Não é justo condenar Freud…

É verdade, é verdade: não é justo condenar Freud por expor as debilidades de seus pacientes, por explorá-las em busca de justificativas; afinal, de outra forma não seria possível esboçar-lhes soluções. Freud, assim, cumpria uma importante incumbência de um psiquiatra. O problema, porém, e o reprovável, é analisar-lhe a obra em conjunto e constatar não haver indícios de possibilidades superiores ao ser humano. Freud, não lhos encontrando nos pacientes, poderia encontrar em si mesmo, poderia concebê-los ainda que numa vontade de superação ineficaz. Mas não o fez; e, naturalmente, validou em si aquilo que esboçou como modelo humano. É curioso: Nietzsche é frequentemente taxado de louco, seu “além-homem” de utopia absurda, sua vontade de potência de delírio. E os mesmos que o não compreendem, aprovam as ideias de Freud. Mas aí está: tanto Freud quanto Nietzsche desnudaram-se, e se neste encontramos um impulso poderoso que impulsiona à verdade, à arte e, sobretudo, à vitória sobre si mesmo, naquele defrontamo-nos com uma prostração ante as fraquezas da carne e da mente, fruto de lamentável miséria espiritual. Não há fugir: a obra acaba, fatalmente, desvelando o íntimo do autor.

Variadas doutrinas ao longo da história…

Variadas doutrinas ao longo da história compreenderam e expuseram que o problema central da existência humana é o justificá-la, que não é feito senão através da própria vida, através de atos que valem por respostas. Variam as terminologias, como variam os caminhos recomendados; o que não varia é a noção de necessidade desta tomada de consciência individual e suas implicações, isto é, a necessidade de agir em conformidade com as aspirações da natureza íntima. Só assim é possível uma afirmação que vale ao ser humano como bálsamo universal. Portanto, pelos mais diversos meios, o que ensinam as grandes doutrinas é a orientação da vida em torno de uma finalidade — e o homem, definindo-a, tem a missão de esforçar-se por sua realização.

É realmente admirável a maneira como Swami Vivekananda…

É realmente admirável a maneira como Swami Vivekananda interpretou e expôs o hinduísmo, integrando-o, alargando-lhe os braços e convertendo-o num legítimo catalisador de transformações positivas para o ser humano. Seu Raja yoga é a exteriorização de uma filosofia nobre, corajosa e estimulante. Pouquíssimos são os autores capazes de compreender em profundidade a condição humana e oferecer uma solução que não implique a repressão forçada ou o desvanecimento da vontade. Swami Vivekananda, em vez de conduzir a um agravamento de tensões ou ao eclipse da consciência, propõe uma conduta mental ativa direcionada à elevação da própria natureza. Constrói, engrandece, encoraja a superação. Grande homem!

Por todas as vezes que gargalhei…

Por todas as vezes que gargalhei do temperamento explosivo de Cioran, de sua maravilhosa fúria na fila de mercearias e inúmeras outras situações que recordo-me sempre em risadas, parece que estou, agora, a pagar por elas, e parece direcionarem-me gargalhadas do céu. Todas as banalidades estúpidas que me compõem a rotina, a porta que deve abrir para que eu saia de casa, a balança que deve funcionar para que eu pese e compre comida, o sol que deve altear para que eu saiba ser dia… todas essas coisas banalíssimas, que sempre funcionam porque têm de funcionar ou, melhor dizendo, todos os seres humanos cuja função de alguma forma me afeta, juntos e ao mesmo tempo, deixam de cumpri-la, mas com o capricho de interromperem-me a rotina e estorvarem-me com problemas os quais não tenho meios para resolver! Cioran certamente gargalha; é o preço: agora é minha vez de fazê-lo rir… Mas é incrível notar a impossibilidade da paz neste mundo. Buda é um personagem folclórico: no mundo real, haveria alguém para tirá-lo do sério e arruinar-lhe o progresso espiritual.