É mesmo um fenômeno impressionante este de brotar sempre as antíteses do pensamento dominante, precisamente quando este se acredita soberano, acabando surpreendido com uma violência proporcional ao esforço realizado por consolidá-lo. De modo idêntico surge o gênio quando o ambiente parece torná-lo impossível. E quando vemos que, após algumas décadas, ocorre o impossível e o ínfimo suplanta o descomunal, ficamos a pensar nestas tão frequentes coincidências…
Categoria: Notas
Passam sem deixar legado…
É um fato espantoso este de que, no Brasil, os poucos grandes intelectuais, os verdadeiramente grandes, passem sem deixar legado. Talvez seja algo único a nível mundial. Em todos os países onde se pensa e se escreve, é possível traçar precursores e sucessores, é possível colocar numa linha do tempo os grandes nomes e seus influenciados, é possível, em suma, notar que um grande espírito ecoa e ecoa vistosamente após morrer. No Brasil, não. No Brasil o grande intelectual desaparece tão espetacularmente como surge. Nem um Nelson Rodrigues, de sucesso estrondoso e inédito, foi capaz de transmitir algo de si a outra cabeça pujante. Morreu como morreram os outros: enterrando consigo o gênio criador.
Os velhos tratadistas
É divertido imaginar como reagiriam os velhos e rigorosíssimos tratadistas dos séculos XVIII e XIX caso soubessem que em pouco viria à luz, sob aplausos nunca dantes testemunhados, uma poesia cuja receita resume-se a dizer tolices em versos sem métrica, sem ritmo, sem pontuação e sem maiúsculas. E imaginá-los a cotejar as tão criticadas insubmissões românticas com isto! Mas o mais curioso, e talvez demasiado patente para ser ignorado, é não ter o fenômeno se resumido à poesia, abrangendo também e a música e ainda mais escandalosamente as artes plásticas. Impôs-se o homem comum e impôs a todas as esferas as suas preferências, as suas capacidades e a sua visão de mundo. Reclamou para si todos os meios, apropriou-se do melhor posto em todas as funções. É consumada a vingança após tantos séculos de opressão!
Duas posturas básicas
Duas posturas básicas resumem o homem em sua atitude para com a vida: a de vítima e a de agente criador. Delas vemos reflexos infinitos na filosofia, na historiografia, na psicologia e na literatura. Entre ambas, não há conciliação possível, posto que o querer criar e o efetivamente criar nada tem que ver com o sucesso ou fracasso, o fato ou possibilidade, a ideia ou concretização. Tudo se resume a julgar-se paciente ou agente, a julgar sempre o que ocorreu ou como se pode reagir. Trata-se, portanto, de entrever ou não um campo de ação possível, que para alguns é tudo, e para outros inexistente. Entre ambos, mais uma vez, não há conciliação possível, especialmente porque aquele último tipo não suporta a postura do primeiro.