Os demônios efetivou-se em obra-prima…

Seria interessante analisar como Os demônios efetivou-se em obra-prima apesar de ter sido concebida por Dostoiévski com fins assumidamente panfletários. É uma verdadeira proeza que tal se tenha passado, posto que o destino mais provável de uma obra assim motivada é a lata de lixo. Impressiona não somente a capacidade de Dostoiévski em dar abrangência ao episódio, mas o senso de urgência e importância só possível em um autêntico visionário. A obra, pois, acabou fortalecida pelas mesmas qualidades que ordinariamente emporcalham. Mais que uma trama real, complexa, original e profunda, saiu ela como denúncia e profecia, sendo igualmente valiosa a filósofos, psicólogos e historiadores. Raríssimas as obras das quais se pode dizer parecido.

É muito difícil, hoje, não simpatizar…

É muito difícil, hoje, não simpatizar com aqueles alvejados pela fúria dos imbecis. É o mesmo sentimento inspirado por uma ação covarde: toma-se, instintivamente, partido do lado mais fraco. E ver todos esses linchamentos públicos, toda essa infâmia raivosa que arrasa reputações e carreiras da noite para o dia, e sempre insaciável, sempre à procura do próximo alvo, é algo que suscita em mesma medida repugnância e revolta. Quem permitiu que tais estúpidos tivessem voz? Ainda teoricamente, são demasiado óbvios os resultados da demagogia miserável de Rousseau; mas observá-los na prática, efetivos e aclamados, não pode senão conduzir a uma misantropia total.

A investigação da origem das ideologias políticas…

Embora seja um tema de quinta categoria, a investigação da origem das ideologias políticas que correm na boca das massas ensina um bocado sobre a corrupção moral do homem. A perversidade e o cinismo daqueles que parem ideologias é de espantar o mais calejado dos moralistas. Tarados por controle, especialistas na eficacíssima ciência da mentira, despojaram a política de qualquer moralidade e a transformaram na simples arte da maquinação. Surpreende vê-los, em absoluta desfaçatez, apregoando narrativas falsas a revestir os mais vis interesses e que efetivamente condenam à miséria aqueles aos quais pedem — e conseguem! — apoio. É uma depravação sem limites. Instrutiva, porém, posto ensina o quão baixo o homem pode chegar.

Parece certo que, um dia, o Brasil oficializará…

Parece certo que, um dia, o Brasil oficializará a língua brasileira, visto que o tempo inevitavelmente particulariza a língua falada em diferentes terras, dificultando cada vez mais uma unidade idiomática. Há, nisto, muitas razões plausíveis e muitos erros. O primeiro destes é a suposição de que uma língua deve ter uma “unidade”, isto é, deve ser falada da mesma maneira unanimemente. Chega a ser risível pensar que, oficializada a tal língua brasileira, não será ela suscetível às mesmíssimas variações regionais e aos mesmíssimos processos evolutivos que rigorosamente todos os idiomas falados em larga escala sofreram e sofrerão. É preciso ser muito ignorante para supor que canetadas pautarão a língua falada nas ruas, quando é esta que, em última instância, pauta as gramáticas. Medidas estúpidas como este último acordo ortográfico não fazem senão torná-lo ainda mais evidente. Por outro lado, é compreensível e até natural que um povo anseie por uma expressão autêntica. Mas é preciso muito cuidado para distinguir até que ponto esta autenticidade representa uma evolução necessária, em vez de operar um rompimento brusco com as raízes que a permitiram evoluir.