O cunho ostensivamente edificante…

O cunho ostensivamente edificante da doutrina cristã do pecado é algo que talvez não tenha paralelo nas demais religiões. Ela fere o âmago do homem e lhe aponta o caminho justo de compensação às suas fraquezas, de maneira que, conhecendo-a, só podem ficar indiferentes o arrogante incurável e aquele que não a compreendeu. O satanista pode rejeitá-la, e mesmo desmantelá-la com argumentos; mas ocorre que, a despeito da firmeza e indignação de suas palavras, se lhe restar o mínimo de hombridade para, sozinho, no recanto mais íntimo de sua consciência, mirar-se e julgar-se, saberá que ela não fala de outro homem senão ele mesmo, e o caminho que aponta, a despeito da dificuldade, é decerto o caminho da redenção.

A vida parece ter uma mecânica que…

A vida parece ter uma mecânica que, ao menos para aquele que não mente para si mesmo no fundo de sua consciência, calca repetidamente o seu orgulho e escancara a sua pequenez. E se tal parece uma constante, variam drasticamente as reações: alguns se fortalecem, mais conscientes e mais humildes, salpicando a vontade de uma modéstia salutar; já outros, lamentavelmente, descaem num desgosto invencível, destrutivo e paralisante. Daí talvez a razão em Santo Agostinho dizer que o orgulho é a raiz de todas as fraquezas, porque o orgulho, se não cede perante a realidade imposta pela vida, por si mesmo só produz destruição.

A verdadeira vocação solidifica mais facilmente…

A verdadeira vocação solidifica mais facilmente quando não dispõe de um meio favorável. Quando não há incentivos ou, por outra, quando se perde exercendo-a, tudo fica muito mais claro, e brota uma como fortaleza da constatação de que é necessário assumir-se e vergonhoso negar aquilo que se é. Aquele que prossegue, pois, sem um professor, um amigo, um ambiente social ou profissional que o alente, sem um empurrão que seja ou sequer uma opinião favorável, um dia acorda e percebe ter desenvolvido uma vontade sólida como um rochedo. E então tem de agradecer muito por essa conjuntura que afinal o favoreceu.

Em meio à interminável miséria humana…

Em meio à interminável miséria humana, há sempre o exemplo edificante; basta procurar. E é preciso fazê-lo sempre, quando o estudo conduz à necessária imersão na primeira, para evitar que ela turve completamente a visão. Reviver admirações antigas, relembrar-se do nobre e sincero já presenciado, tudo isso consola e motiva, tudo isso escancara o quão mais rico é esforçar-se pelo bom. E se a circunstância consterna, se a existência parece escurecer de súbito, é preciso apegar-se, no mínimo, à consciência desta convicção.