Os textos orientais antigos e a psicologia moderna

Causa assombro confrontar os textos orientais antigos com a psicologia moderna, constatando o lapso de mais de vinte séculos e a noção difusa de que esta última revolucionou a compreensão do homem. A psicologia moderna — científica, materialista — limita-se a analisar uma dimensão reduzida do homem, e se lhe resumirmos as façanhas, diremos que foi ela responsável por criar e disseminar a ideia de um modelo humano inferior. Nos textos orientais, tão antigos, — e sabe-se lá de quando data a tradição, — a psicologia humana se apresenta numa complexidade que escapa à psicologia moderna: o homem é pintado com uma dimensão muito maior. Tudo isso por uma razão simplíssima: os textos orientais antigos foram escritos por sábios que tomavam seus mestres como modelo; a psicologia moderna é escrita por psicólogos e psiquiatras que tomam como modelo seus pacientes. Por isso constatamos, nos primeiros, um vocabulário repleto de técnicas de purificação e, nos últimos, repleto de doenças mentais.

Nada desordena o pensamento como um acesso de raiva

Nada desordena o pensamento como um acesso de raiva. Um único e breve impulso raivoso e o espírito, transformado, perde completamente o controle e a concentração. Desligar-se, deixar que arrefeça, atalhar a ação… Dizem os budistas que um único momento de raiva destrói quanto tenha sido acumulado de virtude pelo ser ao longo de suas múltiplas existências. De todo modo, o certo é que o pleno funcionamento mental exige calmaria e o sangue frio como o de uma serpente.

Não há percepção superior à de transitoriedade

Como está dito no Mahaparinirvana sutra, não há percepção superior à de transitoriedade. Contemplando a morte, — e a morte próxima, — o ser enxota de si a dimensão rasteira, isola-se dos desejos mundanos e impossibilita a manifestação do orgulho. Tomando consciência da impermanência de tudo o que há nesta terra, a ignorância característica do modelo humano inferior torna-se impossível. A morte não surpreende aquele que para ela se prepara e considera cada dia como o possível derradeiro. A percepção de transitoriedade torna inconfundível o fútil, e impede que o ser afaste-se do essencial.