O português e o inglês

Verter o português ao inglês é um trabalho de destruição de recursos sintáticos. A operação inversa, quase sempre um aniquilamento expressivo. Inglês em português é frequentemente terrível, e o contrário o mais das vezes maçante. Iniciei estas notas disposto a traduzir ao inglês tudo quanto escrevesse: não demorou para que eu desistisse da empresa e deliberasse, ao contrário, não traduzir nada, salvo estas notas. Já vamos a dois anos e dezenas de milhares de palavras vertidas, quando este tempo seria melhor empregado escrevendo mais linhas em português. Fico a calcular quanta frustração e dispêndio de tempo teria enfrentado caso tivesse seguido o plano inicial e traduzido os outros livros que publiquei… Glória a Deus! Disto a dúvida: escuso-me da obrigação velada ou levo ao final aquilo que comecei?

A mente, se não controlada, definha

A mente, se não controlada, definha. Para controlá-la, o dificílimo e contínuo esforço para descartar os impulsos naturais e irreprimíveis. Se o esforço cede, a vontade estabelece-lhe a ditadura, em que a razão é amordaçada. A mente tem-lhe a força e a liberdade vinculadas a um somatório de hábitos que ela mesma é responsável por ditar: se escusa-se da tarefa, condena-se à prostração.

Reticências…

Não importa quão grande seja-me o respeito pelo autor ou quão alta seja a elevação de espírito que uma obra dissertativa produza em mim, nunca experimento a sensação de estar diante da revelação de uma verdade. Seria um vício? um ceticismo exagerado e contraproducente? Ou acaso uma limitação perceptiva? É verdade que o estudo da metafísica alça a mente a um plano muito mais interessante do que o plano da chamada realidade sensível; mas de que adianta, para uma mente incapaz de aceitar fórmulas e contrária à afirmação? Reticências…

Uma lista de próximas leituras só cresce

Não importa quanto se leia, uma lista de próximas leituras só cresce, sempre cresce, até tornar-se um monstro indomável e exigir, por humanamente inexequível, um novo planejamento, do zero, através de uma nova lista. Não há que fazer… É sempre a mesma coisa, e o processo é inevitável. Se, por um lado, é fundamental o planejamento dos estudos, por outro o seu cumprimento integral é inviável ou, melhor dizendo, inconveniente. Isso porque, no decorrer do processo, o interesse se expande para outras vias, e nada há de mais profícuo para a crescimento intelectual que seguir o curso do próprio interesse. As velhas próximas leituras, que fiquem para uma outra ocasião… Em resumo: listas de leitura são importantes diretrizes concebidas para serem descumpridas e descartadas. E é bom que seja assim.