Parece que os traços colocados por Dostoiévski…

Parece que os traços colocados por Dostoiévski, especialmente, na personalidade de Míchkin seriam inconcebíveis para alguém que nunca os observou atuantes na vida real. Inconcebíveis porque pareceriam absurdos e nada convincentes. Mas aí está: essa inocência que aparenta não sendo estupidez, essa absoluta falta de espanto, essa benevolência sem limites, esse falar que erra na escolha das palavras, esse agir meio tímido, meio confuso, que parece indeciso e tanto gera estranhamento… Toda essa complexidade que sempre aparenta aquilo que não é, somada ao olhar de quem sabe e aceita, sem medo, sem surpresa, sem julgamento e sem reação, induz quem a observa a uma perplexidade que a lógica é incapaz de explicar. O raciocínio não admite o que vê e, faltando-lhe explicação melhor, põe tudo na conta do desvario e do absurdo. Míchkin, porém, é real, e contrariando as expectativas de uma raça aprisionada na mesquinhez de espírito, mostra que a alma humana, elevando-se, despega-se do que lhe prende ao chão.

A plena objetivação operada pela modernidade…

A plena objetivação operada pela modernidade e a subsequente doutrinação das massas para essa peculiar maneira de encarar a realidade produziu indivíduos carentes de uma importantíssima faculdade mental. Adestradas a considerar proibidas determinadas hipóteses, as novas mentes já crescem com um défice de possibilidades, que lhes são arrancadas pela raiz. Cada vez mais parece óbvio que a maior miséria desta época é ter objetificado o ser humano, e portanto lhe destruído a dimensão transcendente, resumindo-lhe ao caráter limitado e corrompido da matéria comum. As consequências desta noite terrível do espírito humano vão da desumanização ao emburrecimento, da destruição cultural ao regresso moral, do caos ao vácuo que se lhe tornou característico. Como foi possível chegar a esse ponto? Mais uma vez, parece certo quando Tolstói diz que há circunstâncias históricas que parecem definidas por uma força maior — resta-nos, como sempre, o espanto e a hesitação no conjeturar os porquês…

Embora muito se ganhe e algo se possa apreender…

Embora muito se ganhe e algo se possa apreender da mente através da interpretação dos sonhos, é preciso muito cuidado para não cair na tentadora estupidez de racionalizar o não racionalizável. Muito útil, sem dúvida, estar atento ao que se passa em estados onde a consciência volatiza; há muito que se aprender e o exercício é assaz estimulante. O que não se deve fazer é sucumbir à necessidade lógica de atribuir sentido a manifestações espontâneas, imprevisíveis, irracionais. Um estudo acurado, com o tempo, aponta ligações, coincidências, e talvez um ou outro arquétipo circunstancial ou emotivo particular da mente analisada. O resto varia como variam a experiência, o temperamento, a conjuntura da vida real, os lances recentes e, também, a ilimitada imaginação. Considerando tudo isso, há de se admitir que, embora frequentemente malbaratado, este é um estudo, no mínimo, intrigante.

Feliz aquele que descobre…

Feliz aquele que descobre não ser necessário responder quando lhe dirigem a palavra, não ser preciso conceder atenção a quem lha exige, não ser mandatório curvar-se ao teatro das conveniências e resumir-se a um escravo deste jogo social. Felizes os misantropos, os homens embrutecidos das cavernas, os eremitas, os peregrinos, os rebeldes, e todos aqueles que têm repugnância ao convívio! — pois felicidade, afinal, é não ser um infeliz.