O que há de mais divertido na escrita

O que há de mais divertido na escrita é a possibilidade de individualizar completamente o processo, de maneira a fazer com que o elemento subjetivo atue como potencializador. Na maioria das ocupações, isso não é possível, e a eficácia do processo costuma demandar uma execução sequencial objetiva, algo que, com o tempo, tende a desestimular. Mas o escritor pode muito bem habituar-se a passar um café, ou acender um cigarro nos momentos anteriores ao trabalho, e presenciar, efetivamente, que ao fazê-lo as ideias começam a se mover. No seu processo criativo, há lugar para todas as suas manias, e isso produz uma enorme satisfação.

Um aspecto negligenciado, mas que demarca…

Um aspecto negligenciado, mas que demarca muito bem a evolução de uma personalidade, é a sucessão de rompimentos, conscientes ou não, que vai solidificando aquilo que se pode chamar de passado, e aumentando a lista daquilo que já se superou. Aqui, entram as amizades. Perdê-las sem traumas, de bom grado quando não também voluntariamente, é sinal de que se caminha em alguma direção. Assim, o não perdê-las deveria preocupar, como o deveria a ausência prolongada de rupturas significativas, por talvez sinalizarem uma indesejada estagnação. Quando se avança, algo sempre se deixa para trás.

Às vezes é difícil controlar o forte desinteresse…

Às vezes é difícil controlar o forte desinteresse para com a literatura e seus artifícios, o qual surge após um contato com o extraordinário numa história real. Vem à mente toda a crítica de Northrop Frye, sistematizadora de variadíssimas possibilidades criativas, divisões em gêneros, modos, usos particulares de símbolos, mitos, etc., etc. Tudo isso, enfim, assaz interessante, mas que parece nada diante de uma simples experiência real. Surge a pergunta: para que se lê e para que se estuda? E então percebemos que a literatura, como qualquer ciência, quanto mais as estudamos sob um prisma estritamente técnico, mais deixamos de lado aquilo que verdadeiramente justifica uma criação. Muito, muito difícil não querer mandar para o diabo todos esses expedientes e recolher-se para sempre ao silêncio e à meditação.

Tão intensa quanto a vontade de estudar…

Tão intensa quanto a vontade de estudar e conhecer é a angústia experimentada naqueles dias em que o conhecimento possível parece irrelevante, limitadíssimas as possibilidades e insuficientes os meios de conhecer. E parece que o tempo só faz intensificá-las, à medida que a morte se aproxima e é preciso chegar logo a algumas conclusões. Agravam-se ao mesmo tempo a urgência e a sensação de tempo perdido, já numa fase em que se pensava poder-se apaziguar. Não há solução: é deixar que passe o fugaz nisso tudo e aproveitar ao máximo o impulso positivo, estimulante, quiçá um tanto ilusório, mas que não se esgota e traz sempre um motivo para querer acordar.