Já bem longe do gulag e da Sibéria…

Já bem longe do gulag e da Sibéria, um dos fugitivos do grupo de Slavomir Rawicz, impressionado com a hospitalidade de mongóis e tibetanos, reflete, dizendo que “these people make me feel very humble. They do a lot to wipe out bitter memories of other people who have lost their respect for humanity”. E, realmente, é difícil imaginar como é possível que estrangeiros imundos, aos trapos, com o aspecto medonho de quem atravessou a pé a Sibéria e o Deserto de Gobi, grunhindo fonemas estranhos de uma língua desconhecida, possam ter sido, via de regra, recebidos por camponeses como irmãos. O oriente é mesmo especial… E se também não escaparam da corrupção e da maldade, os orientais nunca deixaram de assinalar de todo as qualidades que os distinguem dos outros animais.

The long walk, de Slavomir Rawicz

Uma narrativa como esta dificilmente pode ser igualada pela ficção pura. Para fazê-lo, o escritor tem de empregar extrema habilidade dosando a dramaticidade do enredo, de modo que não soe exagerado, mas ao mesmo tempo comova e convença. Muito, muito difícil… porque, às vezes, o drama se concentra no não dito, no não possível ou não tentado, naquilo que não se concretizou. Do outro lado, temos esta narrativa impressionante, na qual o que vem relatado aparece com o peso exato daquilo que aconteceu. Os exageros são metodicamente dispensados, e ainda assim, a cada capítulo, a cada página, a impressão que se tem é de que a narrativa corre sempre em extremos, sendo preciso que o leitor se esforce para imaginar o grau de intensidade daquilo cuja expressão admitiria numerosas exclamações. Que são os artifícios artísticos diante de uma experiência assim?

A psicologia deve explicar…

A psicologia deve explicar por que, entre todos, são os especialistas em lógica os mais frequentemente ilógicos, quando se metem a analisar situações do mundo real. Basta concedê-los uma oportunidade para descobrirmos: a realidade é bem diferente de uma equação! No entanto, é um mistério errarem tanto e continuarem com o crédito inabalado. Há profissões que são mesmo privilegiadas… Um palhaço não dura muito na carreira se afetado por semelhante insensatez.

É uma loucura que se tenha chegado a afirmar…

É uma loucura que se tenha chegado a afirmar, e se tenha chegado a admitir que a filosofia é ocupação para quem gosta de “argumentos abstratos”. Isso demonstra o quão corruptora é a ação das universidades. Se não houvesse mais nada, a etimologia da palavra deveria ser suficiente para refutar o disparate. Mas, em verdade, a nova definição é mesmo mais precisa para retratar a leva moderna de filósofos, muito mais afeiçoados ao argumento que ao conhecer. A prática acadêmica criou esse novo tipo, impugnando dos forasteiros as credenciais para exercer a velha ocupação. Deve ser dureza ter de levá-los a sério em troca de um pagamento mensal…