A mais encantadora das sereias

Esta que é a mais encantadora das sereias, a misantropia, parece mesmo afeiçoar-se a artistas e ser-lhes, além de objeto de culto, fonte primária de inspiração. Formosíssima senhora: mais que sereia, musa! E não canso de admirar como são úteis as barreiras levantadas em redor da mente inclinada à arte. Vigny, e não Victor Hugo, e não Lamartine, foi quem personificou a plenitude da vocação poética. E pior para aqueles que buscam motivação entre pedras!

Não importa o quanto se idealize o estilo e a forma…

Não importa o quanto se idealize o estilo e a forma, ambos carecem da execução para solidificarem e alcançarem uma unidade autêntica. Executada, ou melhor, durante a tentativa de execução, a ideia torna-se mais clara e o artista evolve-a até que ela se lhe encaixe na intenção expressiva. Os lampejos espontâneos que surgem no ato de realização artística, embora não sirvam de alicerce, são frequentemente quanto abrilhanta e faz com que uma obra mereça o adjunto de arte.

Exercicios espirituales, de Inácio de Loyola

Percorro estes Exercicios espirituales, de Inácio de Loyola, e não posso deixar de imaginá-lo a compô-los nas condições incrivelmente miseráveis descritas em sua biografia. A comparação com Frankl é inevitável. Se confrontamos o teor destas linhas, ou melhor, se consideramos estas linhas como originárias das circunstâncias que rodeavam-lhes o autor, deparamo-nos com uma pujança psicológica inquebrantável capaz de proezas quase sobre-humanas. Enfim, vemos método no esforço consciente em atribuir sentido para as misérias vivenciadas, na afirmação contínua de um voto, na superação dos próprios limites, na transformação da mente em fortaleza indestrutível. Esses Exercicios atestam a vitória absoluta de Inácio sobre o meio circundante e sobre si mesmo. Linhas admiráveis!

A biografia de Inácio de Loyola

Parece fictícia a biografia de Inácio de Loyola. Lê-la neste século, lê-la no ocidente observando que se tornou o ocidente, suas grandes cidades, suas preocupações, é como colocar-se diante de uma narrativa absurda. É de causar assombro a simplicidade como fatos estupefacientes se apresentam nesta “Autobiografia”, redigida pelo P. Luís Gonçalves da Câmara, que limitou-se a transcrever quanto ouviu da boca de Inácio. Algumas poucas vezes, lemos Inácio ter corrido risco de vida em sua trajetória, mas a impressão que ficamos é que, desde que saiu da casa paterna, esteve ele sempre em constante ameaça. Prisões, julgamentos, perseguições, doenças, incrível penúria… é difícil imaginar condições mais severas para este homem reputado santo. O simples superar a sexta década de vida, como fê-lo, já se afigura a nós, homens mal-acostumados, um verdadeiro milagre.