A experiência das guerras do último século…

A experiência das guerras do último século marcou de tal forma a literatura que, às vezes, provoca-nos tédio vê-la novamente relatada, uma vez que já nos encontramos tão distantes e ela já foi há muito tempo assimilada. A verdade, porém, é que ela não foi de forma alguma assimilada ou, pelo menos, as gerações que hoje vivem não se apoiam sobre suas lições. Era de se esperar que, com tantos relatos, com tantos exemplos de intelectuais jogados como prisioneiros, e que tomaram esta circunstância como combustível para a própria vocação, algo mudasse na compreensão humana da existência, e que daí surgisse, no mínimo, uma geração vacinada contra os erros do passado recente. Mas não, não… é um mito essa coisa de que uma geração parte do ponto alcançado pela precedente. Hoje, há de se ler e reler os relatos passados como experiências que provavelmente voltarão.

Algumas biografias geram em nós…

Algumas biografias geram em nós, modernos, um efeito semelhante àquele que se experimenta quando, após aborrecer-se com alguma ninharia ou reclamar-se da vida, encontra-se um morador de rua. Porque, em verdade, justamente mendigos foram alguns dos nomes mais célebres da literatura universal — célebres, aliás, não pela condição material que tiveram, mas pela grandeza de suas obras. E então descobrimos como nos tornamos incapazes de suportar misérias, uma vez que, a nós, pouca coisa já incomoda muito, e uma fração das adversidades suportadas por tantos de nossos antepassados seria suficiente para nos liquidar. Ao menos, o constrangedor é proveitoso.

Apesar do grande risco de degeneração…

Apesar do grande risco de degeneração inerente às relações humanas, deve ser, mesmo, uma grande satisfação participar de um ambiente de intercâmbio cultural, tal como os que houve e os que há em diferentes países, onde um pequeno grupo de intelectuais com comunhão verdadeira de interesses conversam, ensinam, aprendem, se ajudam e se desenvolvem. O que mais parece benéfico, e nem sempre ocorre, é o contato entre diferentes gerações, que possibilita a transmissão pessoal de um legado, o que deve ser igualmente satisfatório para aqueles que o transmitem e aqueles que o recebem. Em verdade, é o que poderia ser realizado pelas universidades, se estas não se tivessem metido em tantas formalidades. Não se pode subestimar o valor da presença física, — ausente nos livros, — e, portanto, a cultura deve muito a estas pequenas associações informais.

Não há negar que, a despeito de tudo quanto…

Não há negar que, a despeito de tudo quanto se pode dizer das conclusões esboçadas por Hegel, sua compreensão dos processos componentes e condutores da realidade, isto é, sua dialética, é de uma lucidez e de uma acuidade impressionantes. Porque para onde quer que voltemos os olhos, um exame aprofundado mostrará que uma ação histórica efetiva suscitará necessariamente sua antítese e terá um resultado diverso de sua intenção. Esta dinâmica, às vezes de dificílima compreensão, equaciona notavelmente a presença fatal do imprevisível, e nos força a tê-lo sempre em vista em qualquer processo. Acostumar-se ao ambíguo e ao complexo é, enfim, colocar-se mais próximo do real.