Divertidíssimo exercício mental

Vou pelos capítulos iniciais da Fenomenologia do espírito imaginando como Hegel deve ter-se divertido enquanto erigia seu monumento lógico. Realmente, deve ser um divertidíssimo exercício mental concatenar todos esses raciocínios. De minha parte, porém, se algum dia me propuser a construir prosa dessa maneira com o intuito de publicá-la sob o meu nome, comprometo-me desde já a não fazê-lo sem antes queimar tudo quanto já publiquei.

A convivência é uma senhora perversa

A convivência é uma senhora perversa que à força corrompe a moral e doutrina ao vício. Aquele que convive compra esta senhora usando a própria liberdade como moeda. Torna-se alguém pior, decerto. Nisto, a psicologia moderna é infalível: há um acordo convivial velado que implica ações as quais, se não cumpridas, são geradoras de desconforto individual e coletivo. A evolução moral exige um rompimento deste acordo, porque consiste numa reação ao instinto mundano. A virtude, embora praticada no mundo, só pode ser concebida na solidão.

Uma concepção superior da existência

Parece necessário ao homem que efetivamente sobrepuja as fraquezas da carne o amparar-se numa concepção superior da existência, isto é, acreditar — e é esta a palavra — em algo que transcenda a realidade concreta. Agindo assim, a simples razão aponta-lhe uma escala de valores que lhe deve servir de guia, e orientando-se nela é possível agir de praxe na contramão dos instintos — dando-lhes a importância devida.

Ah, se eu quisesse…

Ah, se eu quisesse fazer parte de um clube, de uma “escola”, de uma congregação! Após tomar conhecimento da existência de Antero, — quem eu poderia fantasiar, inclusive, como existência passada, visto o quanto tenho-me catequizado nestas filosofias, — eu me poderia facilmente incumbir de “continuar o que ele não terminou”, “resgatando” os seus “valores”, buscando-lhe os discípulos coevos a mim, etc., etc. Por isso, talvez, eu jamais pudesse ser Antero — alguém que martirizou-se cedendo às recaídas desse sentimento que, para uma mente incomum como a sua, deve ser exterminado em prol da paz.