O cemitério das grandes obras

Fico aqui, pensando, na dimensão do cemitério das grandes obras. Por uma tendência natural, são os maiores artistas atraídos ao isolamento e, por uma consequência também natural, permanecem em maior parte no anonimato. Alguns — seriam muitos? — acabam recompensados pela história. Mas que dizer dos outros? quantos seriam? Nunca tive a oportunidade de entrar numa biblioteca antiga; tivesse-a, ser-me-ia obrigatório estimar a proporção de anônimos nas prateleiras literárias. Não que haja justiça neste mundo, nem que se deva escrever almejando qualquer prêmio, mas uma breve reflexão no referido cemitério faz-me a mente negrejar por completo. Pensar no esforço de uma vida, na postura corajosa e na resistência, a duras penas, desperdiçada… inútil como todo o resto… Penso nisso e maldizer o mundo parece-me uma obrigação.

Variações psicológicas

É interessante notar como varia aos extremos o psicológico de grandes artistas. Em comum se lhes nota a sinceridade. Mas como divergem, por exemplo, na visão que nutrem da própria obra! De um lado, exemplos como Kafka e Flaubert, em que a obra lhes parece não somente ruim, mas lhes machuca, aflige ter de pari-las e mirá-las posto são guiados por algo como que uma necessidade. De outro lado, figuras como Nietzsche e Pessoa, onde o desalento ante o espelho não somente parece inexistente, como se lhes nota com frequência uma vistosa imodéstia. Que concluir? Fica evidente que a grande arte é destino a que levam múltiplos caminhos.

Ganhando a simpatia das pessoas

Opiniões são, sobretudo, desagradáveis. A nível individual, é escusado dizer: são as amarras, os grilhões do pensamento. A nível coletivo, quem as suporta? Nunca uma opinião é tão oportuna quanto seria deixar de dizê-la. As pessoas gostam de ser escutadas, não de escutar. Por isso é tão fácil lhes angariar a simpatia: basta relacionar com elas em silêncio, isto é, ouvi-las sem nada dizer. Se isso é possível, ou até suportável, aí é outra conversa…

Livro do desassossego, de Fernando Pessoa

Releio esse formidável Livro do desassossego e sinto-me forçado a brindá-lo com algumas palavras. Impressiona não somente a originalidade, mas a capacidade ímpar do poeta em sustentar a atmosfera que lhe é característica. Alternando descrições e pensamentos, revelando todo um universo interior de um banalíssimo “ajudante de guarda-livros” lisboeta, são trezentas e cinquenta páginas harmônicas, ritmadas, que expressam um estado mental meditativo e uma percepção refinadíssima. O poeta consegue ser agudo, potente e por vezes cruel sem parecê-lo, numa prosa tão bela que blinda-se contra qualquer sentimento repulsivo e afaga o espírito do leitor. Grande arte, grande filosofia, páginas imortais. Viva, Pessoa!