se a perfídia, encontra-se o interesse mesquinho, mas sobram exemplos de retidão e magnanimidade. Um painel, em suma, que os historiadores do presente não terão a sorte de apreciar.