A delícia na escolha das rimas

Em meio a agruras intermináveis, não há negar que o fazer poético guarda certa delícia na escolha das rimas, na escolha e na posterior constatação de seu efeito. Não importa o quanto se mecanize o processo, a descoberta de uma rima inesperada é sempre prazerosa e estimula sobremaneira, chegando a tornar-se um como vício que não faz senão mais e mais atrelar o poeta à linguagem. Afinal, é um vício que acaba produtivo e, uma vez experimentado, impressiona a indiferença com a qual alguns poetas o repeliram.

Ao menos uma lição se pode tirar dos céticos…

Ao menos uma lição se pode tirar dos céticos: apegar-se apaixonadamente a uma crença é quase sempre tolice; o melhor é a serenidade, perante as dúvidas e perante as certezas. Apegar-se é frequentemente fechar-se, adicionando à crença um sentimento que o tempo amplifica, até um ponto em que, à menor contrariedade, exibe-se uma reação violenta. Afinal, manifesta-se não o conhecimento, ainda que presente, mas somente a emoção.

O homem que necessite compreender…

O homem que necessite compreender a realidade e compreender-se para empreender uma tentativa de integração será, mesmo, um estranho. E mais se achará estranho quanto mais compreenda da realidade e de si, quanto mais se convença de que o que sabe é pouco, e que não pode aceitar a realidade apenas porque ela é. Ao mesmo tempo, será assaltado de todas as direções em razão de sua incapacidade para a adaptação passiva, e acabará estigmatizado por ser o que é. Enfrentará, assim, grandes e singulares dificuldades por não conseguir se livrar de sua predisposição. Apenas com sorte, o mundo lhe parecerá menos que hostil. E apesar de tudo isso, e a despeito de quanto enfrente e de quanto sofra, a infelicidade lhe só será garantida e completa caso deixe de cumprir o seu dever.

É um tanto curiosa a velada homogeneidade…

É um tanto curiosa a velada homogeneidade na ideia que se faz da evolução histórica no ocidente moderno, quando há enorme acessibilidade a historiadores já consagrados cujas obras desmantelam essa mesma ideia. Quer dizer: o sujeito proclama o que descobriu muito bem documentado em fonte confiável, às vezes em publicação que se deu há mais de meio século, e ainda assim é tido como louco, como inimigo e como criminoso. O consenso velado, por algum motivo, quer-se e perdura imune a determinadas obras. Mas é preciso notar que, pelo menos depois de Hegel, ser historiador tornou-se, em grande medida, ser também iconoclasta.