Quando se amadurece deveras…

Quando se amadurece deveras, à medida que o tempo vai subtraindo, à medida que a responsabilidade aumenta e o passado adquire peso e vulto, também se adquire a capacidade de desligar-se do acessório até que, enfim, a vida se torna mais simples. Esse processo, porém, é dependente da capacidade de entender-se e enxergar-se proporcionalmente no panorama da existência, algo que, naturalmente, resulta no dimensionamento justo, sem exagero nem demasiada modéstia, daquilo que se pode e que se deve fazer.

É tradicional da sabedoria indiana reforçar…

É tradicional da sabedoria indiana reforçar insistentemente a importância do presente, tendo em vista que, do passado, colhe a mente o remorso e, do futuro, a apreensão. Portanto, parece ser objetivamente impossível uma paz que não se resuma em uma imersão serena e anuente no agora, uma imersão que se satisfaz de si mesma. Mas ah, como ela é difícil! Aquele mínimo que falta, aquele querer que não é muito, mas é colocado num futuro hipotético, aquela felicidade real, plena, reconhecida, que pouco exige mas é distanciada do momento, tudo isso é, decerto, o enterro da paz. E a aflição que brota desta constatação, ou melhor, desta postura, é daquelas que não se vence, porque não se pode acelerar o tempo, nem viver o futuro no presente. Portanto, por mais que pareça difícil, e por mais que às vezes os sábios da velha Índia pareçam repetitivos, a verdade é mesmo só essa: o que há é simplesmente o agora.

O cunho ostensivamente edificante…

O cunho ostensivamente edificante da doutrina cristã do pecado é algo que talvez não tenha paralelo nas demais religiões. Ela fere o âmago do homem e lhe aponta o caminho justo de compensação às suas fraquezas, de maneira que, conhecendo-a, só podem ficar indiferentes o arrogante incurável e aquele que não a compreendeu. O satanista pode rejeitá-la, e mesmo desmantelá-la com argumentos; mas ocorre que, a despeito da firmeza e indignação de suas palavras, se lhe restar o mínimo de hombridade para, sozinho, no recanto mais íntimo de sua consciência, mirar-se e julgar-se, saberá que ela não fala de outro homem senão ele mesmo, e o caminho que aponta, a despeito da dificuldade, é decerto o caminho da redenção.

A vida parece ter uma mecânica que…

A vida parece ter uma mecânica que, ao menos para aquele que não mente para si mesmo no fundo de sua consciência, calca repetidamente o seu orgulho e escancara a sua pequenez. E se tal parece uma constante, variam drasticamente as reações: alguns se fortalecem, mais conscientes e mais humildes, salpicando a vontade de uma modéstia salutar; já outros, lamentavelmente, descaem num desgosto invencível, destrutivo e paralisante. Daí talvez a razão em Santo Agostinho dizer que o orgulho é a raiz de todas as fraquezas, porque o orgulho, se não cede perante à realidade imposta pela vida, por si mesmo só produz destruição.