O problema em se escrever uma “ode ao fútil”

O problema em se escrever uma “ode ao fútil”, como o fizeram alguns poetas, é que, a partir do momento em que o leitor se depara com um poema assim, prosseguir na leitura significa aceitar o papel de interessado nas futilidades do autor. A maioria, decerto, o aceita, e o aceita entusiasticamente, e o tal poema talvez encerre a genialidade de aproximar-se, pelas letras, de um programa de televisão. Mas ocorre o seguinte: ninguém se interessa por programas da década passada, porque todo fútil possui este atributo que o condena ao esquecimento — é, necessariamente, temporal.

A ironia é uma delícia

A ironia é uma delícia. Irresistível, às vezes. E para alguns temperamentos, essencial. Mas é difícil não enxergar para onde tende, ou melhor, é difícil não enxergar os efeitos de sua prática regular prolongada na personalidade do praticante. Para entendê-lo, basta investigar de onde brota sua motivação. Há ironias que, em suma, edificam; outras degeneram. E tal se percebe não pelas reações que suscitam, mas pelo sentimento que o ironista alimenta dentro de si. Sentar-se sempre à mesa, centrar a vida na crítica mordaz é algo que só se deveria fazer com um objetivo construtivo e purificador.

Não parece nem um pouco seguro tentar…

Não parece nem um pouco seguro tentar estabelecer paralelos entre a aptidão física e a personalidade intelectual de escritores, e a prova disso é que, apenas pelo texto, dificilmente se tem uma pista daquela. Contudo, é muito interessante quando descobrimos que um escritor foi, também, atleta enquanto viveu. O fato é menos interessante pelas possíveis proezas realizadas, e mais pela importância do hábito atlético na rotina: pela necessidade, e pelo colher dos benefícios de exercitar-se. Há, decerto, exercícios e exercícios; contudo, é notório que, desde que executados com alguma intensidade, o trabalho depois deles flui muito melhor. A diferença é sensível: ao trabalho físico sobrevém um relaxamento, uma serenidade positiva para a atividade intelectual.

Talvez, somente a poesia seja comparável…

Talvez, somente a poesia seja comparável à historiografia no Brasil, ambas com uma longa tradição de autores de altíssimo nível, dos mais variados estilos e enfoques. E o curioso é notar que, apesar desta vasta e excelente bibliografia à disposição, o brasileiro comum desconhece por completo a história do Brasil. É uma dessas ironias paralisantes. O americano médio tem lá sua opinião sobre todos os grandes eventos da história americana: conhece-os, ao menos. E nos Estados Unidos, basta entrar em qualquer livraria, em qualquer das extremidades do enorme país, para constatar o seguinte: não há, em nenhuma delas, seção maior do que a de história americana. No Brasil, a despeito dos grandes autores, tal não se passa. E os grandes autores, é bom que se diga, são tão grandes quanto desconhecidos do público geral. Assim, ficamos nessa: a engrenagem da cultura já parece existente; falta, no entanto, que algo force o arranque do motor.