Poucas ideias parecem-me tão estúpidas quanto o nacionalismo. Não fecho a frase e a mente aponta-me a objeção: Dostoiévski, Hugo, Cervantes… Rejeito. O que esses e muitos outros “patriotas” fizeram extrapola as limitadas fronteiras de onde viveram: a arte que engendraram é expressão de valor universal. Seria acintoso resumi-los a “nacionalistas”. O nacionalismo é uma das muitas portas à estupidez, o patriota ordinário é um ignorante pretensioso que limita, sempre, o próprio intelecto, graças a esse sentimento desprezível que Cioran, repetidas vezes, chamou de péché contre l’esprit. Cioran: exemplo de coragem e liberdade de espírito; um homem sem pátria; alguém que tomou ciência, na prática, de que não dista um milímetro do orgulho nacional à mais abjeta idolatria.
Categoria: Notas
Contrariar o conveniente
Quando o grosso da rotina escorre, dia após dia, em questões de ordem prática, em atividades banalíssimas que se impõem sobre todas as outras, é muito difícil se não colocar a maldizer a existência. A solução mais simples: impedir que o intelecto se manifeste, calar a mente, nunca deixá-la expandir. Sendo tarde, quer dizer? buscar prazer na vida prática? arrumar esposa? filhos? Talvez… Do contrário, é reagir em contraposição ao imperativo da necessidade e, sofrendo as consequências do desdém para com o conveniente, encontrar satisfação no ato voluntário de revolta. Não há o que maldizer… há?
Mais lições…
Primeiro contato com a obra de Paul Valéry. O estilo salta aos olhos, em verso e em prosa. Vasculhando-lhe a biografia, encontro a agressão: seus Cahiers somam duzentos e cinquenta e sete volumes em que, dia após dia, durante cinquenta e um anos, Valéry construiu seu monumento de trinta mil paginas. Trinta mil páginas! Palavras de Carpeaux: “O altíssimo Paul Valéry é um dos prosadores mais brilhantes da língua francesa.” — “Há quem prefira a prosa de Valéry à sua poesia. Há quem considere Valéry maior artista que poeta. Como inteligência em prosa e como artista em verso não há, neste século, quem se lhe compare.” Palavras que dão o que pensar…
Elementos do humor de qualidade
Estou aqui, como um escritor profissional de piadas, deixando-me levar por meu espírito essencialmente analítico e dissecando os elementos do humor de qualidade. Penso em Voltaire. A ironia, se bem aplicada, não conduz às gargalhadas, mas entrega uma satisfação duradoura, sustentável por um longo intervalo. No caso de Voltaire, obviamente, os efeitos da ironia saem como que secundários a uma postura filosófica que lhe dita o tom da obra. Mas voltemos às piadas: parecem-me o absurdo e o exagero os elementos fundamentais das melhores, e a surpresa como resultado essencial. Aqui, as gargalhadas. O mesmo Voltaire fornece um ótimo exemplo: impossível não lembrar do inesquecível anabatista Jacques, qualificado como “bon”, “honnête” e “charitable” por várias páginas em Candide, cuja aparição sempre trata de evocar bons sentimentos e que, subitamente, ao pedir auxílio a um marinheiro em meio a uma tempestade, é atirado brutalmente ao mar pelo desconhecido. O exagero da violência, o absurdo do ato cruel, repentino e injustificável trazem, naturalmente, a gargalhada plena, mas não pelo simples exagero ou absurdo, e sim pela naturalidade com que ambos são apresentados. Neste detalhe parece-me residir o segredo do melhor humor: na exposição do grotesco como fosse vulgar.
