A escrita atinge um novo patamar…

A escrita atinge um novo patamar após adquirir feitio de causa perdida. Como ocorre com estas, o esforço se enobrece e os farsantes renunciam diante da perspectiva infeliz. O trabalho, contudo, ganha inegável autenticidade, a qual se afigura como um prêmio mais valioso do que aquele que inicialmente se poderia esperar. A expectativa frequentemente encurta a vida da dedicação; quando, porém, nada se espera, o próprio esforço acaba se convertendo em fonte de satisfação.

O desterro, inspirador deste sentimento…

O desterro, inspirador deste sentimento que já motivou algumas das melhores obras literárias de todos os tempos, guarda algo de invencível e inexplicável. A realidade do sentimento não se questiona, mas ocorre que, muitas vezes, o desterro parece oferecer ao desterrado condições muito superiores àquelas vivenciadas na terra natal. Mesmo assim, a mente não se convence, nem abandona a convicção de que antes gozava de algo especial. Parece haver uma ligação que não se rompe, que o tempo só fortalece e que a distância transfigura num dever. Nem todos podem experimentá-lo, mas há de se reconhecer que, quando verdadeiro, é um sentimento muito nobre.

Ao escritor que alimenta internamente…

Ao escritor que alimenta internamente o sonho da glória literária, deve ser muito difícil suportar o status miserável proporcionado pela literatura, caso não haja condições bem diversas que lhe confiram algum prestígio social. Decerto, o mais provável é que algo muito diferente da “glória” terá de experimentar. Talvez seja necessário algum talento para lidar com a condição de medíocre aos olhos de todos, ao mesmo tempo que se percebe que medíocres são, em verdade, todos os outros. É o caso de Lima Barreto, a quem parece ter faltado semelhante talento, embora não tenha faltado a percepção agudíssima do fenômeno. A verdade é que não há humilhação nem injustiça neste desprezo, e é bom que o escritor aprenda a manejar, e até se divertir com o constrangimento, para evitar ludibriar-se com os pareceres de um falso juiz.

É sempre muito interessante quando…

É sempre muito interessante quando o historiador ou o biógrafo, fugindo das generalizações costumeiras, consegue esboçar a influência dos fatores econômicos nas vidas individuais. Porque tais fatores, embora às vezes superestimados, e embora isoladamente não expliquem tudo, determinam muito daquilo que se faz. Há decisões que soam irracionais se despojadas dos fatores econômicos que as motivaram, como também há provações, infortúnios e estados de espírito economicamente fundamentados. Às vezes, é neste tipo de fator que se condensam os maiores empecilhos para que uma personalidade possa se afirmar. Parece rasteiro, mas é assim.