O livro mais importante ainda a ser escrito por um novo e necessário Gilberto Freyre descreverá o que se passou no Rio de Janeiro nos últimos cem anos. Tal obra, se levada a cabo com seriedade, será a mais significativa do século. É uma catástrofe humana talvez sem precedentes que separa o Rio de Janeiro de Machado de Assis do Rio de Janeiro dos anos 2000 e, ainda que se mostre escandalosamente, é difícil traçar a sucessão de fatos que a possibilitou. Para isso, seria preciso reunir documentos, e penetrar na história com uma consciência e argúcia incomuns, capazes de identificar as raízes psicológicas de um fenômeno cristalizado fisicamente. Alguém terá de fazê-lo. De uma destruição como essa, algo de muito importante se deve aprender. Possivelmente, o destino brasileiro depende do sucesso de tal realização.
Categoria: Notas
Não há como não se divertir com uma boa história…
Não há como não se divertir com uma boa história de pescador, ainda que não se acredite em uma palavra dela. Mas, aqui, as peripécias, os exageros, e mesmo os absurdos provocam o riso, e não a aversão. Por quê? É interessante notar que existe esse tipo de mentira que diverte, que estimula e que gera um sentimento positivo no interlocutor. E ela abre espaço para todo um gênero literário em que a criatividade é livre para se manifestar. A história, quanto mais engenhosa e inverossímil, às vezes mais facilmente se grava na memória, e mais aumenta o mérito de seu autor. Talvez, o mistério deste fenômeno não seja de todo um mistério: nele, a mentira só funciona porque fundada na pureza de intenção.
Quando nos deparamos com aquele que se gaba…
Quando nos deparamos com aquele que se gaba de algo que deveria envergonhá-lo, vemos o quão facilmente a esperteza se converte em vício. A ter semelhante qualidade, é melhor ser sempre enganado! Sem dúvida, não há constrangimento moral em ser vítima, nem em dar crédito àquele que não o merece. Se se perde algo, este algo vai-se sem deixar marcas na consciência, e o tempo jamais cobra o preço do remorso. Aquele que ganha, porém, perceberá que o que ganhou era pouco, e será mais feliz na medida em que a vileza que nutre não dê espaço para objeções — a felicidade plena, como se vê, só sendo possível a um animal.
Em tese, Meetings with remarkable men…
Em tese, Meetings with remarkable men, de George Gurdjieff, foi concebido com “objetivos semelhantes” aos da Autobiografia de um iogue, de Paramahansa Yogananda. Mas só mesmo entre aspas se pode dizê-lo, porque a discrepância entre as obras é tão gritante, que não seria exagero tê-las como modelos, uma da verdade, e outra da falsificação. Uma delas é deveras instrutiva, apresenta homens verdadeiramente notáveis e atinge, pois, o seu “objetivo”; já a outra se resume a uma sucessão de relatos cujo propósito não é senão inflar o ego de um autor que, sempre que parece estar prestes a dizer algo importante, astuciosamente afirma que apenas o dirá num volume ainda a ser publicado e que você, leitor, terá de comprar. Mas, sobretudo, o que ambas as obras escancaram é um contraste entre personalidades se não opostas, absolutamente distintas. As qualidades que transparecem em Yogananda faltam por completo em Gurdjieff: o primeiro inspira respeito e admiração, enquanto o último somente antipatia.