A matemática financeira tem algo de cruel. Estudando-a, verifica-se sem muita dificuldade que ela funciona, isto é, que o longo prazo realmente concretiza a teoria da multiplicação. Embora recente, ela já dispõe de dados históricos suficientes para estimar com certa segurança os resultados de diferentes cenários, incluindo aqueles impremeditados. O risco, também, já se quantifica em números um tanto confiáveis. Daí que todos esses cálculos, todas essas estimativas, toda essa maneira suficientemente segura de operar, com resultados mais que satisfatórios, fundamenta-se sempre em percentuais. O cálculo mais mirabolante, o computador mais poderoso não se consegue livrar desta imposição: uma porcentagem é sempre relativa ao principal.
Categoria: Notas
Não há uma única notícia de jornal…
Não há uma única notícia de jornal que mereça ser impressa e guardada para o futuro, como se faz com toda a literatura de valor. Logo, como é possível que tantos leiam, e tantos se convençam da falsa importância atribuída aos jornais? O jornalismo nunca aproxima o leitor de nenhuma questão verdadeiramente importante. O que faz é afastá-lo de sua individualidade e metê-lo em questões absolutamente fora de seu campo de ação, que não interferem em sua vida, e quando interferem, é o tipo de interferência contra a qual nada se pode fazer. Uma contribuição prática, portanto, nula; para não dizer que, o mais das vezes, o jornalismo não inspira senão sentimentos ruins. O melhor é sempre desprezá-lo. E, dependendo dele para o próprio sustento, é largá-lo e buscar outra profissão. À parte isso, existe o bom jornalista. Mas o bom jornalista é um homem doente que não consegue largar o jornalismo porque padece de tê-lo como vocação.
Parece haver uma distinção moral…
Parece haver uma distinção moral demasiado evidente entre os grandes argonautas do passado, que separa aqueles motivados por descobrir, e aqueles motivados por dominar. São impulsos muito diferentes, e que só aparentemente se coadunam. Para discerni-los, o mais das vezes, basta analisar os sucessos após o desembarque na terra encontrada. Causa estranhamento, portanto, que não fique tudo isso muito claro, possibilitando que a verdadeira glória seja conferida aos verdadeiros e bravíssimos heróis.
Du pouvoir, de Bertrand de Jouvenel, data…
Du pouvoir, de Bertrand de Jouvenel, data de 1945. Àquela altura, já causavam pavor o crescimento assombroso do Estado moderno e a constatação de que, inexoravelmente, ele não poderia senão continuar crescendo e crescendo. Porém, com que espantosa velocidade isso aconteceu! O poder que detinha o Estado naqueles anos, isto é, há pouco mais de meio século, parece nada perante o poder que hoje detém em qualquer democracia ocidental. O Estado, hoje, possui meios para monitorar o mais íntimo da vida privada de qualquer cidadão e para aniquilar, da noite para o dia e sem o menor esforço, a vida de qualquer um que estipule como alvo. Em 1945, embora se pudesse prever a continuação do processo implacável de crescimento do poder, não se poderia imaginar a monstruosidade do arsenal tecnológico que rapidamente estaria nas mãos dos psicopatas de Lobaczewski. Entre indivíduo e Estado, a disparidade de meios é absoluta. Realmente, Lobaczewski parece ter captado algo valioso: para entender o desenvolvimento histórico, sociológico e político do ocidente, é adequado estabelecer uma ciência do mal.