Se um poema é declamado sem que se respeite a pausa obrigatória no fim do verso, pausa que caracteriza o próprio discurso poético, esconde-se do ouvinte sua estrutura. Fazendo-o, é impossível que o ouvinte diferencie o verso branco do livre, e ambos da prosa. É impossível, também, que distinga um verso metrificado, e muito menos que defina em qual metro foi construído, salvo, nalguns casos, pela rima. Ignorar a pausa no fim do verso é anular o distúrbio estrutural intencional gerado por cavalgamentos; portanto, é anular-lhes o próprio efeito. É ocultar a harmonia — ou a falta dela — resultante da disposição dos termos oracionais nos versos. Quer dizer, se um poema é lido tendo a pontuação como única referência, ele é lido como prosa. E um poema lido como prosa é, simplesmente, transformado em prosa. Convém refletir: fosse esse o objetivo, bastaria que o poeta escrevesse em prosa aquilo que, intencionalmente, optou por estruturar em versos — o que lhe acarretou, esperamos, um considerável esforço adicional.
Categoria: Notas
Os distintivos de Soljenítsin
Há três principais diferenças entre Soljenítsin e o resto daqueles que defendem uma causa pela literatura, ou fazem literatura para defender uma causa. A primeira delas é que Soljenítsin, antes de atacar o regime que ataca, experimentou-o, isto é, sofreu-o com oito anos de cadeia e vendo inumeráveis amigos, conhecidos e familiares presos, perseguidos e fuzilados. A segunda diferença deriva da primeira: em honra própria e daqueles que perdeu, está justificada a sua causa; quer isto dizer que sua literatura é uma resposta à sua experiência pessoal, ou seja, sua motivação literária é a mais autêntica que pode haver. Por último, o seguinte e simplesmente: sua causa é nobre, e este adjetivo não carece de explicações. Do outro lado, que encontramos na maioria daqueles que fazem literatura ideológica? Não é preciso gastar muitas palavras: não encontramos nem a nobreza, nem o conhecimento de causa; encontramos, em suma, um fetiche.
O homem se torna aquilo que alimenta
O que a vida demonstra é que, cedo ou tarde, o homem se torna aquilo que alimenta. Este é o fado do qual não poderá jamais escapar, e que lhe poderá ser a ventura ou a desgraça. É por isso que, se não inata, deve ser cultivada de contínuo a visualização. Todos somos, em maior ou menor medida, como o menino daquele belo símbolo sabeu que, idealizando uma grande face de pedra, tomando-a como ideal de grandeza, vai-se tornando como ela à medida que cresce. Todos somos, ou melhor, todos podemos ser; antes de sê-lo, porém, é preciso querer sê-lo.
Planejar é sempre mais estimulante que agir
Intelectualmente, planejar é sempre mais estimulante que agir. Por muitos motivos, em especial pelos horizontes mais amplos, às vezes ilimitados, e pela possibilidade de alterá-los por inteiro sem prejuízos ou complicações. Quer dizer: planos existem como suspensos no ar; nada os puxa, nada os impele, as conexões que estabelecem são como etéreas, maleáveis, até o exato momento em que são colocados em execução. Aqui, a estrutura inteira como que se cristaliza, e se não o faz de maneira definitiva, o faz de maneira que, a partir desse ponto, mudar é romper. Intelectualmente, sem dúvida, planejar é mais estimulante que agir. Mas o ato, tendo o peso da responsabilidade e o risco do erro, sobre-excede-se em emoção.