Para não dizer inexistentes, é no mínimo raro encontrar nesta dita poesia lírico-amorosa versos em que uma experiência real é cantada, algo verdadeiramente alto e belo como se vê em Dante. Em contrapartida, mude-se as línguas e as épocas, encontra-se sempre os mesmíssimos elementos que enfastiam o leitor sedento por alguma elevação. Claro, claro: há exceções; mas a compaixão que o maior número destes poetas desperta nada tem que ver com os versos que fizeram. Lamentavelmente, parecem eles crianças iludidas pelo fútil, que viveram alimentando-se desta vontade nunca concretizada que a maturidade faria dispersar. A maturidade, isto é, a sabedoria ou a experiência. Ambas parecem ter-lhes faltado, do contrário teriam encontrado algo mais nobre para direcionar-lhes a atenção.
Categoria: Notas
A intolerância aos pequenos erros…
A intolerância aos pequenos erros e pequenos defeitos conduz necessariamente ao isolamento. O mundo, se levado muito a sério, trava guerra declarada contra o espírito intransigente. Tal guerra não objetiva senão deixar claro: aceita-se o mundo como é, ou esmurra-se eternamente paredes. E as decepções que se empilham, as expectativas que baldam seguidamente, a perfeição que se mostra sempre fantasiosa, tudo isso corrói o espírito e poderia ser evitado. O melhor, sem dúvida, é nada esperar.
O fenômeno de acentuação secundária
É curioso notar que o fenômeno óbvio de acentuação secundária em palavras polissílabas não tenha entrado na cabeça de Castilho; mas impressiona ainda mais que, anos depois, o mesmo fenômeno tenha sido negado expressamente por poetas como Bilac e Guimarães Passos. A dizer a verdade, Castilho, um grande metrificador, não era perito em ritmo, tendo esta palavra aparecido uma única vez em todo o seu tratado de metrificação. E Bilac e Guimarães Passos, apesar da bela obra conjunta, limitaram-se a republicar a teoria de Castilho no Brasil. Cabe a Said Ali o mérito de ter sido o primeiro a refutar Castilho e dizer o óbvio: a pronúncia portuguesa natural exige um acento secundário em tais palavras, porque a língua repele três átonas em sequência desprovidas de apoio tônico. Em português, a acentuação real não segue um padrão binário, mas gradações, como argutamente notou Said Ali. O gramático se contenta identificando o acento dominante da palavra, mas o poeta não pode fazê-lo. O poeta tem de perscrutar, primeiro, as sutilezas do idioma e, segundo, o discurso falado. E precisa lembrar-se sempre que gramáticas são diretrizes, que periodicamente se atualizam e são de praxe desrespeitadas pela língua real.
Há muitas vantagens em se publicar voluminhos…
Há muitas vantagens em se publicar voluminhos com regularidade em vez de deixar a obra crescer indefinidamente. A primeira delas é a distribuição mais tolerável do trabalho de revisão. Outra delas e, talvez, a principal, é que não se sabe quando chegará a morte, e é bom evitar o risco de ter publicados trechos que jamais passariam pela mais falha e desatenta revisão, como se vê aos montes nos Diários de Kafka. Que ironia! Kafka, que adorava taxar de mau e queimar o que escrevia, teve publicada integralmente, com erros óbvios e muitas linhas ociosas, uma obra que provavelmente atiraria à fogueira. Sem dúvida, é algo que poderia ter sido evitado.