Dedicar-se a sapatos

A vantagem do intelectual que, como Boehme, dedique-se a sapatos durante o dia é escrever aquilo que quiser, quando quiser e como quiser, lendo também aquilo que quiser por quanto tempo quiser, e publicando aquilo que escreveu somente se quiser. Em suma: a liberdade. Não é preciso envolver-se em polêmicas, agradar ou submeter-se a editores e outros escritores, nem lidar com leitores-clientes, nem nada. Há sapatos que servirão sempre como alforria intelectual. Nada há que pague essa autossuficiência e essa despreocupação. Liberdade, enfim, é sempre dignidade.

A aflição do intelectual

A aflição do intelectual é ver-se impotente perante o curso natural do pensamento de sua época. Ainda que decida fazer algo, será inútil e frustrante. As qualidades que precisa para impor-se e influenciar são frequentemente opostas àquelas que cultivou para tornar-se. Mas não deve lamentar, porque enfim não interessa o “pensamento de sua época”, senão como matéria-prima para suas reflexões. Os modismos caem como surgem, levando consigo seus ideólogos e entusiastas. Não se deve e nem se pode esperar nada senão de uns indivíduos isolados que fazem com que a vida intelectual seja gratificante.

É sempre belo dedicar-se a causas perdidas

É sempre belo dedicar-se a causas perdidas, mas é pouco inteligente permitir-se fritar os nervos por elas. Dedicar-se e nada esperar em troca; dedicar-se a despeito do fracasso inevitável: isso basta. E no mais, deixar que as coisas corram como devem correr, não se preocupando senão como se preocupa com o dia nascer chuvoso ou ensolarado. Fazer o digno e reconfortar-se na consciência; e o resto, que seja como tiver de ser…

Se é ostensivamente verdadeiro…

Se é ostensivamente verdadeiro que as universidades brasileiras se tornaram instrumentos de doutrinação ideológica, e consequentemente os diplomas atestados de submissão, não há como almejar solução para a miséria intelectual em que o país se meteu que não a total ridicularização e o total desprezo às universidades e aos títulos acadêmicos por parte de uma intelectualidade real que emerja de forma independente e se contraponha ao escárnio que foi feito de forma maliciosa e incrivelmente bem-sucedida no país. Não há saída que não passe pela destruição metódica e completa deste império espúrio que foi levantado e usurpou a finalidade da educação superior. É claro, é claro… o mais provável é que nada disso aconteça. E continuaremos bem…