O que é a arte?, de Liev Tolstói

Ensaio interessantíssimo, como sempre, tratando-se desta pena. A Tolstói, a obra de arte é um meio de transmissão de sentimentos, quer dizer: independente do caráter qualitativo do sentimento expresso, — que pode ser bom, mau, forte, fraco… — a obra artística cumpre o seu papel desde que este sentimento comunicado pelo artista seja experimentado por quem entre em contato com ela. E o mestre, sem evasivas, leva a cabo as consequências desta proposição, julgando as variadas teorias estéticas ao longo do tempo e citando inúmeros artistas como exemplo da grande, da péssima, da verdadeira e da falsa arte. Essencialmente, diz ele, a arte não é uma busca pela “beleza”, — nem nenhuma outra abstração, —mas um instrumento que possibilita ao artista a transmissão daquilo que extrapola o argumento racional, a transmissão de sentimentos pessoais experimentados pelo autor. A arte, assim, estabelece um elo entre o artista e o homem comum, justificando-se o papel nobilíssimo na sociedade uma vez que permite que qualquer um tenha experiências que não seriam possíveis por nenhum outro meio. Tolstói julga, também, a arte de seu tempo majoritariamente corrompida e arrisca alguns comentários quanto à “arte do futuro”. O ensaio data de 1898, o mestre faleceu em 1910: poupou-se de presenciar, pois, quão desgraçadamente cairiam por terra todas as suas previsões…

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A construção de um monumento lógico

Sorrio percebendo-me a repugnância por sistemas filosóficos. A construção de um monumento lógico; o enquadramento da realidade, em todas as suas infinitas nuances, numa sistemática racional: nada disso desperta-me o interesse, tudo isso parece-me proveniente de um erro primário. A construção de um sistema filosófico exige a mutilação da realidade: sua aplicabilidade no mundo real, na vida prática, pois, é quase nula. Que sobra além do sistema? Há algo capaz de impactar uma conduta, alterar uma relação entre indivíduo e meio, moldar uma postura real? É o que me pergunto ao julgar a obra de um filósofo, e sorrio ao ver-me a incapacidade de embarcar no delírio e reputar como maravilhoso aquilo aplicável somente no mundo das abstrações. A filosofia que se preze deve ser capaz de enxergar a cadeia, o hospício, o mosteiro e a casa de prostituição.

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Dostoiévski e a técnica artística

Proverbiais são as críticas ao estilo de Dostoiévski. Não somente os russos, como também desconhecedores do idioma costumam dizer de Dostoiévski prolixo, impreciso e muitas outras coisas, a taxar-lhe os textos como mal escritos ou mal acabados. Destes, entretanto, é maioria os que reconhecem o imenso valor da obra de Dostoiévski, o que nos expõe uma questão interessante. Hemingway, em A Moveable Feast, coloca-a nos seguintes termos: “How can a man write so badly, so unbelievably badly, and make you feel so deeply?” A resposta é simples: o que há na obra de Dostoiévski ultrapassa a técnica artística. Sobre esta, guardo-me as inúmeras ressalvas ao so unbelievably badly para quando for capaz de ler em russo — cautela, aliás, que faltou a Hemingway. Mas a questão expõe outra ainda mais interessante: qual é o objetivo da arte? como a grande arte se manifesta? E enganam-se os críticos que julgam o essencial da arte residir na técnica. A grande arte destaca-se, primariamente, pela potência de expressão, pelo efeito que é capaz de gerar. E o estilo, a técnica, a forma são acessórios que contribuem para a criação desse efeito, muitas vezes amplificando a expressividade da obra artística. Intenções diferentes, técnicas diferentes… E distinguindo o essencial, é possível entender como autores de estilos tão díspares como Hemingway e Dostoiévski conseguem, ambos, entregar-nos obras de enorme valor.

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A consciência evoluída tem de portar-se como uma empresa

É curioso notar o movimento da psicologia das massas. Para além da noção utilitária do próprio valor, agora, a consciência evoluída tem de portar-se como uma empresa, isto é, não somente aceitá-los de bom grado, como ansiar por feedbacks. Escuta, ó alma, peça-os e agradeça, sempre! E as relações — todas elas! — dotadas de um caráter comercial. Quer dizer: o ser humano passa a existir em função da “satisfação dos clientes”. De sorriso esticado na face, mostra-lhe a maturidade quando se esforça por agradar. Sempre os outros, sempre o extra, sempre o grupo como critérios soberanos de validação dos próprios atos. E o “senso comum” forçando a universalidade da submissão… Oh, espécie! cujos resquícios da dignidade parecem subordinados a uma migração voluntária de indivíduos de volta à floresta…

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