Demora muito para separar-se da cultura vigente, ainda que de forma parcial, e habilitar-se a enxergar a filosofia e a história com lentes menos contaminadas. Às vezes, uma vida não basta. E por isso são afortunados aqueles que cedo conseguem definir o que buscam do estudo, então traçando um plano mais ou menos definido de investigação. Com uma meta visível, fica mais fácil aprofundar-se e consequentemente descobrir o que, no início, nem dava pistas de existir. Daí se abre um novo mundo, alienando permanentemente aquele que o consegue enxergar. O esforço compensa; embora, sem dúvida, não seja um processo indolor.
Os vigilantes, de Herberto Sales
Não pode despertar senão respeito a realização de Herberto Sales que, no conto Os vigilantes, construiu-o unicamente para fazer uma piada no fim. É uma bela apresentação! Decerto, a piada o justifica. E curioso notar que, às vezes, a piada é a preparação para a piada. A graça vai sendo trabalhada cuidadosamente muito antes do efeito final; cria-se, por assim dizer, o cenário oportuno para que ela irrompa surpreendendo. Então ela coroa a narrativa tal como a dita chave de ouro coroa um soneto: justificando o esmero precedente em ocultar ou salientar aquilo que é esclarecido no final. Justíssimo dedicar um conto inteiro a uma piada memorável!
Às vezes estranha o acostumar-se aos heróis…
Às vezes estranha o acostumar-se aos heróis da grande literatura, e então voltar os olhos para o exemplo real de uma vida comum fracassada. Na grande literatura, nem sempre o herói se aventura como quer Joseph Campbell, mas este não erra ao notar que ele tende a evoluir e aprender. É, aliás, o efeito que se espera dos anos no curso de uma vida. Então observamos o exemplo real daquele que parece não ter aprendido nada, não ter amadurecido nada; aquele que tropeçou jovem e, velho, continua a tropeçar. É estranho porque parece um desperdício quase insultuoso, uma recusa ferrenha, inumana, de tomar lições da experiência. Esse é o único fracasso pleno: não tirar proveito daquilo que se viveu.
Diz Dante Milano, no ensaio O verso dantesco…
Diz Dante Milano, no ensaio O verso dantesco:
Em nenhum idioma o “r” soa com tantas vibrações como no italiano. E é desta letra que Dante tira os mais fortes efeitos verbais. Ela é que exprime toda sua cólera. E nenhum outro idioma possui essa força verbal, essa raiva na boca, nos olhos, nas mãos e nas palavras, esse poder de expressão que parece estraçalhar o vocabulário.
Percepção um tanto curiosa… A mim, parece o italiano um idioma muito mais equilibrado diante de suas línguas irmãs, bem próximo ao português, com a diferença que o italiano não possui este fonema gutural fricativo que vemos em “rio”, “Recife”, “raio”, e que, em muitas regiões, como a em que vivo, é também empregado nos “rr”. Comparado ao espanhol, a diferença é mais evidente: o espanhol treme muito mais que o italiano com seus abundantes “r” e “rr”, além de empregar idêntico gutural fricativo no “j”, no “g” antes de “e” e “i”, e no “x” nalguns casos. Se foneticistas o não consideram propriamente um “r”, problema da fonética!, porque o potente fonema não será melhor definido pelo ouvinte senão como um “som de r”. E se o italiano parece tremer pouco diante do espanhol, é diante do francês que mais se evidencia suave — do francês, no qual o gutural fricativo parece dez vezes amplificado e se entranha em todos os períodos, como um som entalado na garganta do falante, que dele jamais se poderá libertar. Quiçá o ouvido se deixe influenciar por experiências que transcendam a fonética. É razoável…