Sempre coube à filosofia, e não à religião, demonstrar que é-se antes, depois, e além da matéria. Até recentemente, tal argumento foi consensual, visto que o atestava o mais humilde camponês, ainda que dispusesse da percepção direta como ferramenta única de validação. Hoje, naturalmente, tudo mudou. E quando levamos em consideração a simplicidade do raciocínio que conduz à necessidade da antiga conclusão, é realmente um assombro a quantidade de obstáculos que o homem moderno tem de superar para alcançá-la. Ele tem de, primeiro, desfazer uma infinidade de enganos, despegar-se de uma série de noções estúpidas, em suma, deseducar-se. E o pior é que, dizendo desta maneira, não se expressa o tremendo esforço necessário para fazê-lo, que envolve um quase desligamento do próprio tempo e uma quase negação da própria experiência. Este esforço, como se vê, parece demandar a fibra de um devoto, e por isso a dita consciência, hoje, tem se alcançado mais facilmente pela religião do que pela filosofia.
Uma das maiores dificuldades inerentes…
Uma das maiores dificuldades inerentes da investigação da realidade é harmonizar a consciência da insignificância individual com a necessidade individual de agir. A primeira vem automática, quando se contrasta o tamanho e a complexidade do universo com as possibilidades daquele que o observa. Porém, admitindo-se o ser, admitindo-se o irrevogável do ser, tem de se admitir também um motivo, uma necessidade. Daí a conclusão: é-se quase nada, o que se faz é quase nada, mas é-se porque é força ser e fazer.
A melhor literatura é, sempre…
A melhor literatura é, sempre, aquela mais conectada com a experiência direta, sobre a qual se apoia a individualidade do autor. Por mais e melhor que idealize, o seu espírito se mostrará mais intenso quando a descrever não aquilo que imagina, mas o que conhece. E é por esse motivo que, em muitos casos, é a biografia que abona o autor.
A literatura hindu, cuja real exuberância…
A literatura hindu, cuja real exuberância as traduções existentes ainda não são capazes de revelar ao ocidente, já não pode inspirar senão tremendo respeito ao ocidental que a investigue. A verdade é que, por vezes, um texto hindu imaginativamente pobre e precariamente traduzido já é capaz de evocar uma realidade tão impressionante que só empregando toda a sua capacidade imaginativa o ocidental pode conceber. É admirá-la, pois, ainda que o apreendê-la possa parecer inviável ou inconveniente.