Ao escritor que alimenta internamente…

Ao escritor que alimenta internamente o sonho da glória literária, deve ser muito difícil suportar o status miserável proporcionado pela literatura, caso não haja condições bem diversas que lhe confiram algum prestígio social. Decerto, o mais provável é que algo muito diferente da “glória” terá de experimentar. Talvez seja necessário algum talento para lidar com a condição de medíocre aos olhos de todos, ao mesmo tempo que se percebe que medíocres são, em verdade, todos os outros. É o caso de Lima Barreto, a quem parece ter faltado semelhante talento, embora não tenha faltado a percepção agudíssima do fenômeno. A verdade é que não há humilhação nem injustiça neste desprezo, e é bom que o escritor aprenda a manejar, e até se divertir com o constrangimento, para evitar ludibriar-se com os pareceres de um falso juiz.

É sempre muito interessante quando…

É sempre muito interessante quando o historiador ou o biógrafo, fugindo das generalizações costumeiras, consegue esboçar a influência dos fatores econômicos nas vidas individuais. Porque tais fatores, embora às vezes superestimados, e embora isoladamente não expliquem tudo, determinam muito daquilo que se faz. Há decisões que soam irracionais se despojadas dos fatores econômicos que as motivaram, como também há provações, infortúnios e estados de espírito economicamente fundamentados. Às vezes, é neste tipo de fator que se condensam os maiores empecilhos para que uma personalidade possa se afirmar. Parece rasteiro, mas é assim.

Nunca é fácil visualizar o ensejo presente…

Nunca é fácil visualizar o ensejo presente e calcular quão rapidamente ele terá sido uma oportunidade que se foi. Algumas decisões maturam muito antes do que se espera, e quando se percebe, a própria hesitação já frutificou. Um intervalo de cinco míseros anos cria uma nova realidade, na qual o passado materializou-se em consequências visíveis com as quais só se pode aprender. Aprende-se, decerto, mas o conhecimento adquirido acaba por não ajudar muito a vencer, no presente, aquela dificuldade inicial.

Na maioria dos casos, o amadurecimento…

Na maioria dos casos, o amadurecimento se dá por necessidade: as circunstâncias impõem uma mudança de postura, o afastamento dos hábitos e preferências do passado, a adaptação ao contexto atual. Por isso, a necessidade é frequentemente positiva. Nos casos em que não atua, ou não se mostra tão acentuada, isto é, nos casos em que o amadurecimento depende de uma ação voluntária, muitas vezes não se dá. Há quem não consiga vencer a resistência interna e passe a vida apegando-se a um passado que já se foi. É triste, porém, notar o resultado: fica-se com a impressão de que, pela incapacidade de romper com umas poucas velhas amarras, produziu-se um desajuste antinatural.