Sexta-feira!

Algo absolutamente impossível para um homem de outros tempos seria compreender o que se passa no peito, nas veias e na mente da esmagadora maioria dos homens modernos quando o calendário declara ser sexta-feira. Sexta-feira! Maravilhosa sexta-feira, em que o sol raia prenunciando a alforria de milhões de almas! E o homem moderno, banhado desta bênção magnífica, sente-se tomado de uma euforia emocionante e indescritível. Uma vez por semana, experimenta uma efusão tão forte que homens de outros tempos talvez passassem a vida inteira sem sentir qualquer coisa semelhante. Lágrimas, júbilo, berros e gratidão aos céus! Sorriso no rosto e o peito querendo explodir! Na quinta nunca há esperança, é como se o escravo já estivesse há longos e exaustivos anos trabalhando fatigado, infeliz, abatido, e ciente de que assim teria de passar o restante de sua vida medíocre e frustrante. Então a sexta-feira! sempre inesperada sexta-feira! a prova cabal de que Deus existe e a vida não é assim tão má! Em hipótese alguma um homem de outros tempos seria capaz de compreendê-lo — e, provavelmente, também não compreenderão os do futuro, posto o mundo laico já não necessite das mordomias de um calendário cristão…

Cahiers, de Emil Cioran

O meu estimado Emil Cioran disse, nestes Cahiers, — publicados postumamente e ainda não vertidos para o português, — que de um pensador sobra-lhe o temperamento. Bela observação! E noto que, quando penso em Cioran, o que relembro-lhe é exatamente o temperamento. Impossível não sorrir. Nestes Cahiers, onde está exposta a dimensão humana de um filósofo que concedeu ao pessimismo várias de suas melhores páginas, — ou que, como disse Fernando Savater, possuía vocação de herege, — estão praticamente todas as cenas que vêm-me em mente ao pensar em Cioran. São quase mil páginas que lhe dotam a obra de um colorido raríssimo: é o filósofo escrevendo para si mesmo, numa página, comentando Buda e Jesus Cristo, noutra acessos de raiva que experimentou em mercearias, ou situações incomuns que vivenciou. Como não sorrir ao ver um sábio, logo após um editor qualquer rejeitar-lhe um prefácio sobre Valéry que lhe custou duras horas de trabalho, exclamar para si mesmo “Terei vingança!”; ou ao ver um atleta dizer que, retornando de vinte quilômetros de caminhada, uma garota ofereceu-lhe o assento no trem; ou, ainda, ao ver um mestre do sarcasmo relatar que, conversando com Jean-Paul Sartre, ouviu do francês ser muito boa a sua “gramática romena”… Penso em Cioran e o que lhe recordo é o humor supremo, que lhe sobressai sobre todas as outras qualidades intelectuais. Cioran, talvez meu amigo predileto a acompanhar-me pelas trevas do pensamento, é também um dos que mais facilmente arranca-me um sorriso do rosto.

Palavras de ordem e palavras de ódio

Duas coisas estragam a beleza de uma religião: palavras de ordem e palavras de ódio. Um fanático objetará de pronto: “É dever do justo odiar o que é mau!”. Oh, mas é claro, meu amigo! E maus, obviamente, são eles!… Se analisarmos os efeitos destrutivos e perniciosos das religiões, se buscarmos compreender a razão de tantos cadáveres e tanto sangue ter sido derramado sob o pretexto de louvá-las e honrá-las, veremos que tudo remete ao tom lamentável com que várias de suas páginas foram escritas. O tom de ordem rebaixa o fiel a servo, e o orgulho do servo exige-lhe cobrar dos outros idêntica postura servil, ainda que não seja ordenado a fazê-lo. Do ódio, que dizer?… qualidade maligna, responsável por cegar e arrancar do homem sua humanidade, incitadora do orgulho e da ignorância, catalisadora de um ser humano pior. As religiões rebaixam-se a partir do momento em que passam a falar de adeptos e não adeptos.

O contraste entre textos antigos e textos modernos

É incrível notar o contraste entre textos antigos e textos modernos. Há nos antigos uma inocência — ao menos, parece-nos ser esta a palavra correta — que nos causa estranheza. Não podemos compreendê-los: há textos que a nós soam como escritos por crianças, ou por seres provenientes de outra raça, habitantes de outro mundo. Mais: os antigos, em sua maioria, quase sempre buscavam versar sobre o essencial — algo raríssimo em tempos modernos, onde a literatura é consagrada ao corriqueiro. Os textos antigos distinguem-se pela expressão de uma admiração, de uma reverência para com a realidade que parece-nos inimaginável. O homem moderno é destituído da faculdade do espanto: para ele, a existência é tediosa e o mundo enfadonho, velhíssimo e banal.