Há algo maravilhoso nestes frequentíssimos lampejos experimentados na imediação da morte, que brotam como que esclarecendo a vida inteira, acompanhados de uma lucidez inédita — inédita, exatamente antes de morrer! Racionalizar o fenômeno é inútil, mas decerto algo se passa quando enfim se fecham os eventos de uma vida, quando se pode conectá-los agora que concretizados, e se pode inferir um sentido final. Isso, percebe-o mesmo o observador externo; mas vivê-lo e senti-lo, esse algo intraduzível que transforma e convence, que pacifica e esclarece, é pena que, tardando, nos outros não se pode muito mais do que admirar…
Categoria: Notas
Carregar uma dúvida por anos…
Carregar uma dúvida por anos é virtude que poucos possuem, e que pouquíssimos aprendem a cultivar. E parece que, sem ela, não se forma um verdadeiro intelectual. A dúvida é uma oscilação e também uma abertura, pelo que se difere da certeza, a qual geralmente incorre no encerramento da questão. Se sustentada por um interesse sincero, a dúvida estimula, e a atividade decorrente é às vezes mais benéfica que o encontrar uma possível solução. A confrontação dialética é a base de qualquer conhecimento de valor; e parece que, estranhamente, o estender da primeira valoriza muito aquilo que se pode conhecer.
Causa espanto notar que a questão da imortalidade…
Causa espanto notar que a questão da imortalidade quase nunca seja abordada no grosso daquilo que se chama filosofia especulativa. Para tomar conhecimento dela, é preciso recorrer a obras específicas, não obstante o problema ser primordial para qualquer compreensão que se possa ter da existência. Quer dizer: sua mera possibilidade transforma a natureza da realidade, a qual a filosofia especulativa pretende investigar. Sem abordá-la, sem sequer considerá-la, a filosofia sai mutilada, senão falta de fundamento real. Virar as costas ao desconhecido por uma alegada prudência é, decerto, uma das maiores imprudências que o filósofo pode cometer.
O mais interessante em toda biografia…
O mais interessante em toda biografia é reparar nas coincidências que não parecem coincidências, e embora frequentemente nada possamos fazer senão identificá-las, o seu conjunto parece sempre guardar algo de revelador. Há acontecimentos cuja explicação é cem por cento ociosa: o próprio fato diz mais do que qualquer possível justificação. E marcam, transformam, determinam, de forma que, às vezes, identificá-los ou não significa compreender ou não compreender.