Simbolistas e Augusto dos Anjos

Interessante notar que dois dos três elementos fundamentais do simbolismo segundo a definição de Valéry — stérilité, préciosité —resumem com grande precisão a obra de Augusto dos Anjos. É verdade, diferente de Rimbaud, Verlaine e Baudelaire, a stérilité de Augustos dos Anjos é decorrente de uma morte prematura, e não de um ato voluntário. De qualquer forma, é admitir: a esterilidade acarretou potência, seja nos franceses, seja em Augusto — este, dono talvez das imagens mais fortes jamais registradas em versos portugueses.

Antagonistas naturais

De um lado, a filosofia da unidade; doutro, a filosofia do acaso. Incompatíveis, antagonistas. E ambas encontram, é verdade, vistosa fundamentação. Privadas, contudo, da certeza, da prova cabal que anularia a argumentação contrária, digladiam-se inutilmente. Como notou Pascal, parece haver no mundo o suficiente para que qualquer um enxergue o que quiser. Dessa forma, a postura filosófica fundamental parece resumir-se no apego ou desapego à incerteza, no apreço aos sinais que podem satisfazer ou não; em suma, na reação do espírito ante o conhecimento adquirido.

Felizes os que não carecem do juízo

Refletir conduz ao juízo e o juízo é insuportável! A mente vê brilhar como nada o pior e aponta, implacável, o veredito. Felizes os que não carecem de passar a régua em todas as linhas, fazer moralismo até em piadas, levando as reflexões às últimas consequências. A existência perde o peso quando se é capaz de calar, cegar, distrair o racional e simplesmente deixar que a vida corra. Aos demais, solidariedade…

Obsessão em Nelson

Tenho pensado muito, muito em Nelson Rodrigues, o primeiro e talvez mais importante de meus mestres. A ausência de uma aposentadoria, as doenças, as censuras, as tragédias… tudo isso moldando uma concepção de mundo. O olhar triste e atento à natureza corrompida do homem. A sucessão inacreditável de desditas, o envelhecer acompanhado de seguidos rompimentos, a coragem para trilhar rumo à morte. E ainda assim, o bom humor, a ironia imortal e a capacidade de enxergar luz onde parece não haver.