Um grande erro destes artistas que pretendem conceber obras de “importância nacional” é que, centrando-se numa temática supostamente abrangente, esquecem que, para que ela seja efetivamente abrangente, o melhor teste é assegurar-lhe a relevância a nível pessoal. Falhando em percebê-lo, caem num artificialismo que é o resultado natural quando não se percebe a real importância das coisas. A obra, portanto, concebida para ser abrangente, acaba por sair descolada da realidade — ou, mais simplesmente, irrelevante.
Impressiona a facilidade com que a maioria…
Impressiona a facilidade com que a maioria das pessoas adota teorias, crenças, visões de mundo, novidades de toda espécie e começam imediatamente a professá-las. Uma percepção profunda e instantânea da verdade proferida não parece justificar a maior parte dos casos. Que dizer, então? Parece tal reação só justificável naquele desacostumado a encontrar sentido nas palavras, que finalmente se coloca em contato com um discurso que compreende. Seria só isso? Talvez, também, algo de uma inclinação inata para a repetição. Mas se, algumas vezes, tal inclinação pode mostrar-se frutífera, noutras tantas ela só escancara uma suscetibilidade gigantesca à manipulação.
Não há palavras para descrever a sensação…
Não há palavras para descrever a sensação que experimentamos quando, apreciando a paz que emana de um texto hindu, recordamos as barbaridades descritas por Oliveira Martins cometidas em solo indiano. É um assombro. Imaginar os portugueses, justamente nesta terra onde a paz é sagrada, chegando como demônios, assaltando e assolando, ateando fogo, roubando, matando, submetendo. E, mesmo nos desembarques menos violentos, corrompendo pelo exercício desenfreado dos vícios mais grosseiros, do materialismo mais radical. Só de pensar em cidades indianas transformadas no receptáculo daquelas perversões espantosas, no destino das maiores ambições terrenas, no paraíso da depravação… o melhor é nem continuar.
Para saber respeitar, é preciso saber desprezar
Salvo engano, foi Nietzsche quem disse que, para saber respeitar, é preciso saber desprezar. E é por isso que o elogio iterado parece oco. Conquanto seja muito mais agradável, é preciso exercitar também a crítica, para que o elogio, quando venha, saia valorizado. Rejeitar e apreciar são, enfim, manifestações complementares e indissociáveis.