Só com bocejos se pode responder a velha teoria, revivida de tempos em tempos em nova roupagem, segundo a qual a grande arte é aquela que se limita a retratar a realidade com exatidão. Fosse isso, bastaria que conservasse a fidelidade, e seria grande a arte que retratasse a cena mais estúpida, repulsiva, banal ou desinteressante. Em verdade, é o efeito contrário que alcança caso se detenha minuciosamente em algo que deveria desprezar. Para confirmá-lo, basta imaginar o ridículo que seria uma peça musical na qual o compositor se esforçasse por replicar com perfeição alguns “sons da natureza”. Só é grande a arte que, valendo-se do meio que for, eleva aquele que com ela entra em contato, ou pelo menos guarda tal possibilidade; o resto é tolice.
Categoria: Notas
O estudo disso que se convencionou chamar…
O estudo disso que se convencionou chamar esoterismo é frustrante por inúmeras razões. A primeira delas é a quantidade de farsantes e falsários que pululam neste terreno. Depois, o universo tedioso que o envolve. Mas, sobretudo, é por não entregar aquilo que promete que o esoterismo se torna mais frustrante. Ao menos, por ele o estudante não se realiza, e só o descobre após muito estudo, quando não após algo pior. Contudo, seria faltar com a verdade classificar este estudo como vão. O “esoterismo” se apropriou de uma tradição que, sem ele, vinha quase esquecida. Mas além disso: após milhares de páginas, percebe-se que algo se aprendeu. E ainda que, durante o processo, tal aprendizado não se tenha mostrado evidente, o próprio estudo, quiçá valendo-se das páginas como intermediárias, ou como inspiração, dá a impressão final de ter revelado algo de valor.
O fato de que, no ocidente, o contato…
O fato de que, no ocidente, o contato com estas Mil e uma noites se dê quase sempre através de adaptações infantis nas mais variadas formas esconde um pouco a importância literária desta obra, que transcendeu todas as barreiras imagináveis e impregnou-se na cultura popular. Pouquíssimos chegam a lê-la integralmente, a despeito de sua influência se ver sugerida com frequência. A verdade é que, tal como a mitologia grega, esta obra tornou-se obrigatória ao estudante da literatura. Ainda que o valor das histórias fosse nulo, conhecê-las é testemunhar a força de uma narrativa, que pode atravessar o tempo e as barreiras culturais como se fossem nada, transformando-se em patrimônio humano comum. Não é preciso dizer mais.
O cinema, a música e o teatro, em comparação…
O cinema, a música e o teatro, em comparação com as artes plásticas e a literatura, possuem a desvantagem de se verem contaminados de operários que se julgam, mas não são artistas. E daí nasce uma série de consequências que só podem frustrar aquele que pariu a criação. Deve ser angustiante para um compositor perceber possível fazer carreira de virtuose executando obras dos outros, e confrontá-lo com o cenário despojado das facilidades que a primeira opção oferece, caso opte por se concentrar em suas próprias composições. Mais angustiante deve ser acompanhar o reconhecimento de operários da música como artistas. Ao menos, da angústia nascerá a certeza de que sua arte só se faz solitariamente, e de graça. Daqui em diante, jamais confundirá a verdadeira com a falsa motivação.