A literatura do século XX

A literatura do século XX descobriu que, para conquistar o homem comum, é infinitamente mais fácil descer-lhe ao nível em vez de elevá-lo. É uma descoberta notável. Quando se diz a maior banalidade concebível da forma mais prosaica que se pode imaginar, dá-se algo impressionante, quase mágico, e coloca de joelhos o homem comum. Finalmente, de olhos rutilantes, este experimenta a sensação de compreender aquilo que lê! É uma fórmula infalível, e a ela soma-se o prazer da curiosidade em ver o espetáculo de artistas que, como dentro de um santuário, comportam-se como estivessem numa feira. É sem dúvida uma literatura capaz de exercer um fascínio inigualável no homem comum.

O Modernismo brasileiro

O Modernismo brasileiro prestou um grande serviço à literatura comprovando de vez o quão sem graça, desinteressante e tedioso é o fútil, sendo impossível mudá-lo, mesmo para mentes criativas. É uma poesia comum, destinada a homens comuns; mas uma poesia que não os eleva, nem os estimula, nem os faz pensar. Os falsos intelectuais, é verdade, acham nela inovações infinitas e muito se deleitam — mas terminam, no fim de quantos versos forem capazes de ler, exatamente como estavam antes de lê-los. Já aqueles mal-acostumados com a grande arte, é-lhes impossível suportar mais que algumas poucas páginas destas frivolidades que não fazem senão desviar da única e flagrante verdade: a cabeça que as concebeu nada tinha de interessante para dizer.

“A misantropia limita-se aos homens”

Diz o distinto marquês de Maricá que “a misantropia limita-se aos homens, não compreende as mulheres”. Novo engano… Quiçá aplique-se a máxima à misantropia recreativa, à misantropia quando cultivada como hobby; mas não, de forma nenhuma, à misantropia autêntica e profissional. Esta alveja, ou melhor, reage ao comportamento humano, claramente diferente daquele de uma pedra ou de um cachorro, e presente tanto no homem, quanto na mulher. Se uma mulher se comportar como uma pedra, é verdade, há de se admitir que o misantropo a poupará. Mas desde que, oh Deus!, desde que fale, desde que seja capaz de vibrar as cordas e sonorizar uma voz humana, desde que seja capaz de dirigir a outra alma uma palavra, e portanto forçar, impelir, constranger a um ato comunicativo e reclamar para si atenção, fatalmente a mulher estará incluída na lista, o marquês está errado e não há nada que se fazer.

Em literatura, é tão proveitoso variar o estilo…

Em literatura, é tão proveitoso variar o estilo quanto o é, na vida, variar o pensamento. O risco de não fazê-lo é viciar-se e diminuir-se, estreitando horizontes e fadando a próxima expressão a ser uma réplica da anterior. Em certa medida, variar o estilo é também pensar diferente, e o escritor que se acostume a fazê-lo se estará habituando a estimular o cérebro a não se contentar, acomodado, com aquilo que já concebeu.