Chega um momento em que cansa a crítica social e cansa uma literatura inteiramente voltada a tipos inferiores. Chega um momento em que aflige, tortura a ausência da representação de um modelo contrário, um modelo superior que instrua e inspire pelo exemplo, ainda que se possa taxá-lo de utópico ou incompleto. A verdade é que, neste sentido, toda literatura pode ser taxada de utópica e incompleta, isto é, de criação imaginária sob uma ótica individual que necessariamente não pode senão abranger uma parcela da realidade. E não se poderão esquivar, nem a literatura, nem o autor, de que tal parcela seja considerada, para ambos, a mais importante.
A grande literatura guarda um elo fundamental…
A grande literatura guarda um elo fundamental com a realidade, sem o qual perde completamente sua função educativa. É a investigação da realidade, ainda que sob a forma de realidade possível, o que faz com que a literatura amplie o horizonte do leitor, tornando-lhe a compreensão maior do que aquela de alguém que não lê. Disso facilmente se nota não somente a importância, mas a necessidade de que o autor trabalhe na obra o que tem de mais estritamente pessoal. Assim fazendo, permite que aquilo que pôde experimentar e compreender individualmente se torne, pela leitura, também patrimônio de seu interlocutor.
O papel essencial da literatura
O papel essencial da literatura é desvendar, examinar e criticar possibilidades humanas, as quais podem passar despercebidas por aquele que não se atenta ou não as imagina. É um trabalho, em suma, de ampliar e aprofundar a compreensão. A literatura é grande porque jamais se esgota, porque encerra em si mesma o potencial de tudo aquilo ainda não imaginado, abrigando as ideias mais estritamente pessoais. Estas, postas no papel, renovam-na e a engrandecem, numa expansão infinita que jamais deixa de guardar espaço para um novo autor.
O estudo da história é desagradável
O estudo da história é desagradável porque nos obriga a mirar o homem completo, em todas as suas manifestações. Assim que ela demonstra-nos não o que gostaríamos, mas o que foi, e contrariados temos de defrontar crueldades infinitas atreladas a praticamente todos os “grandes feitos”. Mais investigamos, menor fica nossa lista de admirados, até um ponto em que começamos a questionar se realmente é possível, ao mesmo tempo, conhecer e admirar alguém.