Compor em verso livre é uma ótima maneira de fugir do cotejo

Compor em verso livre é uma ótima maneira de fugir do cotejo. Em verso livre, um poema automaticamente se esquiva da classificação de lixo estético: obedece a critérios particulares. Troca o “ruim” pelo “diferente”. E a crítica se vê em apuros ao avaliá-lo, correndo o risco de confundir o péssimo com um “não gostei”. Ao artista, é o caminho da vitória certa, visto ousar um soneto, uma canção ser arriscar a comparação direta com Camões. Quantos se submetem ao desafio? Mais fácil inventar uma nova estética…

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A ausência de uma concepção mais nobre

Penso no grosso da literatura do século XX. O ser humano é um animal multifacetado, ambíguo, sujeito a manifestações diversas e contraditórias. Nele, o selvagem mistura-se ao sublime em proporções variáveis — e, geralmente, desbalanceadas. Um autor, pois, não erra quando o retrata como escravo do desejo, fantoche da vontade. E acerta em cheio quando explora a irracionalidade e o avesso à moral. Entretanto, uma pausa. Há no homem a manifestação do belo, e amputada é a obra que se exima de explorá-la. Dar vida ao espécime humano mais arcaico e animalesco é tarefa, digamos, menos difícil que ousar penetrar a mente do modelo que se eleva acima do banal. Por isso, o autor será menor caso fuja da tarefa de conceber o raro. Onde está o nobre? Inexistente? É o que parece dizer grande parte da literatura incapaz de engendrá-lo ainda que, como Swift, sob a forma de cavalos…

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A explosão de um conflito interior insuportável

Contraposta à representação de fenômenos externos, percebo a grande arte como a explosão de um conflito interior insuportável. Quer dizer: o artista imprime aquilo que o atormenta ou o objeto de seu desejo irreplegível. Obsessões psicológicas, sentimentos que o atacam violentamente… a grande arte é consequência de uma guerra interior. Exatamente por isso, é raro que se apresente como agradável. Intensidade nada tem que ver com paz…

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Um animal inadaptado [2]

Forçado a esperar numa fila, sem nada para ler, aproveito o momento em divertida atividade: arriscar uma lista das coisas que mais detesto. Vamos lá: (1) dissimulação, (2) burocracia, (3) demagogismo, (4) grupos de pessoas, (5) marketing, (6) expansividade, (7) ruído de vozes humanas, (8) conversação fútil… Listo e tenho uma ideia. O sorriso é imediato. Novamente, percebo-me um animal inadaptado. Considero, talvez, que minha existência seja um enigma evolucionista. Possuo incontáveis manifestações contrárias ao meio, de forma que arrisco minha própria natureza ser o retrato da inadaptação. Em mim, o intro e o extra relacionam-se em hostilidade, repelem-se de forma total sem que haja qualquer conciliação possível. Nego, recuso-me deliberadamente a integrar o meio, ainda que falhe e seja perseguido de forma insuportável. Lembro-me das palavras de Thoreau: “Wherever a man goes, men will pursue and paw him with their dirty institutions, and, if they can, constrain him to belong to their desperate odd-fellow society”. Oh, vida irritante! convenções insuportáveis! falatório estúpido!… Adeus, nota, até você causa-me fastio.

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