Espanta haver críticos literários profissionais, e dos bons, que tenham escrito linhas e linhas sobre Augusto dos Anjos sem jamais suspeitar que o “poeta da melancolia”, ao encaixar no verso vocábulos como “helminto”, “ancilóstomo” ou “cólpode”, poderia fazê-lo aos risos. Mas não… há críticos que, a bem da verdade, não fizeram senão interpretar o poeta — um poeta! — em sentido literal. E, em sentido literal, a melancolia e o desespero vão bem longe do humor, não é mesmo? Que coisa! Dizem tolices monumentais e engraçadíssimas aqueles que não captam o quão divertido devia ser para Augusto dos Anjos, após a criação genial de sua personalidade poética, forçar os versos a atingir o cume da excentricidade. Talvez jamais artista algum tenha-se divertido tanto ao dar vazão a um conteúdo psicológico tão verdadeiramente angustiante. Porque, em seus versos, são verdadeiros o desespero, a melancolia, a angústia e, também, o humor. Não percebê-lo é não perceber nada.
Categoria: Notas
A técnica do romance moderno…
A técnica do romance moderno, que expande as cenas, apresentando-as com maior riqueza de detalhes e explorando as minúcias interiores e exteriores dos acontecimentos, tem lá suas vantagens. Mas, às vezes, tem-se a impressão de que tal detalhamento enfraquece o enredo. Se tomamos como exemplo os contos populares antiquíssimos de algumas civilizações, vemos que, muitas vezes, a narrativa varia, os detalhes variam, podendo até haver mais ou menos cenas a depender da fonte; não varia, contudo, a sequência lógica da história, e nesta reside a sua força. O curioso é o seguinte: estes contos antigos, mesmo se narrados esquematicamente, desprovidos de artifícios literários, produzem praticamente o mesmo efeito; já um romance moderno, se desprovido das particularidades do estilo do autor, transforma-se noutra coisa bem diferente. As narrativas antigas facilmente podem, como foram e são, ser contadas oralmente sem que muito se perca, algo impossível de se fazer com um romance moderno. Este, só pode contá-lo o autor, e pelas linhas que já escreveu. Talvez, isso signifique que a história nunca ganhe verdadeira autonomia, o que pode ser favorável ou não.
Os tempos de miséria cultural são os mais propícios…
Os tempos de miséria cultural são os mais propícios para imergir nas grandes épocas, nas grandes obras e nas grandes realizações. Isso porque tudo nelas estimula um interesse acentuado pelo contraste, não deixando dúvidas sobre onde mais convém direcionar a atenção. Em verdade, mesmo nos tempos mais prolíficos, é pequena a parcela do que subsiste, e portanto grande a parcela do que distrai. Há, é claro, um sentimento especial proveniente da novidade; mas, talvez, esse sentimento desvie a atenção de onde com muito mais proveito ela se poderia concentrar.
É engraçado como uma conjunção de múltiplos…
É engraçado como uma conjunção de múltiplos fatores, como a própria música moderna, a espantosa facilidade de acesso e, ao mesmo tempo, a raridade de um contato fortuito, de um guia natural, dificultou sobremaneira a orientação nas grandes obras da música. Para conhecer razoavelmente um compositor fecundo como Mozart, Bach, Beethoven ou Brahms, não é necessário apenas o gosto incomum pela música clássica: é preciso um esforço consciente e direcionado para conhecê-los, um esforço de pesquisa por um norte que parece escondido detrás do emaranhado de centenas de composições. O livro de Carpeaux, é claro, mata o problema, e cai como um portento nas mãos do musicófilo moderno. Mas muito antes de pensar em lê-lo, a maioria já cedeu à desorientação.